Esquema 3D da perna direita vista de frente, do joelho ao pé: a tíbia, grossa, com a borda interna à esquerda, e a fíbula, fina, à direita; uma faixa laranja difusa ao longo do terço inferior da borda interna da tíbia, sem traço de fratura, e os músculos da perna em vermelho-rosado
Esquema da perna vista de frente: na canelite a dor se espalha por um trecho de vários centímetros ao longo da borda interna da tíbia (laranja), e não por um único ponto. Esquema ilustrativo, não é imagem de exame.

O que é

Canelite é o nome popular da síndrome do estresse tibial medial (MTSS, na sigla em inglês, também chamada de "shin splints"). É uma dor provocada pelo exercício, difusa, ao longo da borda interna da tíbia, o osso da canela. Nos estudos, a definição usada exige dor ao exercício na parte de baixo da borda posteromedial da tíbia e dor reproduzida ao apertar o osso num trecho de 5 centímetros ou mais.

Dor na canela provocada por corrida tem mais de uma explicação possível, e a que mais pesa separar é a fratura por estresse, em que o próprio osso se lesiona. A diferença é uma decisão clínica, e é por isso que o diagnóstico não deve ser feito sozinho.

Fontes: Winters M. Unfallchirurg. 2020;123(Suppl 1):15-19 · Reinking MF, et al. Sports Health. 2017;9(3):252-261.

Quão comum é

Num estudo de prontuários da Força Armada britânica (20.257 militares atendidos por canelite entre 2010 e 2018), a prevalência anual caiu de 2,19% em 2013 para 1,61% em 2018. Entre os recrutas, em 2018, foi de 4,34%, e entre as recrutas mulheres, de 7,03%, contra 4% nos recrutas homens e 1,60% nas mulheres já treinadas.

1,61%das Forças Armadas britânicas, em 2018
4,34%dos recrutas, em 2018
7,03%das recrutas mulheres, em 2018

Esses números vêm de prontuários de quem foi atendido no serviço médico militar, num estudo retrospectivo. Não valem como taxa para corredores recreativos nem para a população em geral.

Fonte: Farquharson E, et al. BMJ Mil Health. 2026;172(1):66-72.

Quem tem mais risco e o que muda na perna

O que a evidência mostra

Fatores de risco. Uma revisão com metanálise de estudos observacionais (83 artigos preencheram os critérios; 22 traziam dados de fatores de risco) avaliou 27 fatores que apareciam em pelo menos 2 estudos. Só 5 tiveram efeito combinado significativo com pouca variação entre os estudos: sexo feminino (razão de chances 2,35; IC 95% 1,58 a 3,50), lesão anterior por corrida (razão de chances 2,18; IC 95% 1,00 a 4,72), peso maior (diferença média padronizada 0,24; IC 95% 0,03 a 0,45), maior queda do arco do pé ao apoiar o peso, o "navicular drop" (0,44; IC 95% 0,21 a 0,67), e maior rotação externa do quadril com o quadril dobrado (0,44; IC 95% 0,23 a 0,65). Os demais fatores não tiveram efeito significativo, ou tiveram efeito com muita variação entre os estudos.

Músculos da perna. Num estudo caso-controle com 20 corredores de longa distância com canelite e 20 corredores sem dor, pareados, as pernas com canelite tinham músculo flexor longo do hálux com área menor, sóleo mais fino e gastrocnêmio lateral mais espesso. Também tinham menos força isométrica máxima do flexor longo do hálux, do sóleo, do tibial anterior e dos fibulares, e menos resistência da panturrilha no exercício de elevar o calcanhar. A circunferência magra da perna não diferiu.

Fontes: Reinking MF, et al. Sports Health. 2017;9(3):252-261 · Mattock J, et al. J Foot Ankle Res. 2021;14(1):47.

Os limites pesam. Ambos os estudos são observacionais: mostram que as coisas andam juntas, não que uma causa a outra. O sexo, por exemplo, não é algo que se mude com tratamento. A lesão anterior tem o limite inferior do intervalo encostando em 1,00. E, no estudo da musculatura, os próprios autores dizem que o desenho (um só momento no tempo, 20 contra 20) não permite saber se a diferença é causa ou consequência da dor.

Diagnóstico e o que os exames mostram

Nos estudos, o diagnóstico é clínico: parte da história (dor que vem com o exercício) e do exame físico, com a dor à palpação ao longo da borda interna da tíbia. Não encontramos, nas fontes lidas, um exame de imagem que defina o diagnóstico da canelite.

O que a evidência mostra

Num estudo israelense com 30 recrutas de uma unidade de forças especiais, a ressonância magnética foi feita no início do treinamento, e o resultado foi classificado pela escala de Fredericson. Em 10 recrutas (17 tíbias) havia edema do periósteo (a membrana que reveste o osso) de grau 1, sem edema da medula óssea. Durante as 11 semanas de treino, 5 tíbias em 4 recrutas passaram a ter dor e sensibilidade, e em dois desses casos o edema visto antes na ressonância não coincidia com o local da dor. Os autores concluem que os sistemas de graduação por ressonância têm pouca utilidade para esse meio.

Fonte: Milgrom C, et al. BMJ Mil Health. 2024;170(1):9-14.

O limite: é um estudo pequeno, com recrutas de um único serviço, e não avaliou pessoas que já chegavam com dor na canela para tratar. Ele não diz que a ressonância é inútil, e sim que um achado de edema do periósteo na imagem nem sempre corresponde ao lugar da dor. Quando há suspeita de fratura por estresse, a imagem tem outro papel; está explicado na página de Fratura por Estresse.

Tratamento: o que a pesquisa mostra

A canelite é muito estudada, mas, entre as intervenções, nenhuma tem prova sólida. As duas revisões sistemáticas abaixo resumem o quadro; depois, os estudos que testaram ondas de choque, exercícios e prevenção.

O que as revisões sistemáticas mostram

Revisão de 2013 (busca até junho de 2012). Incluiu 11 estudos de tratamento. Todos os ensaios randomizados tinham alto risco de viés, e os dois não randomizados eram de má qualidade. Para a órtese de perna (cinta) contra nenhuma órtese, a soma dos dados não mostrou diferença (diferença média padronizada −0,06; IC 95% −0,44 a 0,32; p = 0,76). Massagem com gelo, ultrassom terapêutico e ondas de choque "podem ser eficazes" em comparação com controle (nível de evidência 3 a 4). Alongamento e fortalecimento, meias de compressão, órteses de perna, laser de baixa energia e campos eletromagnéticos pulsados não foram provados eficazes. Os autores concluem que nenhum estudo estava livre de viés o bastante para recomendar tratamento algum; entre os examinados, as ondas de choque eram o mais promissor.

Revisão de 2022. Reuniu só ensaios randomizados de intervenções que modificam a carga na canela: cinta, fita anti-pronação, meia de compressão e um programa de alongamento e fortalecimento. Foram 6 estudos (7 comparações), todos com risco de viés incerto ou alto. Não houve benefício de nenhuma intervenção, exceto um possível benefício da fita anti-pronação, com certeza muito baixa, na dor e na distância de salto sem dor após 1 semana. As cintas causaram efeitos adversos leves e tiveram problemas de aceitação. Os autores concluem que nenhum dos tratamentos estudados pode ser recomendado.

Fontes: Winters M, et al. Sports Med. 2013;43(12):1315-1333 · Egerton T, et al. J Sci Med Sport. 2022;25(1):46-52.

Ondas de choque

O que a evidência mostra

Revisão de 2024 (56 estudos, 1.874 atletas ou pessoas ativas, vários diagnósticos): com base nos estudos de nível I, as ondas de choque "podem ser eficazes" como complemento ao exercício na canelite. A maioria dos estudos permitia manter o treino, com efeitos colaterais mínimos.

Ensaio com 42 cadetes do exército colombiano, simples-cego: uma sessão de ondas de choque focadas mais um programa de alongamento e fortalecimento, contra só o programa. Em 4 semanas, o tempo de corrida sem dor foi de 17 min 33 s contra 4 min 48 s; a dor depois de correr (escala visual de dor) foi de 2,17 contra 4,26; e 82,6% contra 36,8% tiveram resultado "excelente ou bom" na escala de Roles e Maudsley.

Ensaio-piloto com 28 adultos ativos, duplo-cego, com aplicação placebo: ondas de choque em dose padrão (semanas 1 a 3, 5 e 9) contra dose placebo. Na semana 10 não houve diferença significativa na dor nem na distância percorrida sem dor. Os autores notam que a dose placebo pode ter tido efeito clínico.

Fontes: Rhim HC, et al. Br J Sports Med. 2024;58(3):154-163 · Gomez Garcia S, et al. Int J Surg. 2017;46:102-109 · Newman P, et al. J Sci Med Sport. 2017;20(3):220-224.

Os dois ensaios apontam em sentidos opostos, e os desenhos ajudam a ler isso. No dos cadetes, o grupo de comparação não recebeu aplicação placebo, então parte da diferença pode vir da expectativa de quem fez o procedimento; o seguimento foi de apenas 4 semanas e envolveu militares em treinamento. No ensaio com placebo o número de participantes era pequeno (28). Juntos, não permitem dizer quanto do resultado é das ondas de choque. A revisão de 2024 usa o verbo "pode", e a de 2013 já havia dito que os estudos eram insuficientes para recomendar.

Exercícios para a perna e o pé

O que a evidência mostra

Num ensaio randomizado com 40 corredores recreativos com canelite (20 por grupo), todos receberam massagem com gelo, palmilhas e ondas de choque. Um dos grupos recebeu, além disso, um protocolo de exercícios para a perna (alongamento, fortalecimento, exercícios sensório-motores e liberação com rolo de espuma). Na análise das avaliações de 6 e 12 semanas, não houve diferença significativa na intensidade da dor (p = 0,17) nem na gravidade da canelite (p = 0,30). Houve melhora na qualidade de vida (p = 0,003) e na postura do pé (p = 0,02 na escala estática e p < 0,001 na medida dinâmica do arco).

Fonte: Naderi A, et al. Orthop J Sports Med. 2025;13(2):23259671241311849.

O limite: a amostra é pequena, os dois grupos já faziam outros tratamentos ao mesmo tempo e não havia grupo em repouso, como os próprios autores observam. O ensaio mostra que acrescentar exercícios não reduziu a dor além do que os dois grupos já tinham, e não que exercício não tenha papel. O estudo de músculos citado acima aponta déficits de força e resistência nas pernas com canelite, mas nenhum estudo citado aqui testou se corrigir esses déficits específicos resolve a dor.

Prevenção

O que a evidência mostra

Uma revisão com metanálise de ensaios randomizados sobre prevenção (12 estudos, 8.197 participantes; 10 entraram na metanálise) classificou a certeza da evidência pelo sistema GRADE. O treino neuromuscular (4 estudos, 3.887 pessoas) teve intervalo de confiança de 95% da razão de chances de 0,13 a 0,64, com certeza alta. As palmilhas para pronação excessiva (4 estudos, 1.047 pessoas) tiveram intervalo de 0,10 a 1,0, com certeza moderada. As palmilhas de amortecimento (2 estudos, 1.571 pessoas) não tiveram efeito significativo (intervalo de 0,28 a 1,08), com certeza alta. Não houve evidência a favor de alongamento estático nem de meias especiais.

Fonte: Marques TBT, et al. Gait Posture. 2025;122:92-98.

Três cuidados ao ler isso: o resumo do estudo traz só os intervalos, sem o valor central, e o das palmilhas para pronação chega até 1,0, o limite de nenhum efeito; a qualidade dos estudos incluídos variou; e o resumo não detalha quem eram os participantes nem o conteúdo do treino neuromuscular. Além disso, é um resultado de prevenção: não mostra que a mesma palmilha trate quem já tem a dor.

Como as opções se encaixam

Nenhuma das fontes que lemos testou, isoladamente, reduzir ou redistribuir a carga de corrida, por isso esta página não diz por quanto tempo parar nem como voltar a correr. Esse plano depende do seu treino, do tempo de dor e do exame, e é uma decisão para tomar com quem examina a sua perna.

⚠️ Quando procurar avaliação

  • Dor em um ponto pequeno da tíbia, que você consegue marcar com a ponta de um dedo, em vez de se espalhar pela borda: pode ser fratura por estresse (veja a página).
  • Dor ao caminhar no dia a dia, em repouso ou à noite, e não só durante o exercício.
  • Dor que não melhora ou piora mesmo depois de você reduzir a corrida ou os saltos.
  • Perna vermelha, quente e inchada, ou panturrilha inchada e dolorida de um lado só: precisa de avaliação no mesmo dia.
  • Dor muito forte com perna dura e tensa, formigamento, dormência ou dificuldade para levantar o pé ou os dedos: pronto-socorro.
  • Dor depois de uma queda, torção ou pancada na perna, ou com febre.

Dor na canela quando corre?

A avaliação separa canelite de fratura por estresse e de outras causas, e define com você a carga de treino e o tratamento.

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Os estudos citados têm limites que estão descritos no texto; a escolha do tratamento e do retorno à corrida deve ser individual.