O que é
A síndrome do túnel do carpo (STC) é a compressão do nervo mediano na passagem pelo túnel do carpo, no punho — um espaço estreito formado por ossos e pelo ligamento transverso do carpo. É considerada a neuropatia compressiva mais comum. A diretriz da AAOS/ASSH (2024) cita uma ocorrência de 1% a 5% na população geral, mais frequente entre 40 e 60 anos e em mulheres. Numa coorte do Reino Unido com 401.656 pessoas, 3,1% tinham STC, com razão de cerca de 2 mulheres para 1 homem (1,95:1).
Fatores associados: nessa coorte, diabetes (razão de chances 2,31), artrite reumatoide (2,70), hipotireoidismo (1,47) e índice de massa corporal mais alto. Uma metanálise de 9 estudos observacionais com trabalhadores encontrou risco cerca de 2 vezes maior em quem passa muitas horas com o punho em posição não neutra (flexão ou extensão), o que mostra associação, não prova de causa. Na gravidez, alterações hormonais e de líquidos predispõem à STC, e os sintomas costumam melhorar após o parto.
Fontes: Shapiro LM, Kamal RN, et al. J Am Acad Orthop Surg. 2025;33(7):e356-e366 · Wiberg A, et al. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2022;75(3):1034-1040 · You D, et al. Saf Health Work. 2014;5(1):27-31 · Osterman M, et al. Orthop Clin North Am. 2012;43(4):515-520.Sintomas característicos
- Formigamento e dormência no polegar, indicador, médio e parte do anular (território do nervo mediano) — poupa o dedo mínimo
- Piora noturna — muitos pacientes acordam precisando "sacudir a mão" para melhorar (sinal de flick)
- Piora com atividades que envolvem flexão/extensão repetida do punho (dirigir, digitar, segurar o celular)
- Fraqueza de preensão e perda de destreza fina em casos avançados (dificuldade para abotoar roupa, pegar objetos pequenos)
Diagnóstico
O diagnóstico é predominantemente clínico, baseado em história e exame físico. A diretriz da AAOS/ASSH (2024) dá recomendação forte para usar o escore clínico CTS-6 no lugar do uso rotineiro de ultrassom ou de eletroneuromiografia (ENMG), e recomendação moderada contra o uso de ressonância para diagnosticar. Em um estudo com 143 pacientes, a ENMG alterou pouco a probabilidade de STC naqueles que já tinham alta probabilidade clínica (73% tinham probabilidade inicial de pelo menos 0,80). Ultrassom ou ENMG ficam para quando o quadro clínico é duvidoso ou há suspeita de outra causa, como radiculopatia cervical ou neuropatia periférica generalizada.
Fontes: Shapiro LM, Kamal RN, et al. J Am Acad Orthop Surg. 2025;33(7):e356-e366 · Graham B. J Bone Joint Surg Am. 2008;90(12):2587-2593.A revisão Cochrane de 2023 reuniu 29 ensaios (1.937 adultos) e concluiu que, em comparação com nenhum tratamento ativo, a tala pode trazer pouco ou nenhum benefício nos sintomas em menos de 3 meses (certeza baixa). Um único estudo pequeno (80 mãos) viu mais pessoas relatando melhora geral com tala noturna (risco relativo 3,86), também com certeza baixa. Os autores concluem que não há evidência suficiente para dizer se a tala beneficia, que pequenas melhoras não são descartadas, e que, por ser barata e sem dano plausível de longo prazo, ela pode ser razoável, sobretudo para quem não quer infiltração ou cirurgia.
Fonte: Karjalainen TV, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2023;(2):CD010003.No ensaio holandês de Gerritsen (176 pacientes com STC confirmada por exame elétrico), o sucesso em 3 meses foi de 80% com cirurgia aberta contra 54% com tala noturna por pelo menos 6 semanas. Aos 18 meses foi de 90% contra 75%, mas 41% do grupo da tala já tinham sido operados. No ensaio americano de Jarvik (116 pacientes, tratamento não cirúrgico com fisioterapia da mão e ultrassom), a cirurgia deu melhor função e sintomas em 12 meses, porém os autores descrevem a relevância clínica da diferença como modesta. A revisão Cochrane de 2024 (14 ensaios, 1.231 pessoas) concluiu que a cirurgia, em relação à tala, provavelmente leva mais pessoas à melhora clínica a longo prazo (risco relativo 2,1) e reduz a necessidade de nova cirurgia, mas provavelmente não produz benefício clinicamente importante nos escores de sintomas e função. Contra a infiltração de corticoide, as evidências são incertas. Os próprios autores dizem que a eficácia da cirurgia segue incerta e que a escolha deve equilibrar sintomas, preferências e riscos.
Fontes: Gerritsen AA, et al. JAMA. 2002;288(10):1245-1251 · Jarvik JG, et al. Lancet. 2009;374(9695):1074-1081 · Lusa V, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2024;(1):CD001552.Tratamento
Infiltração de corticoide: a revisão Cochrane de 2023 (14 ensaios, 994 participantes/mãos) concluiu que ela provavelmente melhora sintomas e função em até 3 a 6 meses em comparação com placebo, com eventos adversos graves raros. Já a diretriz da AAOS/ASSH (2024) dá recomendação forte de que a infiltração não traz melhora a longo prazo. Na prática, é um alívio temporário, que pode servir de ponte enquanto se decide o próximo passo.
Tala noturna e ajuste de atividades: a tala pode ser tentada (veja Evidência 1). Reduzir posturas sustentadas do punho é razoável, dada a associação vista em trabalhadores, mas não há ensaio que mostre que isso trate a STC já instalada.
Cirurgia (liberação do túnel do carpo): segundo a revisão Cochrane de 2024, quem tem sintomas intensos, quer a maior chance de melhora clínica e aceita os riscos da operação pode optar por ela; quem tem sintomas toleráveis e quer evitar a morbidade da cirurgia pode começar pelas opções não cirúrgicas e operar só se for preciso. Perda de força e de músculo na base do polegar pede avaliação sem demora (ver sinais de alerta). Segundo a diretriz da AAOS/ASSH, a técnica aberta pequena e a endoscópica dão resultados semelhantes para o paciente, a cirurgia pode ser feita só com anestesia local, não se recomenda tala ou tipoia depois dela, e a dor pós-operatória deve ser tratada com anti-inflamatório e/ou paracetamol. O tempo de volta ao trabalho varia muito: uma revisão de 56 estudos encontrou valores de 4 a 168 dias, com mediana de 21 dias para trabalho sem esforço manual e 39 dias para trabalho manual. Uma metanálise de 48 estudos estimou média de 13 dias para voltar às atividades e 23 dias para o trabalho. Em ambos, a variação entre pessoas foi grande.
Fontes: Ashworth NL, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2023;(2):CD015148 · Lusa V, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2024;(1):CD001552 · Shapiro LM, Kamal RN, et al. J Am Acad Orthop Surg. 2025;33(7):e356-e366 · Newington L, et al. Scand J Work Environ Health. 2018;44(6):557-567 · Miller LE, Chung KC. Expert Rev Med Devices. 2023;20(5):417-425.- Atrofia visível da musculatura da base do polegar (eminência tenar) — sinal de compressão avançada
- Perda progressiva de força e destreza fina na mão
- Dormência constante (não apenas intermitente/noturna), sugerindo compressão mais grave
- Sintomas nas duas mãos associados a outras queixas sistêmicas (investigar hipotireoidismo, diabetes)
- Ausência de melhora apesar de alguns meses de tratamento bem conduzido
A diretriz alerta que a compressão prolongada e sem tratamento pode causar perda permanente de função e de sensibilidade na mão.
Resumo
- STC é a neuropatia compressiva mais comum, com formigamento típico no território do nervo mediano e piora noturna
- O diagnóstico é clínico (escore CTS-6); ultrassom e ENMG ficam para casos duvidosos
- Tala noturna: benefício pequeno e incerto, mas barata e sem dano claro
- Infiltração alivia por alguns meses, sem melhora duradoura
- Cirurgia faz mais gente melhorar que a tala, mas o ganho nos escores é pequeno; a decisão é individual
- Atrofia tenar e dormência constante são sinais de alerta para avaliação sem demora
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou fisioterapêutica. A decisão entre tratamento conservador e cirúrgico deve ser individualizada com base na gravidade e na avaliação clínica.
Vídeo sobre o tema
Síndrome do túnel do carpo
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Referências
- Shapiro LM, Kamal RN, Brault J, et al. American Academy of Orthopaedic Surgeons/ASSH clinical practice guideline summary: management of carpal tunnel syndrome. J Am Acad Orthop Surg. 2025;33(7):e356–e366. JAAOS
- Wiberg A, Smillie RW, Dupré S, et al. Replication of epidemiological associations of carpal tunnel syndrome in a UK population-based cohort of over 400,000 people. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2022;75(3):1034–1040. JPRAS
- You D, Smith AH, Rempel D. Meta-analysis: association between wrist posture and carpal tunnel syndrome among workers. Saf Health Work. 2014;5(1):27–31. Saf Health Work
- Osterman M, Ilyas AM, Matzon JL. Carpal tunnel syndrome in pregnancy. Orthop Clin North Am. 2012;43(4):515–520. Orthop Clin North Am
- Padua L, Coraci D, Erra C, et al. Carpal tunnel syndrome: clinical features, diagnosis, and management. Lancet Neurol. 2016;15(12):1273–1284. Lancet Neurology
- Graham B. The value added by electrodiagnostic testing in the diagnosis of carpal tunnel syndrome. J Bone Joint Surg Am. 2008;90(12):2587–2593. JBJS
- Karjalainen TV, Lusa V, Page MJ, et al. Splinting for carpal tunnel syndrome. Cochrane Database Syst Rev. 2023;(2):CD010003. Cochrane
- Gerritsen AA, de Vet HC, Scholten RJ, et al. Splinting vs surgery in the treatment of carpal tunnel syndrome: a randomized controlled trial. JAMA. 2002;288(10):1245–1251. JAMA
- Jarvik JG, Comstock BA, Kliot M, et al. Surgery versus non-surgical therapy for carpal tunnel syndrome: a randomised parallel-group trial. Lancet. 2009;374(9695):1074–1081. Lancet
- Lusa V, Karjalainen TV, Pääkkönen M, et al. Surgical versus non-surgical treatment for carpal tunnel syndrome. Cochrane Database Syst Rev. 2024;(1):CD001552. Cochrane
- Ashworth NL, Bland JDP, Chapman KM, et al. Local corticosteroid injection versus placebo for carpal tunnel syndrome. Cochrane Database Syst Rev. 2023;(2):CD015148. Cochrane
- Newington L, Stevens M, Warwick D, et al. Sickness absence after carpal tunnel release: a systematic review of the literature. Scand J Work Environ Health. 2018;44(6):557–567. SJWEH
- Miller LE, Chung KC. Determinants of return to activity and work after carpal tunnel release: a systematic review and meta-analysis. Expert Rev Med Devices. 2023;20(5):417–425. Expert Rev Med Devices