Ilustração 3D anatômica da ruptura do tendão de Aquiles: vista lateral do tornozelo mostrando o tendão de Aquiles com ruptura completa na porção média do tendão e retração proximal das extremidades, gastrocnêmio, sóleo, tíbia, fíbula e calcâneo identificados
Vista lateral do tornozelo — ruptura completa do tendão de Aquiles (vermelho) na porção média, com retração proximal das extremidades

O que é

É a ruptura total ou parcial do tendão de Aquiles, o tendão que conecta os músculos da panturrilha (gastrocnêmio e sóleo) ao calcâneo. A ruptura completa costuma ocorrer de forma aguda, durante esporte ou atividade física intensa: o paciente descreve uma sensação de "chute" ou "estalo" na parte posterior da perna, seguida de dificuldade para ficar na ponta do pé. Numa metanálise de estudos populacionais, cerca de 68% das rupturas estavam relacionadas ao esporte.

Fonte: Kotsifaki R, et al. Sports Med. 2026;56(6):1467-1487.

É diferente da tendinopatia do Aquiles, que é uma dor crônica e gradual no tendão, sem um evento agudo único.

Quão comum é

Uma revisão sistemática com metanálise de 28 estudos populacionais (1950 a 2022; mais de 630 milhões de pessoas e 568 mil rupturas) estimou uma incidência global de 15,7 casos por 100.000 pessoas por ano. As estimativas subiram de 6,1 casos em 1979 para 31,1 em 2021, um aumento médio de 2,7% ao ano. A incidência nos homens foi cerca de 3 vezes a das mulheres e teve pico entre 30 e 49 anos (42,6 por 100.000 por ano); nas mulheres, o pico foi entre 40 e 49 anos (17,2 por 100.000).

Os números variam muito entre países e épocas. Na Escócia, por exemplo, a incidência foi de 4,7 por 100.000 em 1981 e de 6 por 100.000 em 1994, com pico nos homens aos 30 a 39 anos e nas mulheres a partir dos 80 anos.

Fontes: Kotsifaki R, et al. Sports Med. 2026;56(6):1467-1487 · Maffulli N, et al. Clin J Sport Med. 1999;9(3):157-160.
Cirurgia ou tratamento sem cirurgia? A diferença é pequena, mas existe

Uma revisão sistemática com metanálise publicada no BMJ em 2019 reuniu 29 estudos: 10 ensaios randomizados (944 pacientes) e 19 estudos observacionais (14.918 pacientes). A re-ruptura foi menos frequente com cirurgia (2,3%) do que sem cirurgia (3,9%), diferença de 1,6 ponto percentual. Em compensação, as outras complicações foram mais frequentes com cirurgia (4,9% contra 1,6%), principalmente infecção (2,8% no grupo operado). Nos estudos que usaram reabilitação funcional acelerada, com movimento precoce, não houve diferença significativa na re-ruptura entre operar e não operar (RR 0,60; IC 95% 0,26 a 1,37). Os autores concluem que a decisão deve se basear em fatores do paciente e ser compartilhada.

Um ensaio randomizado multicêntrico (Willits et al., 2010) incluiu 144 pacientes, 72 operados e 72 tratados sem cirurgia, todos com reabilitação acelerada. Houve re-ruptura em 2 pacientes do grupo operado e em 3 do grupo sem cirurgia, sem diferença clinicamente importante em força, amplitude de movimento, circunferência da panturrilha ou escore de Leppilahti. Houve mais complicações no grupo operado (13 contra 6), principalmente de partes moles.

Um ensaio maior, publicado no New England Journal of Medicine (Myhrvold et al., 2022), randomizou 554 adultos para tratamento sem cirurgia, reparo aberto ou cirurgia minimamente invasiva. Aos 12 meses, o escore de função (Achilles tendon Total Rupture Score) não diferiu entre os grupos (p = 0,57). A re-ruptura ocorreu em 6,2% do grupo sem cirurgia e em 0,6% de cada grupo operado. Houve lesão de nervo em 5,2% da cirurgia minimamente invasiva, 2,8% do reparo aberto e 0,6% sem cirurgia.

Limitações: a re-ruptura é um evento raro, então os ensaios menores têm pouco poder para compará-la, e parte das conclusões do BMJ vem de estudos observacionais. Em resumo, a cirurgia reduz um pouco o risco de re-ruptura, com mais complicações, e a função final é parecida. A escolha depende de nível de atividade, risco cirúrgico e preferência do paciente, conversada com o ortopedista.

Fontes: Ochen Y, et al. BMJ. 2019;364:k5120 · Willits K, et al. J Bone Joint Surg Am. 2010;92(17):2767-2775 · Myhrvold SB, et al. N Engl J Med. 2022;386(15):1409-1420.
Apoiar o pé mais cedo parece seguro

Depois da cirurgia. Uma metanálise de 10 ensaios randomizados (570 pacientes; McCormack e Bovard, 2015) comparou reabilitação funcional precoce, com bota articulada e apoio de peso, com imobilização tradicional em gesso sem apoio. Não houve diferença nas complicações maiores, os resultados relatados pelos pacientes foram melhores com a reabilitação funcional (OR 3,13; IC 95% 1,30 a 7,53) e, em 5 de 6 ensaios que mediram o tempo, o retorno ao nível esportivo anterior foi mais rápido. As diferenças de força entre os grupos, presentes em 6 a 12 semanas, eram desprezíveis aos 6 meses.

Sem cirurgia. Em uma metanálise de 9 ensaios (1.046 participantes), o apoio de peso nas primeiras 4 semanas não diferiu do apoio tardio quanto à re-ruptura (RR 0,75; IC 95% 0,49 a 1,16), ao escore de função ou ao retorno ao esporte. No ensaio UKSTAR (540 pacientes, tratados 8 semanas), a bota funcional não foi inferior ao gesso no escore aos 9 meses, e a re-ruptura foi de 6% no gesso e 5% na bota (p = 0,40).

Retorno ao esporte. Uma metanálise (Bak et al., 2024) concluiu que as taxas de retorno ao esporte são altas e não diferem entre cirurgia e tratamento sem cirurgia. Após reparo aberto, a reabilitação mais precoce reduziu o tempo médio até o retorno em 4,2 semanas.

Limitações: os protocolos de reabilitação variam entre os estudos, e os ensaios não são grandes o bastante para excluir diferenças pequenas na re-ruptura. O ritmo de carga em cada caso deve ser definido pelo ortopedista e pelo fisioterapeuta.

Fontes: McCormack R, Bovard J. Br J Sports Med. 2015;49(20):1329-1335 · Ghaddaf AA, et al. Injury. 2022;53(4):1543-1551 · Costa ML, et al. Lancet. 2020;395(10222):441-448 · Bak BM, et al. J Foot Ankle Surg. 2024;63(3):420-429.

Cirurgia minimamente invasiva: uma técnica descrita em nosso meio

Reparos minimamente invasivos têm a vantagem de uma ferida menor, mas, no ensaio de Myhrvold, a lesão de nervo foi mais frequente com essa via (5,2% contra 2,8% no reparo aberto). Um dos médicos da equipe descreveu uma técnica minimamente invasiva com sutura de bloqueio (locking suture), feita com materiais simples disponíveis na maioria das salas cirúrgicas, associada a um protocolo de reabilitação funcional precoce. O trabalho é uma descrição técnica (nível de evidência V, opinião de especialista) e não traz comparação de resultados com outras técnicas.

Fonte: Pereira VA, et al. J Foot Ankle. 2023;17(1):79-85.

Como é confirmado o diagnóstico

O diagnóstico é, em grande parte, clínico. Em um estudo prospectivo com 174 pacientes com ruptura completa, o teste de compressão da panturrilha (Simmonds-Thompson), em que o examinador aperta a panturrilha com o paciente deitado de bruços e observa se o pé se move, teve sensibilidade de 96% e especificidade de 93%. A palpação de uma falha no tendão foi menos sensível (73% com o paciente acordado, 89% de especificidade), e em todos os pacientes pelo menos dois testes foram positivos. Por isso a combinação de testes feita pelo médico é mais confiável que um sinal isolado. Exames de imagem ficam para os casos em que o exame clínico deixa dúvida.

Fonte: Maffulli N. Am J Sports Med. 1998;26(2):266-270.

⚠️ Sinais de alerta e quando ir ao pronto-socorro

A ruptura do tendão de Aquiles precisa de avaliação ortopédica o quanto antes. Vá ao pronto-socorro ou entre em contato com sua equipe médica imediatamente se:
  • Sentiu um estalo súbito na parte posterior da perna, com dificuldade para ficar na ponta do pé
  • Há um sulco palpável no trajeto do tendão (a ausência do sulco não afasta a ruptura, como mostra o estudo acima)
  • O pé não se move ao apertar a panturrilha (teste de compressão, feito pelo médico)
  • Inchaço e equimose (roxo) intensos na região posterior do tornozelo após trauma

Após a cirurgia ou a imobilização, procure avaliação urgente se notar dor crescente e desproporcional, febre, vermelhidão ou secreção na ferida, ou perna muito inchada, quente ou dolorida na panturrilha. Esses sinais podem indicar infecção ou trombose venosa profunda.

Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Para dúvidas sobre o diagnóstico ou sobre o acompanhamento pós-operatório, fale com a ou agende uma consulta.

Suspeita de ruptura ou em reabilitação pós-cirurgia?

Nos estudos, a reabilitação com apoio precoce foi segura. O ritmo certo de carga depende do seu caso e deve ser orientado por ortopedista e fisioterapeuta.

Agendar avaliação de fisioterapia

Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.