Anatomia da panturrilha
A panturrilha é composta principalmente por dois músculos:
- Gastrocnêmio (biarticular): cruza o joelho e o tornozelo. É o músculo mais superficial e participa de saltos e arrancadas.
- Sóleo (uniarticular): fica abaixo do gastrocnêmio e atravessa apenas o tornozelo. É um músculo de predomínio de fibras lentas, ligado à resistência.
Ambos se unem para formar o tendão de Aquiles. A lesão clássica da junção entre o gastrocnêmio medial e o sóleo é chamada de "tennis leg", e é frequente em atletas e pessoas ativas. O diagnóstico é principalmente clínico, e ultrassom ou ressonância servem para avaliar a gravidade.
Fonte: Schwach M, et al. Foot (Edinb). 2026;68:102267.Não existe um sistema de graduação universalmente aceito para a distensão da panturrilha. Uma revisão narrativa de 2025 concluiu que ultrassom e ressonância ajudam a graduar a lesão e a estimar o prazo de recuperação, que nenhum método de imagem ou sistema de graduação é superior aos outros, e que a avaliação clínica continua essencial para decidir o retorno ao esporte.
Dois estudos com atletas ilustram a variação do prazo:
- Em 100 pacientes com lesão muscular da panturrilha confirmada por ressonância (Prakash et al., 2018), classificada de 0 a 3 conforme o comprometimento do tecido conjuntivo, o tempo médio até o retorno ao esporte foi de 8 dias (grau 0), 17 dias (grau 1), 25 dias (grau 2) e 48 dias (grau 3).
- Em 149 lesões de jogadores profissionais de futebol australiano (Green et al., 2020), o retorno levou em média 31 dias quando havia ruptura grave da aponeurose na ressonância, contra 19 dias sem ela.
Nesse registro de 184 lesões (Green et al., 2020, Scand J Med Sci Sports), o sóleo foi o músculo mais acometido (84,6%), e o retorno levou em média 25 dias nas lesões do sóleo e 19 dias nas do gastrocnêmio, diferença sem significância estatística (p = 0,097). As lesões sofridas durante a corrida levaram cerca de 12 dias a mais para se recuperar do que as sofridas em outros movimentos. Ou seja, a ideia de que a lesão do sóleo é sempre mais lenta não ficou demonstrada nesses dados. Uma revisão narrativa sobre o "tennis leg" (junção gastrocnêmio medial-sóleo) cita recuperação em geral entre 6 e 12 semanas.
Limitações: os estudos são retrospectivos, com atletas profissionais ou de alto nível, e o tempo de retorno em quem pratica esporte por lazer pode ser diferente. O estudo de Prakash é de serviço único e sem grupo de comparação.
Fontes: Pagan-Rosado R, et al. Sports Med Open. 2025;11(1):158 · Prakash A, et al. Br J Sports Med. 2018;52(14):929-933 · Green B, et al. Am J Sports Med. 2020;48(13):3306-3315 · Green B, et al. Scand J Med Sci Sports. 2020;30(1):174-184 · Schwach M, et al. Foot (Edinb). 2026;68:102267.Uma revisão sistemática (Green e Pizzari, 2017) reuniu 10 estudos, com 5.397 atletas e 518 lesões de panturrilha ou perna, e apontou a idade mais avançada e uma lesão anterior da panturrilha como os fatores de risco mais fortes para uma nova lesão. Os autores ressaltam que há poucos estudos e que a maioria tem alto risco de viés. Uma análise de 83.503 jogos-atleta no futebol australiano (Orchard, 2001) chegou à mesma direção: o maior fator de risco para cada tipo de distensão foi um histórico recente da mesma lesão, e a idade também contou para a panturrilha.
No registro da liga australiana (Green et al., 2020), a recidiva precoce (em até 2 meses) se associou a mais idade e a histórico de lesão de tornozelo, e uma lesão anterior de panturrilha se associou a maior risco de recidiva em até 2 temporadas (razão de risco ajustada de 6,7). Os achados da ressonância da lesão inicial não previram a recidiva; os dados clínicos foram mais úteis.
Quanto a critérios para liberar o retorno, não há um teste único validado por ensaios. O teste de elevação do calcanhar com uma perna, repetido até a fadiga, é usado para acompanhar a recuperação: em 500 pessoas sem lesão (Visser et al., 2025), a mediana foi de 25 repetições na perna dominante, com valores menores em mulheres, em pessoas com IMC mais alto e em quem faz menos atividade física. Por isso o resultado deve ser interpretado pelo fisioterapeuta, comparando com o lado não lesado e com valores de referência, e não como um número fixo de 25.
Fontes: Green B, Pizzari T. Br J Sports Med. 2017;51(16):1189-1194 · Orchard JW. Am J Sports Med. 2001;29(3):300-303 · Green B, et al. Am J Sports Med. 2020;48(13):3306-3315 · Visser TSS, et al. Braz J Phys Ther. 2025;29(3):101188.Como costuma ser o tratamento
Não encontramos ensaio clínico que defina a duração ideal de cada fase de reabilitação da distensão da panturrilha, então os prazos variam entre serviços. Em linhas gerais, a literatura descreve tratamento sem cirurgia, com reabilitação estruturada que progride de alongamento gradual e fortalecimento (incluindo excêntrico) para treino proprioceptivo e, por fim, corrida e gestos do esporte, com a liberação guiada pela recuperação funcional e não só pelo fim da dor. Um ensaio randomizado com 50 atletas recreativos com distensão grave de coxa ou panturrilha (Bayer et al., 2018) não encontrou diferença de força entre iniciar a reabilitação cedo ou tarde, e viu uma tendência (sem significância) a menos dor e mais confiança com o início precoce.
Para a fase aguda, o enquadramento PEACE & LOVE (proteção, elevação, evitar anti-inflamatórios, compressão e educação, seguidos de carga, otimismo, vascularização e exercício) é uma proposta de especialistas publicada em editorial do British Journal of Sports Medicine, e não o resultado de um ensaio sobre a panturrilha. O programa de exercícios, a carga e o ritmo devem ser definidos pelo fisioterapeuta para o seu caso.
Fontes: Schwach M, et al. Foot (Edinb). 2026;68:102267 · Bayer ML, et al. Scand J Med Sci Sports. 2018;28(12):2579-2591 · Dubois B, Esculier JF. Br J Sports Med. 2020;54(2):72-73.⚠️ Quando buscar avaliação médica
- Dor intensa com impossibilidade de apoio ou de ficar na ponta do pé, para excluir ruptura completa do tendão de Aquiles
- Panturrilha muito inchada, endurecida, com calor e vermelhidão, o que pode indicar trombose venosa profunda (TVP)
- Dor que não melhora de forma progressiva com o tratamento, que piora, ou que impede as atividades do dia a dia
Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.
Dor na panturrilha após atividade física?
Uma avaliação clínica identifica o músculo lesado, a gravidade da lesão e orienta um retorno gradual à atividade.
Agendar avaliaçãoReferências científicas
- Bayer ML, Hoegberget-Kalisz M, Jensen MH, et al. "Role of tissue perfusion, muscle strength recovery, and pain in rehabilitation after acute muscle strain injury: A randomized controlled trial comparing early and delayed rehabilitation." Scand J Med Sci Sports. 2018;28(12):2579-2591. SJMSS
- Dubois B, Esculier JF. "Soft-tissue injuries simply need PEACE and LOVE." Br J Sports Med. 2020;54(2):72-73. BJSM
- Green B, Lin M, McClelland JA, et al. "Return to Play and Recurrence After Calf Muscle Strain Injuries in Elite Australian Football Players." Am J Sports Med. 2020;48(13):3306-3315. AJSM
- Green B, Lin M, Schache AG, McClelland JA. "Calf muscle strain injuries in elite Australian Football players: A descriptive epidemiological evaluation." Scand J Med Sci Sports. 2020;30(1):174-184. SJMSS
- Green B, Pizzari T. "Calf muscle strain injuries in sport: a systematic review of risk factors for injury." Br J Sports Med. 2017;51(16):1189-1194. BJSM
- Orchard JW. "Intrinsic and extrinsic risk factors for muscle strains in Australian football." Am J Sports Med. 2001;29(3):300-303. AJSM
- Pagan-Rosado R, Troyer W, Rosario-Concepcion R, et al. "Calf Strains in Athletes: A Narrative Review of Management, Injury Grading, and Return to Sport." Sports Med Open. 2025;11(1):158. Sports Med Open
- Prakash A, Entwisle T, Schneider M, Brukner P. "Connective tissue injury in calf muscle tears and return to play: MRI correlation." Br J Sports Med. 2018;52(14):929-933. BJSM
- Schwach M, Gaulin B, Vermorel PH, et al. "Tennis leg: Diagnosis and management - A state-of-the-art review." Foot (Edinb). 2026;68:102267. Foot
- Visser TSS, Neill SO, Hébert-Losier K, Eygendaal D. "Normative values for calf muscle strength-endurance in the general population assessed with the Calf Raise Application: A large international cross-sectional study." Braz J Phys Ther. 2025;29(3):101188. BJPT
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.