O que é
Capsulite adesiva é a inflamação e posterior fibrose (espessamento e aderência) da cápsula articular do ombro, causando dor e perda progressiva de amplitude de movimento, tanto ativa quanto passiva (Neviaser e Hannafin, 2010). É diferente de uma tendinopatia, que costuma limitar movimentos específicos.
Uma revisão de epidemiologia estima que ela atinja de 2% a 5% da população geral. Em uma série de 223 pacientes do Reino Unido, a idade média no início dos sintomas foi de 53,4 anos, as mulheres foram mais afetadas do que os homens (1,6 para 1) e 20% tiveram sintomas nos dois ombros ao longo do tempo. Esses números vêm de um serviço de referência e não representam necessariamente todas as pessoas com o problema.
Fontes: Pogorzelski J, et al. Unfallchirurg. 2019;122(12):917–924 · Hand C, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2008;17(2):231–236.Na maioria dos casos é idiopática (sem causa identificável), mas pode ser secundária a imobilização prolongada, cirurgia ou trauma no ombro (Kelley et al., 2009).
Quem tem mais risco: diabetes e doença da tireoide
Diabetes. Em uma metanálise de 18 estudos, pessoas com diabetes tiveram 5 vezes mais chance de ter capsulite adesiva do que o grupo comparativo (IC 95% 3,2 a 7,7); a prevalência estimada da capsulite entre diabéticos foi de 13,4% e a de diabetes entre os pacientes com capsulite, de 30%. Uma revisão mais recente, com 6 estudos caso-controle (5.388 pessoas), estimou razão de chances de 3,69 (IC 95% 2,99 a 4,56); os próprios autores apontam como principal limitação a confusão não medida, e o risco de viés foi alto em 7 dos 8 estudos incluídos na revisão.
A relação, portanto, existe, mas o tamanho do efeito é incerto. Num estudo dinamarquês de 235 pacientes com capsulite recém-diagnosticada, 34 (14%) já sabiam que tinham diabetes; dos demais, 122 fizeram o exame de hemoglobina glicada e nenhum tinha diabetes ainda não diagnosticado. Nesse estudo, ter diabetes não mudou a intensidade da dor nem a amplitude de movimento.
Fontes: Zreik NH, et al. Muscles Ligaments Tendons J. 2016;6(1):26–34 · Dyer BP, et al. BMJ Open. 2023;13(1):e062377 · Gundtoft PH, et al. South Med J. 2018;111(11):654–659.Tireoide. Uma metanálise de 10 estudos caso-controle (127.967 pacientes) encontrou mais doença da tireoide em quem tem capsulite adesiva (razão de chances 1,87; IC 95% 1,37 a 2,57), principalmente hipotireoidismo (1,92) e hipotireoidismo subclínico (2,56). Não houve associação com hipertireoidismo, embora os autores apontem a falta de estudos sobre o tema. São estudos observacionais: mostram associação, não que a tireoide cause a capsulite.
Fonte: Chuang SH, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2023;32(6):1314–1322.As três fases da doença
- Fase 1 — congelamento: dor progressiva, pior à noite, com perda gradual de amplitude. É a fase mais dolorosa.
- Fase 2 — congelada: a dor diminui, mas a rigidez atinge seu pico, com amplitude muito limitada, especialmente na rotação externa.
- Fase 3 — descongelamento: recuperação gradual da amplitude de movimento.
Essa divisão é uma descrição clínica. Uma revisão de tratamento aponta que a literatura não relata a resposta ao tratamento por fase de forma padronizada e que a evolução natural da doença ainda não é totalmente compreendida; já uma revisão de epidemiologia descreve que cada fase pode durar de vários meses a anos. Por isso, não dá para prometer prazos fixos para cada etapa.
Fontes: Neviaser AS, Hannafin JA. Am J Sports Med. 2010;38(11):2346–2356 · Pogorzelski J, et al. Unfallchirurg. 2019;122(12):917–924.Quanto tempo dura e como termina
Os estudos de acompanhamento de longo prazo mostram melhora na maioria dos pacientes, mas não em todos:
- Em 83 pacientes avaliados de 2 a 27 anos (média de 9 anos) após a primeira consulta, a doença durou em média 15 meses (variação de 4 a 36) no grupo que só foi observado (51 pacientes). Ao final, 94% desse grupo tinha a amplitude de movimento igual à do outro ombro e 51% estavam totalmente sem dor (Vastamäki et al., 2012; estudo retrospectivo, nível IV).
- Em 223 pacientes acompanhados em média por 4,4 anos desde o início dos sintomas, 59% tinham o ombro normal ou quase normal e 41% ainda relatavam algum sintoma, na maioria leve (94% desses); 6% tinham sintomas graves. Quem teve os sintomas mais intensos no início teve pior prognóstico (Hand et al., 2008).
- Em 62 pacientes tratados sem cirurgia e reavaliados após uma média de 7 anos, 50% ainda tinham dor ou rigidez leve, e 11% relatavam alguma limitação funcional leve (Shaffer et al., 1992).
Em resumo: muitos pacientes recuperam bem a função com o tempo, mas uma parte relevante continua com sintomas leves por anos. Os estudos têm desenhos e populações diferentes, e os resultados não são diretamente comparáveis.
Fontes: Vastamäki H, et al. Clin Orthop Relat Res. 2012;470(4):1133–1143 · Hand C, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2008;17(2):231–236 · Shaffer B, et al. J Bone Joint Surg Am. 1992;74(5):738–746.Uma revisão Cochrane (32 ensaios, 1.836 participantes) concluiu que terapia manual associada a exercícios por 6 semanas provavelmente melhora menos, em 7 semanas, do que a infiltração de corticoide (evidência de qualidade moderada, de um único ensaio com 107 participantes): a melhora média da dor foi de 32 pontos em 100 com terapia manual e exercício e de 58 pontos com a infiltração. Relataram sucesso do tratamento 46% (26 de 56) dos pacientes do primeiro grupo e 77% (40 de 52) dos infiltrados. Os eventos adversos foram semelhantes. As diferenças em dor e função aos 6 e 12 meses não foram clinicamente importantes. Para as demais combinações de terapia manual, exercício e eletroterapia, os autores consideraram a evidência incerta e de baixa qualidade.
Uma metanálise posterior (65 estudos, 4.097 participantes) encontrou que apenas a infiltração intra-articular de corticoide teve superioridade estatística e clínica no curto prazo (12 semanas ou menos) sobre as outras intervenções: redução de 1,0 ponto na escala visual de dor em relação a nenhum tratamento ou placebo e de 1,1 ponto em relação à fisioterapia. Associar exercícios domiciliares simples à infiltração pareceu trazer benefício adicional no médio prazo, e os autores sugerem o uso precoce em pacientes com menos de 1 ano de doença. Em um ensaio com 74 pacientes na fase de congelamento, a infiltração aliviou a dor e melhorou a função mais rápido do que anti-inflamatório oral nas primeiras 8 semanas, mas sem diferença na avaliação final, em 12 semanas.
Limitações: nessa comparação, a Cochrane se baseia em um único ensaio; o benefício da infiltração se mostrou de curta duração nos estudos acima; e eles não mostram que ela mude o curso da doença a longo prazo.
Fontes: Page MJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(8):CD011275 · Challoumas D, et al. JAMA Netw Open. 2020;3(12):e2029581 · Ranalletta M, et al. Am J Sports Med. 2016;44(2):474–481.Tratamento por fase
Fase de congelamento (dor predominante): a infiltração intra-articular de corticoide é a opção com mais respaldo para aliviar a dor e melhorar a função no curto prazo (Evidência 1). Um modelo de reabilitação proposto por especialistas (nível de evidência 5, ou seja, opinião fundamentada na literatura) sugere ajustar os exercícios à irritabilidade do ombro: suaves quando a dor é intensa, e mais vigorosos conforme ela diminui (Kelley et al., 2009). Esse ajuste é uma proposta; não foi testado em ensaios que comparassem estratégias.
Fase congelada (rigidez predominante) e descongelamento: manter exercícios de mobilidade, com orientação da fisioterapia, e acompanhar a evolução. Os estudos revisados não permitem dizer qual tipo de fisioterapia é superior a outro.
O ensaio UK FROST (Rangan et al., Lancet 2020) designou ao acaso 503 adultos encaminhados a hospitais do Reino Unido por capsulite adesiva primária para três grupos: manipulação sob anestesia (201 pessoas avaliadas em 12 meses), liberação artroscópica da cápsula (203) ou fisioterapia estruturada precoce com infiltração de corticoide (99). Em 12 meses, a pontuação do Oxford Shoulder Score (0 a 48) foi de 38,3 com a manipulação, 40,3 com a liberação artroscópica e 37,2 com a fisioterapia. Todas as diferenças ficaram abaixo da diferença que os pesquisadores consideravam importante (5 pontos entre fisioterapia e cirurgia), e os autores concluíram que nenhum dos três tratamentos foi clinicamente superior. Houve 8 eventos adversos graves com a liberação artroscópica e 2 com a manipulação. Na análise de custo-efetividade, a manipulação teve a maior probabilidade de ser custo-efetiva.
Uma revisão sistemática de 9 ensaios, que colocou o UK FROST no contexto dos estudos anteriores, chegou à mesma conclusão: nenhuma das opções foi clinicamente superior às outras, e a eficácia da hidrodilatação (distensão da cápsula com líquido) segue inconclusiva.
Limitações: os participantes eram pacientes encaminhados a hospitais do Reino Unido, o que pode não valer para outros contextos; os resultados são de 12 meses; e o estudo compara estratégias, sem provar que uma cirurgia seja necessária para alguém em particular. Como a fisioterapia com infiltração teve resultado clínico semelhante ao dos procedimentos, a decisão de operar deve considerar o risco e a preferência do paciente.
Fontes: Rangan A, et al. Lancet. 2020;396(10256):977–989 · Rex SS, et al. Bone Jt Open. 2021;2(9):773–784.- Perda de amplitude de movimento que não melhora ou que piora apesar do tratamento
- Dor noturna intensa que impede o sono por semanas
- Febre, vermelhidão ou calor local associados à dor (excluir infecção articular)
- Diabetes descompensada associada a rigidez progressiva do ombro
- Trauma recente precedendo o quadro (excluir lesão estrutural associada, como ruptura do manguito rotador)
Resumo
- Capsulite adesiva costuma evoluir em fases (congelamento, congelada, descongelamento), de duração variável, de meses a anos
- Na maioria dos pacientes a função melhora com o tempo, mas em 41% (num estudo de 223 pacientes) ainda havia algum sintoma após cerca de 4 anos, quase sempre leve
- Diabetes e hipotireoidismo estão associados à doença, mas o tamanho do efeito é incerto
- A infiltração de corticoide foi a única intervenção com superioridade clara no curto prazo, sem prova de benefício a longo prazo
- Manipulação sob anestesia, liberação artroscópica e fisioterapia com infiltração tiveram resultado clínico semelhante em 12 meses no maior ensaio disponível
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou fisioterapêutica. O plano de tratamento deve ser individualizado conforme a fase da doença.
Vídeo sobre o tema
Ombro congelado
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Referências
- Challoumas D, Biddle M, McLean M, et al. Comparison of treatments for frozen shoulder: a systematic review and meta-analysis. JAMA Netw Open. 2020;3(12):e2029581. JAMA Netw Open
- Chuang SH, Chen YP, Huang SW, et al. Association between adhesive capsulitis and thyroid disease: a meta-analysis. J Shoulder Elbow Surg. 2023;32(6):1314–1322. JSES
- Dyer BP, Rathod-Mistry T, Burton C, et al. Diabetes as a risk factor for the onset of frozen shoulder: a systematic review and meta-analysis. BMJ Open. 2023;13(1):e062377. BMJ Open
- Gundtoft PH, Kristensen AK, Attrup M, et al. Prevalence and impact of diabetes mellitus on the frozen shoulder. South Med J. 2018;111(11):654–659. South Med J
- Hand C, Clipsham K, Rees JL, et al. Long-term outcome of frozen shoulder. J Shoulder Elbow Surg. 2008;17(2):231–236. JSES
- Kelley MJ, McClure PW, Leggin BG. Frozen shoulder: evidence and a proposed model guiding rehabilitation. J Orthop Sports Phys Ther. 2009;39(2):135–148. JOSPT
- Neviaser AS, Hannafin JA. Adhesive capsulitis: a review of current treatment. Am J Sports Med. 2010;38(11):2346–2356. AJSM
- Page MJ, Green S, Kramer S, et al. Manual therapy and exercise for adhesive capsulitis (frozen shoulder). Cochrane Database Syst Rev. 2014;(8):CD011275. Cochrane
- Pogorzelski J, Imhoff AB, Degenhardt H, et al. Primäre (idiopathische) Schultersteife: Definition, Krankheitsverlauf, Epidemiologie und Ätiologie (artigo em alemão). Unfallchirurg. 2019;122(12):917–924. Unfallchirurg
- Ranalletta M, Rossi LA, Bongiovanni SL, et al. Corticosteroid injections accelerate pain relief and recovery of function compared with oral NSAIDs in patients with adhesive capsulitis: a randomized controlled trial. Am J Sports Med. 2016;44(2):474–481. AJSM
- Rangan A, Brealey SD, Keding A, et al. Management of adults with primary frozen shoulder in secondary care (UK FROST): a multicentre, pragmatic, three-arm, superiority randomised clinical trial. Lancet. 2020;396(10256):977–989. Lancet
- Rex SS, Kottam L, McDaid C, et al. Effectiveness of interventions for the management of primary frozen shoulder: a systematic review of randomized trials. Bone Jt Open. 2021;2(9):773–784. Bone Jt Open
- Shaffer B, Tibone JE, Kerlan RK. Frozen shoulder. A long-term follow-up. J Bone Joint Surg Am. 1992;74(5):738–746. PubMed
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- Zreik NH, Malik RA, Charalambous CP. Adhesive capsulitis of the shoulder and diabetes: a meta-analysis of prevalence. Muscles Ligaments Tendons J. 2016;6(1):26–34. MLTJ