Ilustração 3D anatômica da tendinopatia do Aquiles: vista lateral da perna mostrando a tíbia, o tendão de Aquiles com zona de degeneração em vermelho-alaranjado a cerca de 2-6 cm acima da inserção no calcâneo, e os rótulos Tendão de Aquiles, Zona de degeneração, Inserção do tendão e Calcâneo
Vista lateral — zona de degeneração do tendão de Aquiles (vermelho) na porção média, a cerca de 2–6 cm acima da inserção no calcâneo

O que é

Tendinopatia do Aquiles é uma condição de sobrecarga do tendão que conecta os músculos da panturrilha ao calcâneo. Ao contrário do que o nome antigo "tendinite" sugeria, nem sempre é uma inflamação aguda: o modelo mais aceito descreve a patologia do tendão como um continuum, que vai de alterações reativas a alterações degenerativas, e é isso que ajuda a explicar por que pessoas diferentes chegam com graus tão diferentes de dor e de capacidade funcional.

Fonte: Cook JL, Purdam CR. Br J Sports Med. 2009;43(6):409-416.

Existem dois tipos principais, com resposta diferente ao tratamento:

Fontes: van der Vlist AC, et al. Br J Sports Med. 2021;55(5):249-256 · Fahlström M, et al. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2003;11(5):327-333 · Jonsson P, et al. Br J Sports Med. 2008;42(9):746-749.

Quão comum é e como evolui

Num registro de atenção primária holandês com 57.725 pessoas, o diagnóstico de tendinopatia da porção média do Aquiles foi feito em 1,85 por 1.000 pessoas por ano, e em 2,35 por 1.000 entre adultos de 21 a 60 anos. Em apenas 35% dos casos havia relação registrada com esporte, ou seja, a condição não é exclusiva de quem treina. Esses números contam só quem foi ao médico, então a frequência real pode ser maior.

Entre ex-atletas de elite finlandeses, os corredores de meia e longa distância tiveram uma chance muito maior de ter tido tendinopatia do Aquiles antes dos 45 anos do que pessoas do grupo de comparação (odds ratio ajustada de 31,2). Foi um estudo retrospectivo, baseado em questionário respondido por pessoas com mediana de 69 anos, e não dá a frequência atual em quem corre.

Quanto à evolução, os dados de seguimento são de séries pequenas. Em 34 pacientes tratados só com exercício e reavaliados após 5 anos, 27 (80%) se recuperaram totalmente: 65% do total estavam sem sintomas e 15% tiveram novo episódio de sintomas. Em outro seguimento de 5 anos do programa clássico de exercício excêntrico (46 pacientes reavaliados), 39,7% estavam sem dor e 48,3% haviam recebido outro tratamento; os autores concluem que a melhora costuma se manter, mas dor leve pode permanecer.

Fontes: de Jonge S, et al. Br J Sports Med. 2011;45(13):1026-1028 · Kujala UM, et al. Clin J Sport Med. 2005;15(3):133-135 · Silbernagel KG, et al. Am J Sports Med. 2011;39(3):607-613 · van der Plas A, et al. Br J Sports Med. 2012;46(3):214-218.
Exercício com carga é a primeira opção, mas nenhum tipo se mostrou melhor que outro

O treino excêntrico da panturrilha (descer o calcanhar com carga) foi por muito tempo o tratamento de referência. O estudo clássico de Alfredson (1998) acompanhou 15 atletas recreativos, com média de 44 anos, com dor crônica no tendão apesar de tratamento convencional: após 12 semanas, todos os 15 estavam de volta ao nível anterior de corrida. O grupo comparação, de outros 15 atletas, foi tratado de forma convencional (repouso, anti-inflamatórios, troca de calçado, fisioterapia) e todos acabaram operados.

Limitações: não foi um ensaio randomizado, a amostra era pequena e o acompanhamento, curto. Um ensaio randomizado posterior (Beyer et al., 2015; 58 pacientes com dor há mais de 3 meses) comparou o treino excêntrico com o treino de resistência lenta e pesada (Heavy Slow Resistance, HSR) por 12 semanas. Os dois grupos melhoraram de forma significativa na pontuação VISA-A e na dor, e a melhora se manteve em 52 semanas, sem diferença entre os grupos. A satisfação aos 12 semanas tendeu a ser maior com HSR (100% contra 80%; p = 0,052, sem significância estatística), e a adesão às sessões foi maior (92% contra 78%; p < 0,005).

Uma revisão com metanálise em rede de 29 ensaios (van der Vlist et al., 2021) concluiu que nenhum ensaio tinha baixo risco de viés e que as estimativas eram muito incertas. Para a porção média, qualquer tratamento ativo pareceu melhor que apenas esperar aos 3 meses, e não houve diferença clinicamente relevante entre os tratamentos ativos aos 3 e aos 12 meses. Como o exercício é simples de prescrever, de baixo custo e com poucos riscos, os autores sugerem começar por um programa de exercícios para a panturrilha.

Fontes: Alfredson H, et al. Am J Sports Med. 1998;26(3):360-366 · Beyer R, et al. Am J Sports Med. 2015;43(7):1704-1711 · van der Vlist AC, et al. Br J Sports Med. 2021;55(5):249-256.
Repouso e injeções: o que os estudos mostram

Repouso. Em um ensaio randomizado com 38 pacientes (Silbernagel et al., 2007), um grupo continuou correndo e saltando durante a reabilitação, guiado por um modelo de monitoramento da dor, e o outro ficou 6 semanas em repouso ativo, sem essas atividades. Todos fizeram o mesmo programa de exercícios. Não houve diferença significativa na melhora entre os grupos, e os dois melhoraram. Ou seja, não ficou demonstrado dano em continuar a atividade com a dor monitorada, nem vantagem em parar. É um estudo pequeno e não prova que qualquer volume de corrida seja seguro.

Injeções em geral. A revisão Cochrane de 2015 (18 estudos, 732 participantes) encontrou, com qualidade baixa de evidência, diferença nula ou irrelevante no VISA-A entre injeção e controle em 6 semanas, 3 meses e 6 a 12 meses, e concluiu não haver evidência suficiente para apoiar o uso rotineiro de injeções. O único evento adverso grave no grupo das injeções foi uma ruptura do tendão, num ensaio com corticoide.

Corticoide. Um ensaio posterior (Johannsen et al., 2022; 100 pacientes) encontrou resultado diferente: o corticoide guiado por ultrassom somado ao exercício teve melhora 17,7 pontos maior no VISA-A aos 6 meses que o placebo somado ao exercício, sem eventos adversos graves e sem piora até 2 anos. Com 100 pacientes, o estudo não consegue descartar complicações raras. A evidência sobre o corticoide é, portanto, conflitante.

Fontes: Silbernagel KG, et al. Am J Sports Med. 2007;35(6):897-906 · Kearney RS, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(5):CD010960 · Johannsen F, et al. JAMA Netw Open. 2022;5(7):e2219661.
Fatores de risco em um estudo prospectivo com 911 adultos

O estudo 4HAIE (Jandacka et al., British Journal of Sports Medicine, 2026) acompanhou 911 adultos de 18 a 65 anos, corredores e não corredores, por 1 ano, para ver quais características da corrida em laboratório se associavam a um diagnóstico médico de tendinopatia do Aquiles. Só 23 pessoas desenvolveram a condição no período. Os resultados são odds ratios (razão de chances) por variação de 1 desvio-padrão:

  • Menor rotação externa do tornozelo no pico: cada 6° a menos se associou a chance 120% maior de tendinopatia (OR 2,20; IC 95% 1,23 a 4,03)
  • Maior momento de inversão do tornozelo no pico: cada 17 Nm a mais se associou a chance 67% menor (OR 0,33; IC 95% 0,17 a 0,61)
  • Volume de corrida: cada 12,5 km por semana a mais se associou a chance 67% maior (OR 1,67; IC 95% 1,23 a 2,22)
  • Tipo de pisada (retropé, médio-pé ou antepé) não se associou ao risco

Limitações: estudo observacional, o que mostra associação e não prova que mudar essas variáveis previna a lesão; poucos casos (23); testes feitos com calçado de laboratório padronizado; faixa etária de 18 a 65 anos. Os autores sugerem que mexer nesses fatores e no volume de corrida pode ajudar a prevenir a condição, mas isso não foi testado no estudo.

Fonte: Jandacka D, et al. "Biomechanical insights into Achilles tendinopathy risk and protection in runners: a large prospective study 4HAIE." Br J Sports Med. 2026;60(3):186-197.

Resumo do tratamento

Fontes: Bourke J, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2025;55(9):611-620 · Paantjens MA, et al. Sports Med Open. 2022;8(1):68 · Korakakis V, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2026;56(5):282-299 · Baltes TPA, et al. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2017;25(6):1817-1838.

Detalhe importante para corredores: parar completamente não é, em geral, necessário. No ensaio de Silbernagel (2007), manter corrida e saltos com monitoramento da dor, junto com o programa de exercícios, não teve resultado pior que o repouso ativo. O ajuste da carga deve ser orientado pelo fisioterapeuta.

⚠️ Quando é urgente: sinais de ruptura do tendão de Aquiles

A tendinopatia do Aquiles raramente é uma emergência, mas a ruptura aguda do tendão exige avaliação rápida. Procure atendimento com urgência se:
  • Sentiu um estalo súbito, ou a sensação de ter levado um "chute" na parte de trás da perna, seguido de dificuldade imediata para ficar na ponta do pé ou empurrar o chão
  • Há um sulco palpável no trajeto do tendão. Nem sempre ele é percebido: em um estudo com 174 pacientes, a palpação da falha identificou 73% das rupturas completas com o paciente acordado, por isso a ausência do sulco não afasta a ruptura
  • No teste de compressão da panturrilha (Thompson), feito pelo médico com o paciente deitado de bruços, o pé não se move ao apertar a panturrilha. Nesse mesmo estudo, foi o teste mais sensível (96%)
  • Inchaço e equimose (roxo) intensos na parte posterior do tornozelo após trauma
  • Dor intensa em repouso, febre ou vermelhidão local, sinais que pedem avaliação para descartar infecção ou trombose venosa
Fonte: Maffulli N. Am J Sports Med. 1998;26(2):266-270.

Em caso de suspeita de ruptura, evite apoiar o pé e procure um pronto-socorro. Fora de emergência, fale com a ou agende uma avaliação.

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Tendão de Aquiles

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Referências científicas

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