Ilustração 3D anatômica da síndrome da dor patelofemoral: vista lateral e frontal do joelho mostrando fêmur, patela, tróclea femoral, tendão do quadríceps, cartilagem patelar destacada em vermelho-alaranjado, tendão patelar e tíbia
Vista lateral e frontal do joelho — articulação entre a patela e a tróclea femoral (cartilagem em laranja), região onde a dor se localiza

O que é

A síndrome da dor patelofemoral (SDPF) é caracterizada por dor na região anterior do joelho — atrás ou ao redor da patela (rótula) —, que costuma aparecer quando o joelho recebe carga ao subir escadas, agachar, correr, pedalar ou ficar sentado com os joelhos dobrados. Também é chamada de dor anterior do joelho. Não é sinônimo de condromalácia: uma alteração da cartilagem vista na ressonância é comum até em quem não tem dor (veja a página de condromalácia patelar).

Fontes: van der Heijden RA, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(1):CD010387 · Culvenor AG, et al. Br J Sports Med. 2019;53(20):1268-1278.

Quão comum é

Uma revisão sistemática com metanálise de 23 estudos encontrou prevalência anual de 22,7% na população geral e de 28,9% em adolescentes. A prevalência pontual estimada em adolescentes foi de 7,2% (IC 95% 6,3% a 8,3%), subindo para 22,7% (IC 95% 17,4% a 28,0%) entre atletas adolescentes do sexo feminino. Os números variam bastante entre os estudos. A incidência também variou muito entre grupos: de 9,7 a 571,4 por mil pessoas-ano em recrutas militares e 1.080,5 por mil pessoas-ano em corredores amadores (um estudo).

Quanto ao que acontece depois: uma análise observacional que reavaliou 5 a 8 anos depois participantes de dois ensaios clínicos encontrou que 34 de 60 (57%) relataram recuperação desfavorável, mas com taxa de resposta de apenas 19,3% — por isso o número deve ser lido com cautela. Ainda assim, ele sugere que a dor patelofemoral nem sempre "passa sozinha".

Fontes: Smith BE, et al. PLoS One. 2018;13(1):e0190892 · Lankhorst NE, et al. Br J Sports Med. 2016;50(14):881-886.

Causas e fatores de risco

Não se conhece uma causa única, e muito do que se ouve sobre "o que causa" a dor patelofemoral não resistiu a estudos que acompanharam pessoas ao longo do tempo. Uma metanálise de 18 estudos prospectivos (4.818 participantes, dos quais 483 desenvolveram dor patelofemoral) encontrou:

Os autores concluem que identificar fatores de risco que possam ser modificados continua sendo uma prioridade de pesquisa. Isso não significa que o quadril ou a técnica de corrida não importem no tratamento de quem já tem dor — significa que a relação de causa e efeito ainda não está demonstrada.

Fonte: Neal BS, et al. Br J Sports Med. 2019;53(5):270-281.
Evidência 1 — exercício é o tratamento de primeira linha, mas a qualidade da evidência é limitada

A revisão Cochrane de 2015 reuniu 31 ensaios clínicos (1.690 participantes com dor patelofemoral). Os autores avaliaram a evidência como de qualidade muito baixa, porém consistente: o exercício terapêutico pode reduzir a dor de forma clinicamente importante, melhorar a função e favorecer a recuperação em 12 meses. Em dois estudos (166 participantes), a estimativa foi de 88 pessoas a mais por mil recuperadas em 12 meses com exercício, mas o intervalo de confiança de 95% (de 2 a menos até 210 a mais) inclui a possibilidade de nenhum benefício. Os autores também escrevem que não há evidência suficiente para dizer qual é a melhor forma de exercício.

Uma revisão de 2024 que combinou metanálises de 65 ensaios de alta qualidade (3.796 participantes) com entrevistas de pacientes e especialistas recomenda exercício dirigido ao joelho, com ou sem exercício dirigido ao quadril, sempre acompanhado de educação, como intervenção principal.

Fontes: van der Heijden RA, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(1):CD010387 · Neal BS, et al. Br J Sports Med. 2024;58(24):1486-1495.
Evidência 2 — exercício para o quadril: os estudos não concordam

Uma metanálise de 2015 (14 estudos, 7 de alta qualidade) concluiu que a reabilitação dos músculos do quadril somada à do quadríceps reduziu a dor e melhorou a função a curto prazo (evidência considerada forte) e, com evidência apenas limitada, reduziu mais a dor do que a reabilitação do quadríceps isolada a longo prazo. Um ensaio com 54 mulheres sedentárias (Fukuda et al., 2012; programa de 4 semanas) apontou na mesma direção: quem fez exercícios de joelho e de quadril teve menos dor e melhor função em 3, 6 e 12 meses do que quem fez só exercícios de joelho.

Já um ensaio posterior com 112 pacientes (Hott et al., 2020) comparou um programa de 6 semanas de exercícios só para o quadril, de exercícios só para o joelho ou de atividade física livre, todos com a mesma educação ao paciente. Em 1 ano, não houve diferença significativa entre os três grupos, e o conjunto todo melhorou em relação ao início. Ou seja: a vantagem de incluir o quadril é plausível, mas não está firmemente demonstrada, e o fato de o grupo de atividade livre também ter melhorado pede cautela ao atribuir toda a melhora ao exercício específico.

Fontes: Lack S, et al. Br J Sports Med. 2015;49(21):1365-1376 · Fukuda TY, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2012;42(10):823-830 · Hott A, et al. Scand J Med Sci Sports. 2020;30(4):741-753.
Evidência 3 — uma série ou três séries de exercício deu o mesmo resultado em 9 semanas

Em um ensaio randomizado com 42 mulheres com dor patelofemoral, dois grupos fizeram o mesmo programa de fortalecimento de membros inferiores, duas vezes por semana, por 9 semanas: um com 1 série por exercício e outro com 3 séries. Não houve diferença entre os grupos em nenhum desfecho. A função (escala AKPS) melhorou 16 pontos com 1 série e 17 com 3 séries; a dor (escala numérica de dor) caiu 5 e 4 pontos, respectivamente.

Limitações: amostra pequena, apenas mulheres, seguimento curto e sem grupo que não treinasse; portanto o estudo mostra que o volume maior não trouxe vantagem nesse período, mas não resolve qual a dose ideal de exercício.

Fonte: Severo-Silveira L, et al. Braz J Phys Ther. 2026;30(4):101599.

Abordagem de tratamento

As recomendações atuais são conservadoras. O consenso internacional de 2018 (painel de 41 especialistas) apoia exercício terapêutico (especialmente a combinação de exercícios para o quadril e para o joelho), intervenções combinadas e palmilhas ortopédicas para melhorar dor e função. O mesmo painel não recomenda mobilizações isoladas da patela, do joelho ou da lombar, nem aparelhos de eletroterapia usados sozinhos, e declarou haver incerteza sobre bandagens e tape patelar, acupuntura ou agulhamento a seco, técnicas manuais de partes moles, treino com restrição de fluxo sanguíneo e retreino da marcha.

O guia de boas práticas de 2024 vai na mesma direção, mas inclui palmilhas pré-fabricadas, terapia manual, retreino de movimento ou de corrida e taping como medidas de apoio, escolhidas conforme o caso e a preferência de cada pessoa — portanto as fontes divergem um pouco quanto ao tape. Em nenhuma dessas fontes essas medidas substituem o exercício.

Na prática, a escolha das medidas deve ser individualizada após uma avaliação. Em geral, a orientação clínica é adaptar o volume das atividades que provocam a dor, e não parar de se movimentar, e aumentar a carga do exercício de forma gradual conforme a tolerância.

Fontes: Collins NJ, et al. Br J Sports Med. 2018;52(18):1170-1178 · Neal BS, et al. Br J Sports Med. 2024;58(24):1486-1495.

⚠️ Quando buscar avaliação médica

Procure avaliação ortopédica se:
  • Dor intensa após trauma direto no joelho (queda, pancada)
  • Joelho travado ou "falhando" (sensação de ceder) — pode indicar lesão de menisco ou ligamento
  • Inchaço significativo após atividade física
  • Dor que não melhora, ou que piora, apesar de um programa de exercício bem orientado por algumas semanas

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Joelho doendo durante a corrida ou agachamento?

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.