O que é
A coluna lombar é formada por vértebras separadas por discos intervertebrais, que funcionam como amortecedores. A hérnia de disco acontece quando o núcleo gelatinoso do disco se desloca através de uma fissura no anel fibroso externo, podendo comprimir uma raiz nervosa próxima. Essa compressão é o que costuma causar a dor que se irradia para a perna (ciática), além da dor lombar.
Quão comum é
Não existe um número único confiável, porque cada estudo define "hérnia de disco" de um jeito. Uma revisão sistemática de 2025 (Hincapié et al., European Spine Journal) encontrou incidência anual entre 0,3 e 2,7 por 1.000 pessoas quando se contam só os casos operados, e entre 0,1 e 298,3 por 1.000 quando se usa uma definição clínica — uma amplitude que mostra a falta de padronização. Há concordância em dois pontos: a hérnia com sintomas é mais frequente entre os 30 e os 50 anos e mais comum em homens, na proporção aproximada de 2 para 1 (Jordan et al., BMJ Clinical Evidence, 2011).
Fatores associados
A mesma revisão sistemática de 2025 (59 estudos de risco de viés baixo ou moderado) encontrou associação entre hérnia de disco com sintomas de raiz nervosa e:
- Idade entre 30 e 50 anos
- Tabagismo
- Índice de massa corporal mais alto
- Fatores de risco cardiovascular (nas mulheres)
- Maior carga acumulada de trabalho sobre a lombar, com tronco inclinado para frente e manuseio manual de cargas
São associações, e os próprios autores apontam a necessidade de estudos melhores para saber se são causas.
Sintomas
Dor lombar que pode irradiar para a nádega e a perna (ciática), formigamento, dormência ou sensação de fraqueza no trajeto do nervo comprimido. A intensidade varia bastante — de um desconforto leve a uma dor incapacitante.
A hérnia sempre precisa de cirurgia?
Não. Uma revisão publicada em 2024 no Deutsches Ärzteblatt International (Kögl et al.), baseada em busca seletiva da literatura, resume que os sintomas se resolvem em 60% a 80% dos pacientes em 6 a 12 semanas e em 80% a 90% no longo prazo (um ano ou mais). Pelas diretrizes que os autores revisaram, recomendam-se 6 a 12 semanas de tratamento conservador quando não há déficit neurológico importante. Como é uma revisão narrativa, esses percentuais são aproximados e dependem de como cada estudo define melhora.
Os ensaios clínicos apontam na mesma direção. No ensaio de Leiden-Haia (Peul et al., NEJM, 2007), 283 pacientes com ciática intensa entre 6 e 12 semanas foram sorteados para cirurgia precoce ou tratamento conservador prolongado (com cirurgia se necessário). No grupo conservador, 55 de 142 pacientes (39%) acabaram operados; a recuperação percebida ao final de 1 ano foi de 95% nos dois grupos. Aos 5 anos (Lequin et al., 2013), 46% dos sorteados para o tratamento conservador tinham sido operados por dor intensa e incapacidade, e não houve diferença significativa entre os grupos nos desfechos principais.
Também é possível que a hérnia diminua de tamanho no exame de imagem. Uma revisão sistemática (Chiu et al., 2015) estimou taxas de regressão espontânea de 96% nas hérnias sequestradas, 70% nas extrusas, 41% nas protrusas e 13% nos abaulamentos, com resolução completa em 43% das sequestradas e 15% das extrusas. Limitações: foram apenas 9 estudos aplicáveis ao cálculo, e a revisão mede o tamanho da hérnia no exame, não a dor.
Num ensaio randomizado dinamarquês (Albert e Manniche, Spine, 2012), 181 pacientes com dor irradiada abaixo do joelho — com sintomas e achados que normalmente os qualificariam para cirurgia — foram sorteados para dois grupos, ambos com informação (anatomia, causa da dor e como as hérnias cicatrizam sem cirurgia) e orientação para se manter ativo: um com exercícios guiados pelos sintomas e outro com exercícios simulados (sham). Em média foram 4,8 sessões. Todos os pacientes tiveram melhora significativa e clinicamente importante, e o grupo do exercício guiado pelos sintomas melhorou significativamente mais na maioria dos desfechos, avaliados após 8 semanas e 1 ano.
O que o estudo não mostra: como os dois grupos receberam a mesma informação e orientação, ele não permite medir o efeito da educação isoladamente; e a melhora em todos os pacientes, inclusive no grupo simulado, é compatível com a evolução natural do quadro. Ele é um estudo único, com cegamento simples (single-blind).
Já a revisão sistemática com meta-análise de Fernandez e colaboradores (Eur Spine J, 2016) reuniu 12 ensaios que compararam cirurgia com tratamentos baseados em atividade física. Na hérnia de disco, a cirurgia foi melhor apenas no curto prazo (diferença média na incapacidade de −9,00 pontos, na dor na perna de −16,01 e na dor lombar de −12,44, numa escala de 0 a 100); no longo prazo, não houve efeito significativo na dor da perna nem na dor lombar. Os autores ressaltam que faltam estudos de alta qualidade.
Fontes: Albert HB, Manniche C. Spine. 2012;37(7):531-542 · Fernandez M, et al. Eur Spine J. 2016;25(11):3495-3512.Quando a cirurgia é considerada
Segundo a revisão de Kögl et al. (2024) e as diretrizes que ela resume:
- Síndrome da cauda equina (veja o alerta abaixo): emergência cirúrgica, com descompressão em 24 a 48 horas.
- Déficit de força importante (grau 3 ou menos na escala de 0 a 5): a cirurgia deve ser oferecida, se possível, em até 3 dias; com fraqueza leve (grau 4) ela pode ser considerada quando há prejuízo funcional. A taxa de recuperação da força varia de 33% a 75%, conforme o grau de fraqueza e o momento do tratamento.
- Dor que piora ou novo déficit neurológico: cirurgia precoce pode ser indicada.
- Dor persistente apesar do tratamento conservador: a diretriz NICE sugere considerar a descompressão quando o tratamento não cirúrgico não melhorou a dor ou a função e os achados de imagem são compatíveis com os sintomas. Num ensaio com 128 pacientes com ciática de 4 a 12 meses (Bailey et al., NEJM, 2020), a dor na perna aos 6 meses foi menor com a microdiscectomia (2,8 contra 5,2 numa escala de 0 a 10).
Sobre resultados a longo prazo, no estudo SPORT acompanhado por 8 anos (Lurie et al., 2014), houve grande troca de grupos: 49% dos designados ao tratamento não cirúrgico acabaram operados, e 60% dos designados à cirurgia a fizeram. Por isso as diferenças da análise por intenção de tratar foram pequenas e não significativas nos desfechos principais, enquanto a análise pelo tratamento efetivamente recebido favoreceu a cirurgia. Entre os operados do SPORT, 15% foram operados de novo em 8 anos (119 de 810), e em 62% dos casos o motivo foi nova hérnia (Leven et al., 2015).
⚠️ Sinal de alerta: síndrome da cauda equina
- Mudança no jeito de urinar: dificuldade para começar, jato fraco ou gotejamento, esvaziamento incompleto, perda da sensação de urinar, retenção ou perda de controle
- Mudança na sensibilidade da região da "sela" (genitais, ao redor do ânus, face interna das coxas)
- Perda de controle das fezes ou alteração do funcionamento do intestino
- Fraqueza nas pernas que piora rapidamente, ou dor que passa a atingir as duas pernas
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Hérnia de disco
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Referências científicas
- Hincapié CA, Kroismayr D, Hofstetter L, et al. "Incidence of and risk factors for lumbar disc herniation with radiculopathy in adults: a systematic review." Eur Spine J. 2025;34(1):263-294. Eur Spine J
- Jordan J, Konstantinou K, O'Dowd J. "Herniated lumbar disc." BMJ Clin Evid. 2011;2011:1118. PubMed
- Kögl N, Petr O, Löscher W, Liljenqvist U, Thomé C. "Lumbar Disc Herniation—the Significance of Symptom Duration for the Indication for Surgery." Dtsch Arztebl Int. 2024;121(13):440-448. Dtsch Arztebl Int
- Chiu CC, Chuang TY, Chang KH, Wu CH, Lin PW, Hsu WY. "The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review." Clin Rehabil. 2015;29(2):184-195. Clin Rehabil
- Peul WC, van Houwelingen HC, van den Hout WB, et al. "Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica." N Engl J Med. 2007;356(22):2245-2256. NEJM
- Lequin MB, Verbaan D, Jacobs WC, et al. "Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica: 5-year results of a randomised controlled trial." BMJ Open. 2013;3(5):e002534. BMJ Open
- Albert HB, Manniche C. "The efficacy of systematic active conservative treatment for patients with severe sciatica: a single-blind, randomized, clinical, controlled trial." Spine. 2012;37(7):531-542. Spine
- Fernandez M, Ferreira ML, Refshauge KM, et al. "Surgery or physical activity in the management of sciatica: a systematic review and meta-analysis." Eur Spine J. 2016;25(11):3495-3512. Eur Spine J
- Bailey CS, Rasoulinejad P, Taylor D, et al. "Surgery versus Conservative Care for Persistent Sciatica Lasting 4 to 12 Months." N Engl J Med. 2020;382(12):1093-1102. NEJM
- Lurie JD, Tosteson TD, Tosteson AN, et al. "Surgical versus nonoperative treatment for lumbar disc herniation: eight-year results for the spine patient outcomes research trial." Spine. 2014;39(1):3-16. Spine
- Leven D, Passias PG, Errico TJ, et al. "Risk Factors for Reoperation in Patients Treated Surgically for Intervertebral Disc Herniation: A Subanalysis of Eight-Year SPORT Data." J Bone Joint Surg Am. 2015;97(16):1316-1325. JBJS
- Ahn UM, Ahn NU, Buchowski JM, Garrett ES, Sieber AN, Kostuik JP. "Cauda equina syndrome secondary to lumbar disc herniation: a meta-analysis of surgical outcomes." Spine. 2000;25(12):1515-1522. Spine
- Todd NV, Kearsley N, Wright-Todd A. "Assessment of cauda equina syndrome: new national guidelines and implications for primary care." Br J Gen Pract. 2025;75(757):381-383. BJGP
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). "Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management." NICE guideline NG59. Publicada em 30 de novembro de 2016; última atualização em 29 de julho de 2026. NICE
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Cada caso de hérnia de disco é único — o diagnóstico e o plano de tratamento dependem de exame clínico e, quando indicado, de exames de imagem.