Ilustração 3D anatômica da cervicalgia: vista lateral da coluna cervical C3-C7 mostrando vértebras, discos intervertebrais, musculatura do pescoço com espasmo em vermelho-alaranjado na região paravertebral cervical
Vista lateral da coluna cervical — tensão muscular e compressão discal em C5-C6 (vermelho), estruturas ósseas e medulares

O que é cada coisa

Quão comum é

O estudo Global Burden of Disease estimou 203 milhões de pessoas com dor cervical no mundo em 2020, com projeção de 269 milhões em 2050. A prevalência é maior em mulheres e atinge o pico entre 45 e 74 anos. Segundo os autores, o aumento projetado vem sobretudo do crescimento e do envelhecimento da população: a taxa ajustada por idade ficou estável entre 1990 e 2020.

Fonte: GBD 2021 Neck Pain Collaborators. Lancet Rheumatol. 2024;6(3):e142-e155.

Classificação por gravidade (Neck Pain Task Force)

Uma força-tarefa internacional recomendou separar quem procura atendimento por dor no pescoço em 4 graus, que ajudam a guiar a avaliação e o tratamento:

Fonte: Guzman J, et al. Spine. 2008;33(4 Suppl):S199-S213.
Na fase aguda: onde as diretrizes concordam e onde divergem

A diretriz canadense OPTIMa (2016), feita para dor cervical comum (graus I a III) com menos de 6 meses, recomenda explicar que o curso típico é benigno e autolimitado e orientar a manter atividade e movimento. Nos primeiros 3 meses (graus I e II), sugere considerar educação estruturada combinada com exercícios de amplitude de movimento, com cuidado multimodal (exercício mais manipulação ou mobilização) ou com relaxante muscular. A mesma diretriz desaconselha oferecer educação isolada, colar cervical, eletroterapia e calor em clínica.

A diretriz brasileira AMB/CFM (2009) para atenção primária indica, na dor aguda sem trauma e sem sinal neurológico, analgésico ou anti-inflamatório, relaxante muscular se houver contratura, calor ou gelo e exercícios leves quando não há bloqueio de movimento. Também diz que o colar não melhora a dor aguda comum (só se justificaria com instabilidade após trauma) e não indica acupuntura, eletroterapia nem fisioterapia na dor cervical aguda.

Limites: as duas concordam em não usar colar nem eletroterapia, mas divergem sobre a fisioterapia na fase aguda (a OPTIMa admite exercício e terapia manual; a diretriz brasileira não indica). A diretriz brasileira é de 2009, e o próprio texto afirma que as evidências de efetividade para dor cervical são de baixa qualidade e que a experiência do clínico e a preferência do paciente devem entrar na decisão. A orientação sobre calor e gelo se apoia em opinião, não em ensaios.

Fontes: Côté P, et al. Eur Spine J. 2016;25(7):2000-2022 · Wagner HL, et al. Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2009.

E na dor crônica?

A evidência é limitada e as fontes nem sempre concordam. A OPTIMa, para dor com mais de 3 meses (graus I e II), sugere considerar educação estruturada combinada com exercícios de amplitude e de fortalecimento, qigong, ioga, cuidado multimodal, massagem clínica, laser de baixa intensidade ou anti-inflamatórios, e não recomenda fortalecimento isolado, eletroterapia, diatermia por ondas curtas nem eletroacupuntura. A acupuntura com agulhas não aparece entre as opções dessa diretriz. Já a diretriz brasileira de 2009 vai em sentido diferente em dois pontos: considera que anti-inflamatórios e relaxantes musculares não mostraram efetividade na dor crônica e que exercícios orientados não mostraram benefício claro, e cita benefício da acupuntura, com a ressalva de que parte de quem não recebe tratamento também melhora, o que dificulta a interpretação.

Sobre o exercício, uma revisão Cochrane de 2015 (27 ensaios, 2.485 participantes analisados) encontrou evidência de qualidade moderada de que o fortalecimento do pescoço, da cintura escapular e dos membros superiores reduz a dor na dor cervical crônica logo após o tratamento (diferença padronizada −0,71; IC 95% −1,33 a −0,10), e de que combinar fortalecimento e alongamento melhora dor e função. Alongamento isolado provavelmente não muda dor nem função. Para dor aguda isolada, a revisão não encontrou evidência. Para a cefaleia cervicogênica crônica, há evidência de qualidade moderada a favor de exercícios de fortalecimento e resistência. Os próprios autores concluem que não há evidência de alta qualidade e que o fortalecimento específico pode ser benéfico.

Sobre combinar terapia manual com exercício, a revisão Cochrane de 2025 reuniu apenas 9 ensaios (694 participantes), quase todos de dor crônica e com seguimento de cerca de 4 semanas, comparando a combinação com placebo ou com nenhum tratamento. Contra placebo (2 estudos, 114 participantes), houve pouca ou nenhuma diferença na dor; contra nenhum tratamento (7 estudos, 360 participantes), a dor caiu 2,44 pontos em uma escala de 0 a 10. A certeza da evidência foi baixa. Essa revisão não comparou a combinação com cada tratamento isolado, então não é possível afirmar que combinar seja melhor ou traga resultado mais duradouro.

Fontes: Côté P, et al. Eur Spine J. 2016;25(7):2000-2022 · Gross A, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(1):CD004250 · Chacko N, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2025;12(12):CD011225 · Wagner HL, et al. Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2009.

Como saber se é cefaleia cervicogênica

Os critérios internacionais (ICHD-3) pedem, primeiro, evidência clínica ou de imagem de uma doença ou lesão na coluna cervical ou nos tecidos moles do pescoço capaz de causar dor de cabeça. Depois, é preciso demonstrar a relação de causa e efeito com pelo menos dois destes quatro pontos: a dor de cabeça surgiu em relação temporal com o problema cervical; melhorou ou desapareceu junto com a melhora do problema cervical; a mobilidade do pescoço está reduzida e a dor piora de forma importante com manobras provocativas; ou a dor some após um bloqueio anestésico diagnóstico de uma estrutura cervical ou do seu nervo. Alterações na imagem da coluna cervical alta são comuns em pessoas sem dor de cabeça: sugerem, mas não provam, a relação.

Fonte: Headache Classification Committee of the IHS. Cephalalgia. 2018;38(1):1-211 (seção 11.2.1).

⚠️ Sinais de alerta

Procure avaliação com urgência se, junto com a dor cervical, aparecer:
  • Formigamento ou dormência nas mãos, perda de destreza (dificuldade para abotoar roupa, usar chaves ou escrever), desequilíbrio ao andar, rigidez ou fraqueza nas pernas ou quedas frequentes — pode ser mielopatia cervical (compressão da medula no pescoço)
  • Perda de controle da urina ou das fezes
  • Trauma recente com dor intensa, suspeita de instabilidade — não mover o pescoço, buscar emergência
  • Em crianças: torcicolo com febre (pode ser infecção), ou com dor de cabeça + vômito + desequilíbrio (avaliação para descartar causa neurológica)

Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.

Sintomas de mielopatia cervical: Davies BM, et al. BMJ. 2018;360:k186. Nessa revisão, os sintomas iniciais são sutis e podem ser confundidos com "coisa da idade".

Dor no pescoço que não passa?

Identificar a fase certa (aguda ou crônica) muda as opções de tratamento que as diretrizes consideram.

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Vídeo sobre o tema

Cefaleia cervicogênica

Sociedade Brasileira de Coluna · canal oficial

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. A diretriz OPTIMa descreve o curso típico da dor cervical comum como benigno e autolimitado — mas os sinais de alerta acima merecem atenção rápida.