Ilustração 3D anatômica da osteoartrite do joelho: vista frontal mostrando fêmur, tíbia, meniscos, cartilagem com degeneração em vermelho-alaranjado, osteófitos nas bordas ósseas e diminuição do espaço articular
Vista frontal do joelho direito — degeneração da cartilagem (vermelho), osteófitos e diminuição do espaço articular no compartimento medial

Osteoartrite (Artrose) de Joelho

É a doença articular degenerativa do joelho mais comum: a cartilagem que reveste as extremidades ósseas se altera, o osso abaixo dela se remodela e surgem os característicos "bicos de papagaio" (osteófitos), causando dor, rigidez e limitação de movimento. Veja a página de artrose do joelho para mais detalhes.

Quão comum é

Uma metanálise de 88 estudos populacionais estimou prevalência global de artrose do joelho de 16,0% a partir dos 15 anos e de 22,9% a partir dos 40 anos, com cerca de 654 milhões de pessoas de 40 anos ou mais afetadas em 2020. A prevalência nas mulheres foi 1,69 vez a dos homens.

Fonte: Cui A, et al. EClinicalMedicine. 2020;29-30:100587.
O que a evidência mostra

As diretrizes da AAOS (2021) e da CONITEC (Brasil, 2024) dão peso central a educação, exercício e, quando há sobrepeso, perda de peso. Na AAOS, exercício supervisionado, não supervisionado ou aquático é recomendado em vez de nenhum exercício (recomendação forte), assim como programas de autogestão e de educação do paciente. Na CONITEC, informar o paciente sobre exercício e perda de peso e priorizar as alternativas não cirúrgicas antes da cirurgia também têm recomendação forte. A OARSI (2019) inclui educação e exercício estruturado em terra, com ou sem controle de peso, entre os tratamentos de base para o joelho.

A revisão Cochrane mais recente (139 ensaios, 12.468 participantes; atualizada em dezembro de 2024) concluiu, com certeza baixa a moderada, que o exercício provavelmente melhora dor, função e qualidade de vida a curto prazo, mas os próprios autores consideram esses benefícios de importância clínica incerta. Além disso, os participantes da maioria dos estudos sabiam que estavam se exercitando, o que pode ter contribuído para a melhora relatada.

Fontes: AAOS, 2021 · CONITEC, 2024 · Bannuru RR, et al. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(11):1578-1589 · Lawford BJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2024;(12):CD004376.

A AAOS inclui ainda o treino neuromuscular (equilíbrio, agilidade e coordenação) combinado ao exercício tradicional, com recomendação moderada: nos estudos revisados não houve diferença na dor, e houve resultados mistos para a função e a velocidade da marcha. A AAOS recomenda contra o uso de palmilhas em cunha lateral (recomendação forte), por não haver benefício confiável. Anti-inflamatórios tópicos têm recomendação forte na AAOS. Sobre as infiltrações, as diretrizes divergem: a AAOS considera que o corticoide intra-articular pode dar alívio de curto prazo e não recomenda o ácido hialurônico para uso rotineiro, enquanto a CONITEC recomenda, de forma forte, não usar nenhum dos dois.

Sinais de alerta

Lesão de Menisco

O menisco é uma cartilagem em forma de "meia-lua" que amortece o joelho. A lesão pode ser traumática (geralmente em jovens, associada a uma torção) ou degenerativa (em meia-idade e idosos, sem trauma importante, muitas vezes junto com um início de artrose).

Um dado que ajuda a entender o quadro: em um estudo com 991 pessoas de 50 a 90 anos de uma comunidade dos EUA (Framingham), escolhidas sem considerar se tinham problema no joelho, a prevalência de ruptura ou destruição meniscal na ressonância variou de 19% (mulheres de 50 a 59 anos) a 56% (homens de 70 a 90 anos), e 61% das pessoas com ruptura não tinham tido dor, desconforto ou rigidez no mês anterior. O achado na ressonância, sozinho, não prova que o menisco seja a causa da dor.

Fonte: Englund M, et al. N Engl J Med. 2008;359(11):1108-1115.
O estudo que mudou a conduta: cirurgia vs. placebo

O estudo finlandês FIDELITY, publicado no New England Journal of Medicine, comparou a meniscectomia parcial artroscópica com uma cirurgia placebo (artroscopia diagnóstica, sem retirar o menisco) em 146 pacientes de 35 a 65 anos com sintomas de lesão degenerativa do menisco medial e sem artrose do joelho. Em 12 meses, não houve diferença significativa entre os grupos nos três desfechos principais (escores Lysholm e WOMET e dor após exercício). No seguimento de 5 anos, também não houve diferença relevante nos desfechos relatados pelos pacientes; o grupo operado teve um risco levemente maior de progressão radiográfica da artrose e mais sintomas mecânicos (estalos ou travamentos).

Uma revisão Cochrane de 2022 (16 ensaios, 2.105 participantes) concluiu, com certeza alta, que a artroscopia para doença degenerativa do joelho (artrose, incluindo lesões degenerativas do menisco) traz pouca ou nenhuma diferença na dor e na função em 3 meses em comparação com cirurgia placebo. Um ensaio norueguês com 140 adultos (idade média de 49,5 anos) comparou 12 semanas de exercício supervisionado com a meniscectomia e não encontrou diferença clinicamente relevante na função em 2 anos; 19% do grupo do exercício acabaram operados nesse período, sem benefício adicional.

Fontes: Sihvonen R, et al. N Engl J Med. 2013;369(26):2515-2524 · Sihvonen R, et al. Br J Sports Med. 2020;54(22):1332-1339 · O'Connor D, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2022;3(3):CD014328 · Kise NJ, et al. BMJ. 2016;354:i3740.

Isso não significa que o menisco nunca precise de cirurgia: esses estudos incluíram rupturas degenerativas em pessoas sem artrose franca, e lesões traumáticas ou com bloqueio mecânico verdadeiro (joelho travado, sem conseguir esticar) são outra situação. A diretriz brasileira, por exemplo, ressalva a artroscopia em casos de bloqueio mecânico por corpo livre ou lesão meniscal traumática, e a AAOS admite a meniscectomia parcial em quem tem lesão do menisco com artrose leve a moderada e não melhorou com fisioterapia ou outros tratamentos não cirúrgicos. Um detalhe de uma análise do FIDELITY: a meniscectomia não aliviou o estalo ou o travamento ocasional relatado pelo paciente mais do que a cirurgia placebo, o que pede cautela ao usar só esse sintoma como indicação.

Fontes: CONITEC, 2024 · AAOS, 2021 · Sihvonen R, et al. Ann Intern Med. 2016;164(7):449-455.

Lesão de Ligamento Cruzado Anterior (LCA)

A ruptura do LCA costuma ocorrer em uma torção do joelho e pode causar instabilidade ("dá branco", falseia).

Em um estudo populacional nos EUA (1990 a 2010), a incidência anual ajustada de rupturas isoladas do LCA foi de 68,6 por 100 mil pessoas-ano, maior em homens do que em mulheres (81,7 vs 55,3 por 100 mil). O pico ocorreu entre 19 e 25 anos nos homens e entre 14 e 18 anos nas mulheres.

Fonte: Sanders TL, et al. Am J Sports Med. 2016;44(6):1502-1507.
Cirurgia logo ou reabilitação primeiro?

O estudo sueco KANON (NEJM, com seguimento publicado no BMJ) acompanhou 121 adultos jovens e ativos (idade média de 26 anos) com ruptura aguda de LCA: um grupo fez reconstrução cirúrgica precoce, o outro, reabilitação estruturada, com cirurgia posterior só se necessária. Em 2 e em 5 anos, não houve diferença significativa nos escores do joelho entre as estratégias. Mas 51% do grupo de reabilitação acabaram fazendo a cirurgia tardia em 5 anos. Quanto à artrose no raio-X, a revisão Cochrane registrou 35% (19 de 58) no grupo operado e 18% (10 de 55) no de reabilitação, com evidência de qualidade muito baixa; na análise do próprio ensaio, a diferença na artrose radiográfica nova não foi estatisticamente significativa (p = 0,17).

Já em pacientes com lesão não aguda do LCA e instabilidade persistente, o ensaio britânico ACL SNNAP (316 pacientes) mostrou resultado diferente: aos 18 meses, o grupo cirúrgico teve KOOS4 médio de 73,0 contra 64,6 na reabilitação (diferença ajustada de 7,9 pontos, IC 95% 2,5 a 13,2), mas 41% do grupo de reabilitação acabaram operados e 28% do grupo cirúrgico não fizeram a cirurgia designada. A conclusão dos autores foi que a cirurgia foi clinicamente superior nesse cenário.

Fontes: Frobell RB, et al. N Engl J Med. 2010;363(4):331-342 · Frobell RB, et al. BMJ. 2013;346:f232 · Monk AP, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2016;4(4):CD011166 · Beard DJ, et al. Lancet. 2022;400(10352):605-615.

Na prática: em adultos jovens ativos com ruptura aguda, não existe uma indicação automática de cirurgia só por haver ruptura do LCA, e a reabilitação como primeiro passo é uma opção válida — sabendo que parte dos pacientes acaba operada. Em quem segue com falseio apesar da reabilitação, a evidência favorece a cirurgia. A decisão considera a instabilidade, as lesões associadas e o que o paciente pretende fazer no esporte. Todos esses ensaios são de tamanho limitado e a certeza da evidência é baixa; a conversa com o ortopedista deve ser individual.

Condromalácia Patelar e Dor Femoropatelar

Vale uma distinção importante: dor femoropatelar é um diagnóstico clínico — dor ao redor ou atrás da patela, que piora ao agachar, subir escada ou ficar muito tempo sentado com o joelho dobrado. Condromalácia patelar é um achado estrutural (amolecimento da cartilagem), visto por imagem ou artroscopia. Os termos são usados como sinônimos no dia a dia, mas não são a mesma coisa: alteração de cartilagem na ressonância aparece também em quem não tem dor (veja condromalácia patelar).

É comum em adolescentes: em uma metanálise, a prevalência pontual de dor patelofemoral em adolescentes foi de 7,2% (IC 95% 6,3% a 8,3%), chegando a 22,7% entre atletas adolescentes do sexo feminino.

Fonte: Smith BE, et al. PLoS One. 2018;13(1):e0190892.

O consenso internacional de 2018 (5º Retiro Internacional de Pesquisa em Dor Patelofemoral, painel de 41 especialistas) apoia o exercício terapêutico — especialmente a combinação de exercícios para o quadril e para o joelho — além de intervenções combinadas e palmilhas ortopédicas. O painel não recomenda mobilizações isoladas nem aparelhos de eletroterapia sozinhos, e declarou incerteza quanto a bandagens e taping patelar. Os detalhes e as limitações da evidência estão na página de dor patelofemoral.

Fonte: Collins NJ, et al. Br J Sports Med. 2018;52(18):1170-1178.

⚠️ Sinais de alerta no joelho

Procure avaliação urgente se notar:
  • Joelho travado, sem conseguir esticar — sugere um fragmento solto dentro da articulação
  • Inchaço imediato (em menos de 2 horas) após uma torção — sugere lesão do LCA, luxação de patela ou fratura
  • Incapacidade de apoiar o peso ou de dobrar o joelho após um trauma — pode haver fratura. Os médicos usam um critério clínico validado, as "Regras de Ottawa para o joelho", para decidir se é preciso radiografia; quando o resultado é negativo, em uma revisão sistemática elas excluíram fratura com sensibilidade combinada de 98,5% (Stiell et al., JAMA 1996; Bachmann et al., Ann Intern Med 2004)
  • Vermelhidão, calor, febre em uma articulação — pode ser infecção articular, emergência
  • Alteração de cor, temperatura ou ausência de pulso no pé após um trauma no joelho — possível lesão de vasos, emergência

Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.

Dor no joelho persistente?

Antes de pensar em cirurgia, a avaliação clínica define se o tratamento sem cirurgia é adequado ao seu caso — para vários problemas do joelho citados acima, os estudos não mostraram vantagem da cirurgia, mas isso depende do diagnóstico.

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Uma alteração vista na ressonância (menisco, cartilagem) nem sempre é a causa da sua dor nem exige cirurgia — o exame clínico é o que define a conduta certa para o seu caso.