Ilustração 3D anatômica da dor crônica e sensibilização central: vista posterior do corpo mostrando sistema nervoso central e periférico, com vias nervosas hiperativas destacadas no córtex somatossensorial, tálamo e corno dorsal da medula espinhal
Vias de processamento da dor — sensibilização central no cérebro e medula espinhal, mecanismo por trás da dor crônica

O que é dor crônica

Dor crônica é a dor que persiste ou volta a aparecer por mais de 3 meses. Isso não significa que ela seja "imaginária". Na classificação da IASP para a CID-11, quando a dor é a queixa principal e não decorre de outra doença (como na fibromialgia ou na dor lombar inespecífica), ela é chamada de dor crônica primária e pode ser entendida como uma condição de saúde por si só. Em outros casos, a dor é secundária a uma doença de base, como câncer, lesão de nervo, cirurgia ou doença musculoesquelética.

Fonte: Treede RD, et al. Pain. 2019;160(1):19–27.

Nos Estados Unidos, uma pesquisa nacional de 2016 estimou que 20,4% dos adultos (cerca de 50 milhões) tinham dor crônica e 8,0% tinham dor crônica de alto impacto, isto é, que limita com frequência o trabalho ou a vida diária. Os dois tipos foram mais comuns em mulheres, em idosos e em quem vive na zona rural ou na pobreza. Os números brasileiros podem ser diferentes.

Fonte: Dahlhamer J, et al. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2018;67(36):1001–1006.

O que está associado à dor que persiste

Nenhum fator isolado explica a dor crônica, mas alguns têm respaldo de estudos:

Fontes: Pincus T, et al. Spine. 2002;27(5):E109–E120 · Runge N, et al. Pain. 2024;165(11):2455–2467.
Evidência 1 — a dor crônica primária é reconhecida como condição de saúde

A classificação da IASP, desenvolvida em cooperação com a OMS para a CID-11, propôs códigos para os diferentes tipos de dor crônica, com o objetivo de melhorar o diagnóstico, os estudos epidemiológicos e as decisões de política de saúde, incluindo o acesso a tratamento multimodal. Os autores afirmam que, em condições como a fibromialgia e a dor lombar inespecífica, a dor crônica pode ser considerada uma doença por si só (dor crônica primária). Isso não é uma recomendação de tratamento: é a base para tratar a dor como um problema de saúde que merece cuidado próprio, e não só como sinal de uma lesão a ser encontrada.

Fonte: Treede RD, et al. Pain. 2019;160(1):19–27.

Conversar sobre exames e expectativas faz parte do tratamento

Estudos clínicos e de laboratório mostram que os efeitos placebo (melhora ligada à expectativa positiva) e nocebo (piora ligada à expectativa negativa) influenciam vários sintomas, tanto com tratamentos inertes quanto com tratamentos ativos. Em um consenso de especialistas (estudo Delphi), houve acordo de que informar o paciente sobre esses efeitos pode ser útil, desde que adaptado à condição e ao tratamento.

Fonte: Evers AWM, et al. Psychother Psychosom. 2021;90(1):49–56.

Isso importa porque achados de imagem são comuns em quem não tem dor. Em uma revisão de 33 artigos com 3.110 pessoas sem dor, a degeneração discal na coluna foi vista em 37% das pessoas de 20 anos e em 96% das de 80 anos, e o abaulamento discal em 30% e 84%, respectivamente. Os autores concluem que muitos desses achados fazem parte do envelhecimento normal e não se associam à dor, e que precisam ser interpretados junto com o quadro clínico.

Fonte: Brinjikji W, et al. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811–816.
Evidência 2 — o que as revisões mostram sobre os tratamentos ativos
  • Exercício (Geneen et al., 2017): revisão de 21 revisões Cochrane (381 estudos, 37.143 participantes). O exercício teve poucos efeitos adversos, sobretudo dor muscular que passava em algumas semanas, e pode melhorar a dor e a função, mas com efeitos de pequenos a moderados e inconsistentes entre as revisões. A qualidade da evidência foi baixa, por estudos pequenos e seguimento curto.
  • Terapia cognitivo-comportamental (Williams et al., 2020): 75 estudos (9.401 participantes). Em comparação com o cuidado usual, a TCC teve benefício pequeno na dor (diferença padronizada −0,22; IC 95% −0,33 a −0,10), na incapacidade (−0,32) e no sofrimento (−0,34), em geral mantido no seguimento. Em comparação com outro tratamento ativo, o benefício foi muito pequeno. Para terapia comportamental e terapia de aceitação e compromisso, a evidência foi de qualidade muito baixa.
  • Educação em neurociência da dor (Watson et al., 2019): metanálise de 12 ensaios (755 participantes). O efeito sobre dor e incapacidade teve baixa relevância clínica (por exemplo, −5,9 em 100 na dor a curto prazo, IC 95% −13,8 a 1,9), mas foi clinicamente relevante para o medo de movimento (−13,6 em 100; IC 95% −25,9 a −1,2).
  • Mindfulness (Hilton et al., 2017): 38 ensaios; evidência de baixa qualidade de pequena redução da dor, além de melhora de sintomas depressivos e da qualidade de vida.

Em resumo: nenhum tratamento isolado mostrou efeito grande. Os ganhos são modestos, a qualidade das evidências costuma ser baixa, e o plano precisa ser individualizado.

Fontes: Geneen LJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2017;(4):CD011279 · Williams ACC, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2020;(8):CD007407 · Watson JA, et al. J Pain. 2019;20(10):1140.e1–e22 · Hilton L, et al. Ann Behav Med. 2017;51(2):199–213.

O que fazer na prática

Fonte (educação em dor): Moseley GL, Butler DS. J Pain. 2015;16(9):807–813.
⚠️ Quando a dor crônica precisa de avaliação médica urgente:
  • Dor associada a perda de peso inexplicada, febre ou sudorese noturna
  • Dor noturna que não melhora em nenhuma posição (sinal de alerta)
  • Novo déficit neurológico (fraqueza, perda de sensibilidade, alteração de esfíncteres)
  • Dor que piora progressivamente sem resposta a nenhuma intervenção
  • Sintomas de depressão grave ou pensamentos de se machucar associados à dor crônica. Fale agora com o CVV, ligando 188 (24 horas, gratuito), ou ligue SAMU 192 em caso de risco imediato

Resumo

Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou fisioterapêutica. Dor persistente deve ser avaliada individualmente para excluir causas que exigem tratamento específico.

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Referências