O que é
É a lesão dos ligamentos do tornozelo causada por uma torção além do movimento normal. A forma mais comum é a entorse lateral: o pé vira "para dentro" e atinge os ligamentos do lado externo do tornozelo — uma revisão de estudos prospectivos encontrou risco maior de entorse lateral do que de entorse da sindesmose (a "entorse alta") ou do ligamento do lado de dentro. Costuma-se classificá-la em graus I (distensão leve), II (ruptura parcial) e III (ruptura completa).
Quão comum é
Um levantamento de atendimentos em prontos-socorros dos Estados Unidos entre 2002 e 2006 estimou 3,1 milhões de entorses de tornozelo, o equivalente a 2,15 casos por 1.000 pessoas por ano. O pico foi entre 15 e 19 anos (7,2 por 1.000 pessoas/ano) e cerca de metade (49,3%) aconteceu durante atividade esportiva. Esses números contam apenas quem foi ao pronto-socorro; quem se tratou em casa ou em consultório não entra na conta. Em outra revisão, o risco de entorse foi maior em mulheres do que em homens e maior nos esportes de quadra.
Nem toda entorse "cura e acabou": a revisão Cochrane sobre instabilidade crônica cita que ela ocorre em 10% a 20% das pessoas após uma entorse aguda, e uma revisão mais recente estima que até 40% de quem tem a primeira entorse lateral desenvolvem instabilidade crônica. A faixa é ampla porque as populações e as definições usadas nos estudos variam. Veja instabilidade crônica do tornozelo.
As Regras de Ottawa para o Tornozelo são um critério clínico criado para indicar quando o raio-X é realmente necessário. No estudo de validação (adultos atendidos em dois pronto-socorros universitários), as regras refinadas detectaram todas as fraturas da região do tornozelo (sensibilidade de 100%, intervalo de confiança de 95% de 0,93 a 1,0) e a redução estimada de radiografias foi de cerca de um terço (34%). Uma revisão sistemática posterior, com 27 estudos e 15.581 pacientes, confirmou sensibilidade próxima de 100% com especificidade modesta: aplicada a uma prevalência de fratura de 15%, a chance de haver fratura com regra negativa ficou abaixo de 1,4%, e o uso da regra reduziria as radiografias desnecessárias em 30% a 40%.
Indica-se o raio-X do tornozelo se houver dor na região dos maléolos (as saliências ósseas dos dois lados do tornozelo) e pelo menos um destes: dor ao apertar a borda de trás dos 6 cm finais da tíbia ou da fíbula, ou a ponta de qualquer um dos maléolos; ou incapacidade de apoiar o peso logo após a lesão e de dar 4 passos na hora do atendimento. Existe uma regra parecida para dor no meio do pé. Com a regra negativa a chance de fratura é baixa, mas não é zero: a decisão final é de quem examina o seu tornozelo.
Fontes: Stiell IG, et al. JAMA. 1993;269(9):1127-1132 · Bachmann LM, et al. BMJ. 2003;326(7386):417.Como tratar: o que a evidência mostra
Por muito tempo se recomendou "RICE" (repouso, gelo, compressão, elevação). Em 2020, dois fisioterapeutas propuseram em um editorial do British Journal of Sports Medicine trocá-lo por PEACE & LOVE. É uma proposta de especialistas, resumida em siglas — não um protocolo testado em ensaios clínicos como pacote:
- PEACE (fase aguda, primeiros dias): Proteção, Elevação, Evitar procedimentos anti-inflamatórios, Compressão, Educação sobre a lesão.
- LOVE (fase seguinte): Carga progressiva (voltar a usar o tornozelo dentro do possível), Otimismo, exercício aeróbico leve para melhorar a circulação (Vascularização), e Exercício de fortalecimento e equilíbrio.
O que as diretrizes e revisões sustentam, com limitações:
- Exercício e suporte: segundo a diretriz holandesa atualizada em 2018, o paciente com ruptura ligamentar lateral aguda se beneficia mais de fita ou órtese combinada com um programa de exercícios, e programas de exercício supervisionados são preferíveis a recursos passivos. Uma imobilização curta pode ajudar a aliviar dor e inchaço.
- Anti-inflamatórios: as fontes divergem. A diretriz alerta que eles podem atrapalhar o processo natural de cicatrização e pede cuidado; uma revisão de revisões, por outro lado, encontrou evidência forte de que reduzem dor e inchaço quando combinados com mobilização precoce. Por isso o uso deve ser decidido com o médico, caso a caso.
- Cirurgia: na entorse aguda, a revisão Cochrane (20 ensaios, 2.562 participantes, todos com limitações metodológicas) concluiu que não há evidência suficiente para dizer se cirurgia é melhor do que tratamento sem cirurgia. A diretriz reserva a cirurgia para os casos que não respondem a um tratamento completo baseado em exercícios.
Na prática, o tratamento costuma seguir fases: controle inicial da dor e do inchaço, depois trabalho de mobilidade e equilíbrio (propriocepção — importante para não torcer de novo) e, por fim, fortalecimento e retorno gradual à atividade. O ritmo de cada fase depende da gravidade e da avaliação individual.
⚠️ Quando procurar avaliação com urgência
- Deformidade visível no tornozelo
- Formigamento, palidez ou pé muito frio — possível comprometimento de vasos/nervos
- Trauma de alta energia (acidente, queda de altura)
- Dor, inchaço ou sensação de que o tornozelo "cede" que não melhoram como esperado nas semanas seguintes — a diretriz holandesa aponta que o exame físico repetido 4 a 5 dias após o trauma é a forma mais confiável de avaliar a gravidade da lesão do ligamento, e a persistência dos sintomas justifica nova avaliação (e, a critério do médico, exames de imagem)
Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.
Torceu o tornozelo?
Uma avaliação rápida evita que uma entorse mal cuidada vire uma instabilidade crônica.
Agendar avaliaçãoReferências científicas
- Stiell IG, Greenberg GH, McKnight RD, et al. "Decision rules for the use of radiography in acute ankle injuries. Refinement and prospective validation." JAMA. 1993;269(9):1127-1132. JAMA
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Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.