O que é
As articulações sacroilíacas ficam nos dois lados da base da coluna, onde o sacro se encaixa nos ossos da bacia. Uma revisão sistemática descreve a articulação sacroilíaca como possível contribuinte para a dor lombar e para dor no membro inferior. Na gravidez, no pós-parto e depois de trauma, o quadro costuma aparecer com outro nome, dor na cintura pélvica, que a diretriz europeia trata como uma forma específica de dor lombar, podendo ocorrer sozinha ou junto com ela.
Fora de gravidez, trauma ou doença, a dor sacroilíaca chamada "inespecífica" costuma ser atribuída a um problema de movimento da articulação, diagnosticado com testes manuais. Um artigo de perspectiva assinado por dez pesquisadores e clínicos argumenta que essa explicação é problemática: segundo eles, cresce a evidência contra a plausibilidade biológica de um "problema de movimento" da articulação, e explicar a dor assim pode reforçar crenças pouco úteis e piorar os resultados. É uma opinião fundamentada, não uma revisão sistemática com números.
Fontes: Simopoulos TT, et al. Pain Physician. 2012;15(3):E305-E344 · Vleeming A, et al. Eur Spine J. 2008;17(6):794-819 · Palsson TS, et al. Phys Ther. 2019;99(11):1511-1519.Quão comum é
Numa revisão sistemática de estudos que usaram bloqueios anestésicos controlados como referência, a prevalência estimada de dor sacroilíaca variou de 10% a 62%, conforme o cenário estudado; a maioria dos estudos analisados apontava uma prevalência pontual de cerca de 25%. Na diretriz europeia sobre dor na cintura pélvica, a prevalência pontual em gestantes é de cerca de 20%.
Esses números têm limite: a faixa larga mostra que o resultado depende de quem foi estudado e de como a dor sacroilíaca foi definida. A prevalência na gravidez é de dor na cintura pélvica em geral, que não é o mesmo que dor sacroilíaca confirmada. A diretriz é de consenso de um grupo de trabalho.
Fontes: Simopoulos TT, et al. Pain Physician. 2012;15(3):E305-E344 · Vleeming A, et al. Eur Spine J. 2008;17(6):794-819.Por que acontece
Os estudos que lemos não apontam uma causa única. A diretriz europeia diz que a dor na cintura pélvica geralmente surge em relação a gravidez, trauma, artrite e/ou artrose. Para a gestação, os fatores de risco mais prováveis são dor lombar anterior e trauma anterior na pelve. Já a ideia de que a dor viria de um problema de movimento da articulação é justamente o ponto que o artigo de Palsson e colegas questiona.
Fontes: Vleeming A, et al. Eur Spine J. 2008;17(6):794-819 · Palsson TS, et al. Phys Ther. 2019;99(11):1511-1519.Diagnóstico: o que os testes mostram
Grupos de testes de provocação de dor. Uma revisão sistemática com metanálise juntou 5 estudos que avaliaram conjuntos de testes de provocação (o examinador reproduz a dor movimentando ou comprimindo a articulação). A razão de verossimilhança positiva foi de 2,13 (IC 95% 1,2 a 3,9) e a negativa, de 0,33 (IC 95% 0,11 a 0,72). Os autores classificaram a certeza como muito baixa. Supondo que 20% das pessoas examinadas tivessem dor sacroilíaca, um conjunto de testes positivo dá 35% de chance de a origem ser mesmo a articulação, e um conjunto negativo deixa cerca de 8%. A conclusão deles: o conjunto positivo não basta para afirmar que a dor vem dali, mas um resultado negativo permite descartar com mais confiança.
Testes isolados e combinados. Numa revisão mais antiga, de 41 estudos de qualidade moderada (7 sobre a articulação sacroilíaca), testes manuais isolados foram pouco informativos; combinados, deram razão de verossimilhança positiva de 3,2 (IC 95% 2,3 a 4,4). Os autores resumem que as mudanças de probabilidade costumam ser pequenas e, no melhor caso, moderadas, e que a utilidade desses testes para escolher o tratamento é incerta.
Fontes: Saueressig T, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2021;51(9):422-431 · Hancock MJ, et al. Eur Spine J. 2007;16(10):1539-1550.O limite principal da primeira revisão é que os 20% de prevalência foram uma suposição dos autores, e não um número medido; com outra prevalência, as probabilidades mudam. Na revisão de 2007, o padrão de referência foi o bloqueio anestésico da articulação, cujo uso para diagnóstico é debatido (veja abaixo).
Sobre esse bloqueio, as fontes discordam. A revisão de Simopoulos e colegas considera que o diagnóstico adequado só se faz com bloqueios anestésicos controlados e estima que bloqueios únicos, sem controle, dão resultado falso-positivo em cerca de 20% dos casos. A diretriz europeia, por outro lado, não recomenda injeções diagnósticas, nem testes de mobilidade por palpação, raio X, tomografia ou cintilografia para dor na cintura pélvica. Ela recomenda testes de provocação de dor (como o thigh thrust, o teste de Patrick-FABER e o de Gaenslen), a palpação de pontos específicos e o teste de elevação ativa da perna esticada, e reserva a ressonância magnética para excluir espondilite anquilosante ou investigar sinais de alerta.
Fontes: Simopoulos TT, et al. Pain Physician. 2012;15(3):E305-E344 · Vleeming A, et al. Eur Spine J. 2008;17(6):794-819 · Palsson TS, et al. Phys Ther. 2019;99(11):1511-1519.Exercício e terapia manual
Terapia manual na articulação sacroilíaca. Uma revisão sistemática de 2024 incluiu 16 ensaios randomizados (421 adultos, idade média de 37,7 anos), dos quais 11 entraram na metanálise. Comparada com fisioterapia sem manipulação (sobretudo exercício, às vezes com recursos passivos; 10 ensaios) ou com tratamento simulado (1 ensaio), a terapia manual não reduziu a dor de forma significativa (diferença padronizada −0,88; IC 95% −1,84 a 0,08). Reduziu a incapacidade, com efeito moderado (−0,67; IC 95% −1,32 a −0,03). A certeza foi muito baixa para dor e baixa para incapacidade, a heterogeneidade foi alta e não ficou claro qual técnica é melhor.
Fonte: Trager RJ, et al. J Man Manip Ther. 2024;32(6):561-572.O intervalo da incapacidade quase encosta no zero (o limite superior é −0,03), e nenhum dos desfechos tem certeza alta. Os próprios autores pedem ensaios que comparem a terapia manual com exercício. A diretriz europeia, de consenso, recomenda informação e tranquilização, exercícios individualizados para gestantes e um programa multifatorial individualizado para os demais pacientes; não é um resultado de ensaio, e sim a recomendação de um grupo de especialistas.
Fontes: Trager RJ, et al. J Man Manip Ther. 2024;32(6):561-572 · Vleeming A, et al. Eur Spine J. 2008;17(6):794-819.Na gravidez e no pós-parto
A revisão Cochrane sobre dor lombar e pélvica na gravidez reuniu 34 ensaios randomizados com 5.121 gestantes. Em programas de exercício de 8 a 12 semanas, o número de mulheres que relataram dor lombar e pélvica foi menor (RR 0,66; IC 95% 0,45 a 0,97; 4 ensaios, 1.176 mulheres; certeza moderada), e exercício em formatos variados reduziu o afastamento do trabalho por essa dor (RR 0,76; IC 95% 0,62 a 0,94; 2 ensaios, 1.062 mulheres). Para a dor pélvica isolada, exercício em grupo somado a orientação sobre manejo da dor não mudou o número de mulheres com dor, comparado ao pré-natal habitual (RR 0,97; IC 95% 0,77 a 1,23; 2 ensaios, 374 mulheres; certeza baixa). Estudos individuais sugeriram que acupuntura ou terapia craniossacral melhoraram a dor pélvica. Os efeitos adversos, quando relatados, foram leves e passageiros.
Fonte: Liddle SD, Pennick V. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(9):CD001139.A qualidade da evidência nessa revisão variou de moderada a baixa, e os autores avisam que novos estudos provavelmente mudarão as estimativas. Só 6 dos 34 ensaios avaliaram dor pélvica isolada, e a revisão trata de dor na gravidez em geral, não de dor sacroilíaca confirmada.
Infiltração e radiofrequência
Metanálise em rede publicada no BMJ (2025). Reuniu 81 ensaios com 7.977 pacientes com dor crônica de coluna, sem câncer, e comparou 13 procedimentos intervencionais com procedimento simulado (sham). Para dor axial crônica, a infiltração dirigida à articulação com corticoide provavelmente dá pouca ou nenhuma diferença no alívio da dor (diferença de 0,83 cm numa escala de 10 cm; IC 95% −0,26 a 1,93; certeza moderada). A infiltração com anestésico e corticoide também ficou sem diferença clara (0,22; IC 95% −0,42 a 0,87; certeza baixa). Para a radiofrequência da articulação, a certeza da evidência foi muito baixa.
Diretriz do BMJ (2025), baseada nessa metanálise. Para dor axial de coluna com mais de 3 meses, sem câncer nem doença inflamatória, o painel fez recomendação forte contra a radiofrequência da articulação (com ou sem infiltração) e contra a infiltração dirigida à articulação. Os procedimentos avaliados incluíram infiltração e denervação por radiofrequência na articulação sacroilíaca e nas articulações facetárias.
Outra revisão, só da radiofrequência sacroilíaca (2024). Incluiu ensaios e estudos observacionais e classificou a evidência como de nível III, "razoável", pela escala usada pelos autores, citando variações de critérios e de técnica entre os estudos.
Fontes: Wang X, et al. BMJ. 2025;388:e079971 · Busse JW, et al. BMJ. 2025;388:e079970 · Janapala RN, et al. Curr Pain Headache Rep. 2024;28(5):335-372.As fontes chegam a conclusões diferentes, e vale entender por quê. A metanálise do BMJ junta várias regiões da coluna e articulações, e as conclusões do resumo valem para a dor axial em conjunto, não para a sacroilíaca isolada; ela compara com procedimento simulado; a revisão da radiofrequência sacroilíaca inclui estudos observacionais, que não conseguem separar o efeito do procedimento do efeito do tempo e da expectativa. A diretriz do BMJ vale para dor crônica e não para dor aguda, e os próprios autores dizem que novas pesquisas podem alterar as recomendações.
Cirurgia: fusão da articulação
Ensaio randomizado contra tratamento não cirúrgico. No estudo INSITE, 148 pessoas com disfunção sacroilíaca foram sorteadas para fusão minimamente invasiva com implantes de titânio triangulares (102) ou tratamento não cirúrgico (46). Aos 6 meses, a taxa de sucesso, como definida pelos autores, foi de 81,4% na cirurgia contra 26,1% no grupo não cirúrgico, e uma melhora clinicamente importante na incapacidade (ODI de 15 pontos ou mais) ocorreu em 73,3% contra 13,6%. Os eventos adversos foram semelhantes (1,3 contra 1,1 por participante; p = 0,31). O grupo não cirúrgico podia migrar para a cirurgia após 6 meses, o que limita a comparação depois desse prazo.
Ensaio com cirurgia simulada. Num estudo pequeno, 23 pacientes foram sorteados para fusão de verdade ou cirurgia simulada. Aos 6 meses, a dor semanal caiu nos dois grupos, com queda maior no grupo operado, diferença que, segundo os autores, foi puxada por alguns "super-respondedores". Os autores chamam os achados de preliminares.
Fontes: Polly DW, et al. Neurosurgery. 2015;77(5):674-690 · Pontén M, et al. Pain Rep. 2025;10(6):e1340.O que esses estudos não permitem concluir: o ensaio INSITE comparou a cirurgia com outro tratamento, e não com cirurgia simulada, e entre os autores há vinculados à fabricante do implante (a afiliação consta no artigo). O ensaio com cirurgia simulada é pequeno demais para orientar decisão, mas mostra que parte da melhora depois de uma operação também aparece quando a operação é simulada.
Como as opções se encaixam
- Primeiro passo: explicação do quadro, exercícios individualizados e adaptação das atividades que provocam a dor. A recomendação vem de diretriz de consenso, não de ensaio.
- Terapia manual: pode ajudar na incapacidade, com certeza baixa; para a dor, o resultado é incerto.
- Infiltração e radiofrequência: fontes divergem. A metanálise de ensaios com procedimento simulado não mostrou benefício claro, e a diretriz do BMJ é contra para dor axial crônica.
- Fusão: há ensaios com melhora maior que o tratamento não cirúrgico, mas comparados com outro tratamento, não com cirurgia simulada; o único ensaio com cirurgia simulada é pequeno. É decisão individual, tomada com cirurgião de coluna.
Qual caminho faz sentido depende de como a dor começou (gravidez, trauma, sem causa clara), do que os exames mostram, de há quanto tempo você tem dor e da sua preferência. Essa é uma decisão para tomar com quem examina você.
⚠️ Quando procurar avaliação
- Perda de força na perna, dormência na região genital ou entre as pernas, ou dificuldade para segurar ou soltar a urina e as fezes: pode ser compressão dos nervos da coluna e exige atendimento de urgência (SAMU 192 ou pronto-socorro).
- Febre ou calafrios com dor forte na nádega ou na parte baixa das costas que piora ao apoiar o peso: pode ser infecção da articulação, rara, mas precisa de avaliação no mesmo dia.
- Dor depois de queda, acidente ou pancada forte na bacia, principalmente se você não consegue apoiar o peso na perna: pode haver fratura.
- Dor nas nádegas ou na lombar que começou ainda jovem, dura meses e vem com rigidez ao acordar ou melhora com movimento: pode ser doença inflamatória da coluna e da bacia, que se investiga com exames.
- Perda de peso sem explicação, dor que não alivia nem em repouso ou histórico de câncer: precisa de investigação antes de qualquer tratamento para a articulação.
- Gestante com dor intensa e súbita, sangramento, perda de líquido, febre ou contrações: procurar a maternidade ou o obstetra, sem esperar a consulta de rotina.
Dor na bacia ou nas nádegas que não passa?
A avaliação procura a origem da dor, e a articulação sacroilíaca é só uma das possibilidades. Depois, discute com você exercício, terapia manual e as demais opções.
Agendar avaliaçãoReferências científicas
- Busse JW, Genevay S, Agarwal A, et al. "Commonly used interventional procedures for non-cancer chronic spine pain: a clinical practice guideline." BMJ. 2025;388:e079970. BMJ
- Hancock MJ, Maher CG, Latimer J, et al. "Systematic review of tests to identify the disc, SIJ or facet joint as the source of low back pain." Eur Spine J. 2007;16(10):1539-1550. Eur Spine J
- Janapala RN, Knezevic E, Knezevic NN, et al. "Systematic Review and Meta-Analysis of the Effectiveness of Radiofrequency Ablation of the Sacroiliac Joint." Curr Pain Headache Rep. 2024;28(5):335-372. Curr Pain Headache Rep
- Liddle SD, Pennick V. "Interventions for preventing and treating low-back and pelvic pain during pregnancy." Cochrane Database Syst Rev. 2015;(9):CD001139. Cochrane
- Palsson TS, Gibson W, Darlow B, et al. "Changing the Narrative in Diagnosis and Management of Pain in the Sacroiliac Joint Area." Phys Ther. 2019;99(11):1511-1519. Phys Ther
- Polly DW, Cher DJ, Wine KD, et al. "Randomized Controlled Trial of Minimally Invasive Sacroiliac Joint Fusion Using Triangular Titanium Implants vs Nonsurgical Management for Sacroiliac Joint Dysfunction: 12-Month Outcomes." Neurosurgery. 2015;77(5):674-690. Neurosurgery
- Pontén M, Thompson WH, Blomé S, et al. "Comparing genuine and sham surgery for sacroiliac joint pain using self-assessments, pain testing, and neuroimaging." Pain Rep. 2025;10(6):e1340. Pain Rep
- Saueressig T, Owen PJ, Diemer F, Zebisch J, Belavy DL. "Diagnostic Accuracy of Clusters of Pain Provocation Tests for Detecting Sacroiliac Joint Pain: Systematic Review With Meta-analysis." J Orthop Sports Phys Ther. 2021;51(9):422-431. JOSPT
- Simopoulos TT, Manchikanti L, Singh V, et al. "A systematic evaluation of prevalence and diagnostic accuracy of sacroiliac joint interventions." Pain Physician. 2012;15(3):E305-E344. PubMed
- Trager RJ, Baumann AN, Rogers H, et al. "Efficacy of manual therapy for sacroiliac joint pain syndrome: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials." J Man Manip Ther. 2024;32(6):561-572. J Man Manip Ther
- Vleeming A, Albert HB, Östgaard HC, Sturesson B, Stuge B. "European guidelines for the diagnosis and treatment of pelvic girdle pain." Eur Spine J. 2008;17(6):794-819. Eur Spine J
- Wang X, Martin G, Sadeghirad B, et al. "Common interventional procedures for chronic non-cancer spine pain: a systematic review and network meta-analysis of randomised trials." BMJ. 2025;388:e079971. BMJ
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Os estudos citados têm limites que estão descritos no texto; a escolha entre exercício, terapia manual, procedimentos e cirurgia deve ser individual.