Ilustração 3D anatômica da lesão isquiotibial: vista posterior da coxa mostrando tuberosidade isquiática, zona de lesão em vermelho-alaranjado, bíceps femoral, semitendíneo, semimembranáceo e inserção tibial/fibular
Vista posterior da coxa — zona de lesão (laranja) na região proximal dos isquiotibiais, junto à tuberosidade isquiática

Anatomia e frequência

Os isquiotibiais são um grupo de 3 músculos (bíceps femoral, semitendíneo e semimembranoso) que flexionam o joelho e estendem o quadril. No futebol profissional masculino europeu, as lesões dos isquiotibiais corresponderam a 19% de todas as lesões em 21 temporadas e chegaram a 24% na temporada mais recente do estudo; em outro estudo de 516 lesões, 83% atingiram o bíceps femoral e 16% eram recidivas.

Nos ensaios de reabilitação de Askling, as lesões são separadas em dois tipos conforme o movimento: o tipo sprint (corrida em alta velocidade) e o tipo alongamento (movimentos que alongam muito a coxa). No estudo com jogadores de futebol, as lesões do tipo alongamento demoraram mais para voltar ao esporte; no estudo com velocistas e saltadores, o mesmo ocorreu com as lesões que envolviam o tendão livre proximal.

Fontes: Ekstrand J, et al. Br J Sports Med. 2023;57(5):292-298 · Ekstrand J, et al. Br J Sports Med. 2012;46(2):112-117 · Askling CM, et al. Br J Sports Med. 2013;47(15):953-959 · Askling CM, et al. Br J Sports Med. 2014;48(7):532-539.
Evidência 1 — a ressonância ajuda, mas não prevê o prazo de cada atleta

A British Athletics Muscle Injury Classification (BAMIC) foi proposta em 2014 para as lesões musculares: graus de 0 a 4 pela ressonância, com os sufixos a, b ou c (nos graus 1 a 4) conforme a lesão seja miofascial, musculotendínea ou intratendínea. Na publicação original ela era uma proposta, e os estudos de validação em atletismo de elite ainda estavam em andamento.

Em um estudo prospectivo no futebol profissional europeu (Ekstrand et al., 2012; 516 lesões, 58% com ressonância), a classificação de Peetrons modificada se associou ao tempo afastado: em média 8 dias (grau 0), 17 dias (grau 1), 22 dias (grau 2) e 73 dias (grau 3, com desvio-padrão de 60 dias). Ainda assim, 70% das lesões eram grau 0 ou 1, sem sinais de ruptura de fibras na ressonância, e mesmo essas causaram a maior parte dos dias de afastamento.

Num estudo prospectivo com 176 atletas homens, que comparou a BAMIC com outras classificações, houve grande variação do tempo de retorno dentro de cada categoria, e as classificações explicaram apenas 7,6% a 11,9% da variação. Os autores concluíram que nenhum dos sistemas pôde ser usado para prever o retorno ao esporte, e que não se recomenda prever o prazo só pela ressonância.

Limitações: os dados vêm de atletas profissionais ou de elite, em vários estudos só homens, e podem não se aplicar a quem pratica esporte por lazer. A ressonância ajuda a confirmar o diagnóstico e a estimar uma faixa de prazo, mas a decisão de retorno depende da avaliação clínica.

Fontes: Pollock N, et al. Br J Sports Med. 2014;48(18):1347-1351 · Ekstrand J, et al. Br J Sports Med. 2012;46(2):112-117 · Wangensteen A, et al. Eur Radiol. 2018;28(8):3532-3541.
Evidência 2 — o exercício nórdico reduz a ocorrência de lesão, mas poucos times o usam

O exercício nórdico de isquiotibiais (Nordic hamstring curl) consiste em ficar ajoelhado, com os pés presos, e deixar o tronco cair para a frente, freando a descida com a parte de trás das coxas. Uma revisão sistemática com metanálise de 15 estudos (van Dyk et al., 2019; 8.459 atletas) mostrou que programas de prevenção que incluem o exercício tiveram risco de lesão menor: razão de risco de 0,49 (IC 95% 0,32 a 0,74), ou seja, redução de até 51%. Considerando só os 8 ensaios randomizados, a razão de risco foi 0,52 (IC 95% 0,32 a 0,85), e 0,55 (IC 95% 0,34 a 0,89) ao excluir os estudos com alto risco de viés.

Limitações: o resultado vem de programas de prevenção que incluíram o exercício, e a metanálise reuniu estudos de qualidade variada. Apesar do benefício, a adoção é baixa: numa pesquisa com 50 times profissionais europeus (Bahr et al., 2015), o programa foi cumprido por completo em 10,7% das temporadas dos clubes e em parte em outras 6%. Na temporada 2020/2021, apenas 1 de 17 times (6%) usou o programa original completo (Ekstrand et al., 2022), e os 5 times que o usaram em todo o elenco ou na maior parte dele tiveram menos lesões, comparação observacional que não prova causa.

Fontes: van Dyk N, et al. Br J Sports Med. 2019;53(21):1362-1370 · Bahr R, et al. Br J Sports Med. 2015;49(22):1466-1471 · Ekstrand J, et al. BMJ Open Sport Exerc Med. 2022;8(3):e001368.
Evidência 3 — reabilitação com exercícios de alongamento sob carga encurtou o retorno em dois ensaios

Dois ensaios randomizados do mesmo grupo compararam um protocolo que enfatiza exercícios de alongamento sob carga (L-protocol) com um protocolo convencional, em atletas com lesão aguda confirmada por ressonância. Em 75 jogadores de futebol de elite, o retorno ao treino completo levou em média 28 dias no L-protocol contra 51 dias no convencional. Em 56 velocistas e saltadores de elite, foram 49 dias contra 86 dias. Houve 1 recidiva no primeiro ensaio e 2 no segundo, todas no grupo convencional.

Uma revisão sistemática mais ampla (Rudisill et al., 2021; 75 estudos) concluiu que a fisioterapia com exercício excêntrico, treino de agilidade progressivo e estabilização do tronco restaurou a função e acelerou o retorno nas lesões musculares, e que, nas rupturas proximais, a cirurgia teve resultado superior ao tratamento sem cirurgia. A revisão Cochrane de 2007 (3 ensaios pequenos) tinha achado evidência limitada e concluído que os protocolos usados na prática não podiam ser nem apoiados nem refutados.

Limitações: os ensaios têm amostras pequenas e foram feitos em atletas de elite. Na revisão de Rudisill, fatores associados a retorno mais demorado incluíram lesão do bíceps femoral, dor mais intensa na lesão, estalo e equimose, além de mais músculos envolvidos.

Fontes: Askling CM, et al. Br J Sports Med. 2013;47(15):953-959 · Askling CM, et al. Br J Sports Med. 2014;48(7):532-539 · Rudisill SS, et al. Orthop J Sports Med. 2021;9(11):23259671211053833 · Mason DL, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2007;(1):CD004575.

Como costuma ser a reabilitação

Os estudos acima não definem um calendário único: o que se repete é uma progressão por critérios, e não por dias, que vai do controle da dor e de contrações suaves para exercícios com carga crescente (com ênfase em alongamento sob carga), depois agilidade, corrida e sprint, e por fim o treino específico do esporte. Não há um conjunto de critérios de liberação validado por ensaios; em geral se considera a ausência de dor, a força e a capacidade de correr em velocidade comparáveis ao lado não lesado, definidas pela equipe que acompanha o atleta. O protocolo deve ser individualizado.

⚠️ Quando buscar avaliação médica

Procure avaliação com urgência se:
  • Dor intensa na parte alta da coxa ou na região do glúteo após um sprint ou movimento de alongamento extremo, com estalo e hematoma: pode ser ruptura proximal, que às vezes precisa de cirurgia
  • Equimose (roxo) extensa na parte de trás da coxa, que pode indicar lesão mais grave
  • Impossibilidade de apoiar o pé ou de caminhar
  • Dor que não melhora de forma progressiva com a reabilitação ou que piora, para reavaliação e, se o médico indicar, exame de imagem

Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.

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Uma avaliação precoce ajuda a identificar a gravidade da lesão e a montar uma reabilitação progressiva e individualizada.

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Referências científicas

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