O que é
É o estreitamento do canal por onde passam a medula e as raízes nervosas na região lombar — geralmente por uma combinação de protrusão discal, "bicos de papagaio" (osteófitos), espessamento de um ligamento (ligamento amarelo) e artrose das facetas articulares, tudo relacionado ao envelhecimento da coluna.
Quão comum é
Depende de como se define estenose: pelos sintomas ou pelo exame de imagem. Uma revisão sistemática com meta-análise (Jensen et al., European Spine Journal, 2020) encontrou, com diagnóstico clínico, prevalência média de 11% na população geral (IC 95%: 4% a 18%), 25% em pacientes da atenção primária e 29% da atenção secundária. Pela imagem, havia sinais de estenose em 11% de pessoas sem sintomas. Os próprios autores avisam que dois terços dos estudos tinham alto risco de viés, e as estimativas devem ser lidas com cautela.
No estudo de Framingham (Kalichman et al., Spine Journal, 2009), que analisou tomografias de 191 participantes, a estenose adquirida (relativa, com corte de 12 mm no canal) estava presente em 47,2% das pessoas de 60 a 69 anos; a estenose absoluta (corte de 10 mm), em 19,4%. Isso inclui achados de imagem em quem não tem queixa, e a estenose absoluta se associou a dor lombar (razão de chances de 3,16), mas com intervalo de confiança amplo (1,05 a 9,53). Em resumo: ter o canal estreitado na imagem é comum com o avançar da idade e não é o mesmo que ter a doença.
O sintoma mais característico: claudicação neurogênica
O sinal mais típico da estenose é a claudicação neurogênica: dor, formigamento ou fraqueza nas nádegas ou pernas ao caminhar, que melhora quando a pessoa se inclina para frente ou senta. Isso costuma ser confundido com um problema de circulação (claudicação vascular). A tabela resume as diferenças habituais:
| Característica | Neurogênica (estenose) | Vascular (circulatória) |
|---|---|---|
| O que alivia | Inclinar-se para frente, sentar | Parar de caminhar, em qualquer posição |
| Carrinho de supermercado ou bicicleta | Costumam aliviar (tronco inclinado) | Não costumam aliviar |
| Pulsos nos pés | Normais e simétricos | Podem estar diminuídos ou ausentes |
A tabela é um resumo didático. O respaldo direto vem de um consenso internacional de especialistas (método Delphi; Tomkins-Lane et al., Spine, 2016) com 279 clínicos de 29 países, que elegeu como principais itens da história: dor na perna ou nádega ao caminhar, alívio ao se inclinar para frente, alívio ao usar carrinho de supermercado ou bicicleta, alteração motora ou sensitiva ao caminhar, pulsos dos pés normais e simétricos, fraqueza nas pernas e dor lombar. Com seis perguntas, os especialistas relataram cerca de 80% de certeza no diagnóstico — um dado de confiança dos clínicos, não de acurácia comprovada do diagnóstico. A confirmação depende de exame físico e de imagem compatível.
Os estudos não dão uma resposta única, e vale conhecer o que cada um mostrou:
- Revisão Cochrane (Zaina et al., 2016): reuniu 5 ensaios clínicos (643 participantes) e os autores disseram ter muito pouca confiança para concluir se cirurgia ou tratamento conservador é melhor. Em dois ensaios, a incapacidade (Oswestry) não diferiu significativamente aos 6 meses nem em 1 ano, e aos 24 meses houve diferença a favor da descompressão (−4,43 pontos; IC 95%: −7,91 a −0,96), com evidência de baixa qualidade. Nos estudos que relataram efeitos adversos, eles ocorreram em 10% a 24% dos pacientes operados, e nenhum efeito adverso foi relatado com os tratamentos conservadores.
- Ensaio de Delitto (Annals of Internal Medicine, 2015): 169 candidatos à cirurgia com 50 anos ou mais, sorteados para descompressão ou fisioterapia. Aos 24 meses, a melhora da função física foi parecida (22,4 contra 19,2 pontos; diferença de 0,9 por intenção de tratar, sem significância), mas 57% do grupo da fisioterapia passaram para a cirurgia e não havia grupo sem tratamento.
- SPORT, ensaio com coorte observacional paralela: aos 4 anos (Weinstein et al., Spine, 2010), a análise por tratamento recebido, ajustada, manteve vantagem da cirurgia (dor corporal +12,6 pontos; função física +8,6; Oswestry −9,4). Aos 8 anos (Lurie et al., Spine, 2015), a análise por intenção de tratar não mostrou diferenças; 70% dos sorteados para cirurgia e 52% dos sorteados para tratamento não cirúrgico haviam sido operados. Na análise por tratamento recebido no grupo sorteado, o benefício inicial da cirurgia convergiu com o tempo e não foi significativo entre os anos 6 e 8; já na coorte observacional a vantagem permaneceu estável. Só 55% e 52% dos participantes foram avaliados aos 8 anos.
- Meta-análise de Fernandez (Eur Spine J, 2016): na estenose, a cirurgia foi superior a tratamentos baseados em atividade física no curto prazo (incapacidade −11,39; dor na perna −27,17 numa escala de 0 a 100) e continuou favorecendo a cirurgia após 2 anos, com efeito menor ao longo do tempo. Os autores ressaltam que faltam estudos de alta qualidade.
Resumo honesto: em candidatos à cirurgia, ela parece dar vantagem maior nos primeiros anos; a vantagem a longo prazo é menor ou incerta, a troca de grupos nos ensaios dificulta a interpretação e a cirurgia tem riscos. A decisão é individual e compartilhada.
Fontes: Zaina F, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(1):CD010264 · Delitto A, et al. Ann Intern Med. 2015;162(7):465-473 · Weinstein JN, et al. Spine. 2010;35(14):1329-1338 · Lurie JD, et al. Spine. 2015;40(2):63-76 · Fernandez M, et al. Eur Spine J. 2016;25(11):3495-3512.O que esperar sem cirurgia
Os dados mais antigos são pequenos. Um estudo sueco de 1991 (Johnsson et al., Spine) acompanhou 19 pacientes com estenose que não foram operados, por 31 meses em média: 58% estavam inalterados, 33% se sentiam melhores e não se encontrou piora grave; os autores consideraram a observação por 2 a 3 anos uma alternativa razoável à cirurgia. Por ser um grupo muito pequeno e sem sorteio, esse resultado serve só como indício.
Tratamento
O tratamento conservador — fisioterapia com exercícios e analgésicos por tempo limitado — é o ponto de partida habitual, e o ensaio de Delitto (acima) mostrou que a fisioterapia teve resultado parecido com o da cirurgia em dois anos entre candidatos à operação, embora com muitas trocas de grupo. Quanto às infiltrações, o NICE recomenda não usar injeção epidural para claudicação neurogênica em pessoas com estenose do canal central. Um ensaio randomizado duplo-cego com 400 pacientes (Friedly et al., NEJM, 2014) comparou injeção epidural de corticoide com lidocaína contra lidocaína isolada: em 6 semanas não houve diferença significativa na incapacidade (−1,0 ponto; IC 95%: −2,1 a 0,1) nem na dor na perna (−0,2 ponto; IC 95%: −0,8 a 0,4), ou seja, benefício mínimo ou nulo a curto prazo.
A cirurgia (descompressão, às vezes com fixação da coluna) é uma opção para quem tem sintomas limitantes que persistem apesar do tratamento conservador. Os ensaios acima incluíram candidatos à cirurgia, em geral com pelo menos 12 semanas de sintomas e imagem confirmando a estenose. A escolha depende da gravidade dos sintomas, da saúde geral e das preferências de quem vai ser operado.
⚠️ Sinais de alerta
- Fraqueza motora que piora progressivamente
- Mudança nova no jeito de urinar (dificuldade para começar, jato fraco, esvaziamento incompleto, perda de controle) ou mudança na sensibilidade da região genital ou ao redor do ânus ("em sela") — pode indicar síndrome da cauda equina, que também pode ocorrer na estenose e é uma emergência cirúrgica
- Dor que passou a estar presente mesmo em repouso, sem alívio ao mudar de posição
Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.
Dificuldade para caminhar distâncias que antes eram fáceis?
Uma avaliação identifica se é a coluna, a circulação, ou outra causa — e qual tratamento se aplica ao seu caso.
Agendar avaliaçãoReferências científicas
- Jensen RK, Jensen TS, Koes B, Hartvigsen J. "Prevalence of lumbar spinal stenosis in general and clinical populations: a systematic review and meta-analysis." Eur Spine J. 2020;29(9):2143-2163. Eur Spine J
- Kalichman L, Cole R, Kim DH, et al. "Spinal stenosis prevalence and association with symptoms: the Framingham Study." Spine J. 2009;9(7):545-550. Spine J
- Tomkins-Lane C, Melloh M, Lurie J, et al. "ISSLS Prize Winner: Consensus on the Clinical Diagnosis of Lumbar Spinal Stenosis: Results of an International Delphi Study." Spine. 2016;41(15):1239-1246. Spine
- Zaina F, Tomkins-Lane C, Carragee E, Negrini S. "Surgical versus non-surgical treatment for lumbar spinal stenosis." Cochrane Database Syst Rev. 2016;2016(1):CD010264. Cochrane
- Delitto A, Piva SR, Moore CG, et al. "Surgery versus nonsurgical treatment of lumbar spinal stenosis: a randomized trial." Ann Intern Med. 2015;162(7):465-473. Annals of Internal Medicine
- Weinstein JN, Tosteson TD, Lurie JD, et al. "Surgical versus nonoperative treatment for lumbar spinal stenosis four-year results of the Spine Patient Outcomes Research Trial." Spine. 2010;35(14):1329-1338. Spine
- Lurie JD, Tosteson TD, Tosteson A, et al. "Long-term outcomes of lumbar spinal stenosis: eight-year results of the Spine Patient Outcomes Research Trial (SPORT)." Spine. 2015;40(2):63-76. Spine
- Fernandez M, Ferreira ML, Refshauge KM, et al. "Surgery or physical activity in the management of sciatica: a systematic review and meta-analysis." Eur Spine J. 2016;25(11):3495-3512. Eur Spine J
- Friedly JL, Comstock BA, Turner JA, et al. "A randomized trial of epidural glucocorticoid injections for spinal stenosis." N Engl J Med. 2014;371(1):11-21. NEJM
- Johnsson KE, Udén A, Rosén I. "The effect of decompression on the natural course of spinal stenosis. A comparison of surgically treated and untreated patients." Spine. 1991;16(6):615-619. Spine
- Todd NV, Kearsley N, Wright-Todd A. "Assessment of cauda equina syndrome: new national guidelines and implications for primary care." Br J Gen Pract. 2025;75(757):381-383. BJGP
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). "Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management." NICE guideline NG59. Publicada em 30 de novembro de 2016; última atualização em 29 de julho de 2026. NICE
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. A claudicação nas pernas pode ter causa na coluna, na circulação ou em outra origem — o exame clínico define a causa certa.