Displasia do Desenvolvimento do Quadril (DDH)
É um espectro que vai de um quadril "raso" (displásico), passando por instabilidade, até a luxação completa. A Academia Americana de Pediatria (AAP) descreve que a instabilidade clínica do quadril ocorre em 1% a 2% dos recém-nascidos a termo e que até 15% têm instabilidade ou imaturidade do quadril detectável em exames de imagem. Como a doença é silenciosa no primeiro ano de vida, faz-se o rastreio, porque tratar cedo tende a ser mais eficaz e porque a doença não tratada pode ter consequências graves.
A própria diretriz da AAOS reconhece que a incidência real é incerta: os valores publicados vão de até 1 em cada 100 recém-nascidos, para instabilidade clínica, a 1 a 28 em cada 1.000, para luxação que levou a tratamento. Uma revisão de escopo sobre o Brasil (52 estudos, de 1951 a 2023) encontrou prevalências de 0,75 a 56,4 por 1.000 crianças, e nenhum estudo avaliou a efetividade de programas de rastreio. Ou seja, não há um número brasileiro confiável.
Estudos observacionais associam a maior probabilidade de DDH a bebê que nasceu sentado (apresentação pélvica), histórico familiar, sexo feminino, ser o primeiro filho e enfaixar o bebê com as perninhas esticadas ("swaddling"). Esses fatores vêm de estudos de casos e controles e observacionais, e a diretriz ressalta que são definidos de forma pouco precisa na literatura.
A diretriz da AAOS (2022), para bebês de até 6 meses, tem estas recomendações principais:
- Ultrassom de rotina em todo recém-nascido: evidência de grau moderado contra fazê-lo.
- Bebês com fatores de risco (apresentação pélvica, histórico familiar ou instabilidade clínica prévia): evidência forte a favor de um exame de imagem antes dos 6 meses.
- Exame físico: evidência de grau moderado a favor de reexaminar, nas consultas seguintes e antes dos 6 meses, os bebês cujo primeiro exame do quadril foi normal. Os testes de Ortolani (que "reduz" um quadril luxado) e de Barlow (que "desloca" um quadril instável) fazem parte desse exame.
- Quadril instável ao exame: evidência limitada de que o tratamento com órtese pode começar de imediato ou ser adiado por 2 a 9 semanas. Para o tratamento inicial, evidência de grau moderado favorece a tala de von Rosen em relação às órteses de Pavlik, Craig ou Frejka.
- Quadril clinicamente estável, mas com alteração no ultrassom: evidência limitada a favor de observar, sem órtese.
Limites: a maior parte das recomendações sobre tratamento tem grau de evidência limitado. A diretriz estima que cerca de 60% a 80% das alterações do exame físico e mais de 90% das alterações do ultrassom se resolvem sozinhas no início da vida, o que levanta dúvidas sobre quais quadris devem ser tratados e quando. O relatório da AAP de 2016 acrescenta que nenhum programa de rastreio eliminou os casos de apresentação tardia, que não há consenso sobre os critérios de ultrassom e que o objetivo é detectar um quadril luxado até os 6 a 12 meses de idade.
Fontes: AAOS. Evidence-Based Clinical Practice Guideline, Detection and Nonoperative Management of Pediatric DDH in Infants up to Six Months of Age, 2022 · Shaw BA, Segal LS. Pediatrics. 2016;138(6):e20163107 · Jaleca PECMR, et al. BMJ Open. 2025;15(2):e094660.Pé Torto Congênito e o Método de Ponseti
É uma deformidade presente já ao nascer, em que o pé fica virado para dentro e para baixo, com arco alto. Uma revisão sistemática estimou a prevalência mundial ao nascimento em 1,18 por 1.000 nascidos vivos (IC 95% 1,00 a 1,36), com valores maiores em países de baixa e média renda. É mais frequente em meninos: em um estudo de casos e controles nos Estados Unidos, a chance de ser menino foi 2,7 vezes maior entre os bebês com pé torto, e também foi maior entre filhos de mães no primeiro parto.
Fontes: Smythe T, et al. EClinicalMedicine. 2023;63:102178 · Werler MM, et al. Am J Med Genet A. 2013;161A(7):1569-1578.O método de Ponseti consiste em manipulações e gessos seriados, geralmente seguidos de uma pequena cirurgia no tendão de Aquiles (tenotomia) e do uso de uma órtese de abdução. Em uma série de 157 pacientes (256 pés) tratados entre 1991 e 2001, a correção foi obtida em 98%; 90% precisaram de no máximo 5 gessos, e o tempo médio para a correção completa foi de 20 dias. Apenas 2,5% precisaram de cirurgia extensa de correção, e 11% tiveram recidiva, relacionada ao não uso da órtese de abdução.
Limites: é uma série de casos de um único centro, sem grupo de comparação. Na revisão Cochrane de 2020, que reuniu 21 ensaios randomizados (905 participantes), todos tinham risco de viés alto ou incerto em pelo menos três aspectos. A técnica de Ponseti pode dar melhor alinhamento do pé a curto prazo do que a técnica de Kite (um ensaio, com 60 pés), mas os autores consideram a certeza da evidência baixa ou muito baixa para a maioria das comparações, e não puderam tirar conclusões sobre vários outros pontos por falta de desfechos validados.
Fontes: Morcuende JA, et al. Pediatrics. 2004;113(2):376-380 · Bina S, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2020;5(5):CD008602."Dores de Crescimento": o que a ciência realmente sabe
Uma revisão de escopo publicada em 2022 na Pediatrics, analisando 145 estudos, concluiu que há pouquíssimo consenso sobre o que define uma "dor de crescimento". Até um terço das crianças pode receber esse diagnóstico. Os elementos mais citados foram dor nas pernas (50% dos estudos), dor à noite ou no fim do dia (48%), curso episódico ou recorrente (42%), exame físico normal (35%) e dor dos dois lados (31%). Mais de 80% dos estudos não mencionavam a idade de início, e 93% não faziam referência ao crescimento. Os autores concluem que o médico deve ter cautela ao usar esse diagnóstico para orientar o tratamento.
Uma revisão narrativa mais antiga descreve o quadro típico em crianças de 3 a 12 anos: dor que não envolve a articulação, quase sempre dos dois lados, no fim do dia ou à noite (às vezes acordando a criança), sem sinais de inflamação ao exame e sem dor pela manhã. Ela é considerada sem relação com doença orgânica grave.
- Dor de um lado só, ou que persiste
- Dor numa articulação, ou articulação inchada, quente ou vermelha
- Dor que continua pela manhã ou limita as atividades do dia
- Início antes dos 3 ou depois dos 12 anos
- Por bom senso clínico, febre, perda de peso ou manqueira persistente também sempre justificam avaliação
Notou algo diferente no desenvolvimento do seu filho?
Quanto antes a avaliação, mais simples costuma ser o tratamento.
Agendar avaliaçãoVídeo sobre o tema
Peso da mochila das crianças
Sociedade Brasileira de Coluna · canal oficial
Produzido por sociedade médica, não por nós. O player só carrega quando você clica. Ver todos os 50 vídeos →
Referências científicas
- American Academy of Orthopaedic Surgeons. "Evidence-Based Clinical Practice Guideline for the Detection and Nonoperative Management of Pediatric Developmental Dysplasia of the Hip in Infants up to Six Months of Age." Publicada em 21 mar 2022. AAOS (PDF)
- Shaw BA, Segal LS; Section on Orthopaedics. "Evaluation and referral for developmental dysplasia of the hip in infants." Pediatrics. 2016;138(6):e20163107. Pediatrics
- Jaleca PECMR, Liggio DF, Arora S, et al. "Screening, diagnosis, treatment and outcomes of developmental dysplasia of the hip in Brazilian population: a scoping review." BMJ Open. 2025;15(2):e094660. BMJ Open
- Smythe T, Rotenberg S, Lavy C. "The global birth prevalence of clubfoot: a systematic review and meta-analysis." EClinicalMedicine. 2023;63:102178. EClinicalMedicine
- Werler MM, Yazdy MM, Mitchell AA, et al. "Descriptive epidemiology of idiopathic clubfoot." Am J Med Genet A. 2013;161A(7):1569-1578. Am J Med Genet A
- Morcuende JA, Dolan LA, Dietz FR, Ponseti IV. "Radical reduction in the rate of extensive corrective surgery for clubfoot using the Ponseti method." Pediatrics. 2004;113(2):376-380. Pediatrics
- Bina S, Pacey V, Barnes EH, et al. "Interventions for congenital talipes equinovarus (clubfoot)." Cochrane Database Syst Rev. 2020;5(5):CD008602. Cochrane
- O'Keeffe M, Kamper SJ, Montgomery L, et al. "Defining growing pains: a scoping review." Pediatrics. 2022;150(2):e2021052578. Pediatrics
- Uziel Y, Hashkes PJ. "Growing pains in children." Pediatr Rheumatol Online J. 2007;5:5. Pediatr Rheumatol
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.