Ilustração 3D anatômica da tendinopatia glútea: vista lateral e posterior do quadril mostrando pelve, trocânter maior, tendão do glúteo médio lesionado em vermelho-alaranjado, glúteo mínimo, tensor da fáscia lata e fáscia iliotibial
Vista lateral do quadril — degeneração do tendão do glúteo médio (laranja) na inserção no trocânter maior, uma das principais origens da dor lateral do quadril

O que é e por que nem sempre é "bursite"

A tendinopatia glútea é a dor e a perda de função dos tendões do glúteo médio e/ou mínimo na sua inserção no trocânter maior (a proeminência óssea que você palpa no lado externo do quadril). Por muito tempo o diagnóstico habitual era "bursite trocantérica" — inflamação da bolsa sinovial no mesmo local —, mas estudos radiológicos e cirúrgicos indicam que a alteração mais comum é a tendinopatia dos glúteos. Hoje a tendinopatia glútea é considerada a principal origem local da dor lateral do quadril (síndrome da dor trocantérica maior). Num estudo pequeno com 65 pessoas, testes clínicos simples ajudaram a identificar a condição (por exemplo, dor em até 30 segundos apoiado numa perna só), usando a ressonância como referência.

Quem é afetado

É especialmente frequente em mulheres, sobretudo após a menopausa, e pode atrapalhar o sono e as atividades do dia a dia. Num estudo populacional com 3.026 adultos de 50 a 79 anos, a síndrome da dor trocantérica maior afetou um dos lados em 15,0% das mulheres e 6,6% dos homens (risco cerca de 3,4 vezes maior nas mulheres) e estava associada a dor lombar e a artrose do joelho. Por ser um estudo de corte transversal, mostra associação, não causa.

Evidência 1 — educação + exercício teve melhor resultado global que a infiltração de corticoide em 1 ano

No ensaio LEAP (Austrália), publicado no BMJ em 2018, 204 pessoas de 35 a 70 anos com tendinopatia glútea (confirmada por exame clínico e ressonância) e dor lateral por mais de 3 meses foram sorteadas para três grupos: educação + exercício (14 sessões em 8 semanas, com fisioterapeuta), uma infiltração de corticoide ou observar sem tratamento.

  • Em 8 semanas: relataram melhora global 51 de 66 pessoas (educação + exercício), 38 de 65 (corticoide) e 20 de 68 (sem tratamento). A dor média (escala de 0 a 10) foi 1,5, 2,7 e 3,8, respectivamente. O número de pacientes que é preciso tratar para uma melhora a mais foi 2,0 para educação + exercício contra a observação, e 5,0 para educação + exercício contra o corticoide.
  • Em 52 semanas: melhora global em 51 de 65, 36 de 63 e 31 de 60 pessoas, respectivamente. A educação + exercício foi melhor que o corticoide e que a observação nesse desfecho. A dor média foi 2,1, 2,3 e 3,2, sem diferença entre educação + exercício e corticoide; ambos tiveram menos dor que a observação sem tratamento.

Limites: um único ensaio, com cegamento simples (pelo tipo de tratamento, os pacientes sabiam qual receberam); o resultado vale para pessoas com tendinopatia confirmada e sem infiltração prévia no último ano, e não para todo tipo de dor lateral do quadril. Revisões de 2017 e 2024 que reuniram os poucos ensaios existentes concluem que há poucos estudos de boa qualidade: a infiltração de corticoide foi superior a outras opções no alívio da dor por até 3 meses, e o exercício reduziu discretamente a dor a longo prazo e foi superior à infiltração em impressão global de melhora.

Fonte: Mellor R, et al. BMJ. 2018;361:k1662 (doi:10.1136/bmj.k1662) · Barratt PA, et al. Br J Sports Med. 2017;51(2):97-104 (doi:10.1136/bjsports-2015-095858) · Kjeldsen T, et al. Physiotherapy. 2024;123:69-80 (doi:10.1016/j.physio.2024.01.001).
Evidência 2 — exercício específico acrescentado à educação: resultado incerto

Um segundo ensaio, com 94 mulheres na pós-menopausa com síndrome da dor trocantérica maior, comparou 12 semanas de um programa de fortalecimento dos glúteos (GLoBE) com exercícios simulados (sham). Todas as participantes receberam educação sobre como evitar a compressão do tendão, com modificação de atividades. Os dois grupos melhoraram de forma significativa em 12 e 52 semanas no escore VISA-G, e na análise por intenção de tratar não houve diferença entre os grupos. Apenas entre as participantes que responderam bem ao programa (análise de respondedoras) os resultados do GLoBE foram melhores.

Isso sugere que a educação com modificação de atividades pode ser uma parte importante do tratamento e que o benefício do exercício específico além disso ainda não está claro, podendo existir um subgrupo de pacientes que se beneficia mais dele. Uma revisão clínica de 2015 também ressalta que estudos de boa qualidade sobre diagnóstico, fatores de risco e tratamento da tendinopatia glútea ainda são necessários.

Fonte: Ganderton C, et al. J Womens Health (Larchmt). 2018;27(6):815-829 (doi:10.1089/jwh.2017.6729) · Grimaldi A, Fearon A. J Orthop Sports Phys Ther. 2015;45(11):910-922 (doi:10.2519/jospt.2015.5829).

Como foi o tratamento nos estudos

No ensaio LEAP, o grupo ativo recebeu educação sobre o controle da carga sobre o tendão (modificação das atividades) e um programa de exercícios feito em casa e com supervisão do fisioterapeuta, em 14 sessões ao longo de 8 semanas. No ensaio de Ganderton, o programa de fortalecimento durou 12 semanas. Os artigos citados aqui não permitem recomendar um protocolo único de exercícios, então o plano é definido pelo fisioterapeuta de acordo com o seu caso e a sua tolerância à dor.

⚠️ Quando buscar avaliação médica

Procure avaliação se:
  • Dor intensa após queda direta no quadril — excluir fratura do colo do fêmur (especialmente em idosos)
  • Dor que irradia para a virilha ou desce pela perna — possível comprometimento nervoso ou problema intra-articular
  • Dor em repouso severa, febre ou inchaço — excluir causas infecciosas ou tumorais (raras)
  • Ausência de melhora com o tratamento orientado pelo fisioterapeuta ou pelo médico

Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.

Dor persistente no lado externo do quadril?

Uma avaliação diferencia tendinopatia glútea de outras causas de dor lateral de quadril e define o protocolo de exercício adequado.

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Bursite no quadril

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Referências científicas

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