Ilustração 3D anatômica da instabilidade crônica do tornozelo: vista lateral mostrando tíbia, fíbula, tálus com translação anterior, calcâneo, ATFL frouxo/lesionado em vermelho-alaranjado e ligamento calcaneofibular
Vista lateral do tornozelo — ATFL frouxo (laranja) permitindo translação anterior do tálus, mecanismo da instabilidade crônica

O que é

A instabilidade crônica do tornozelo (ICT) costuma ser descrita assim: o paciente está mais de 12 meses distante da entorse inicial e tem tendência a novas entorses, episódios frequentes (ou a sensação) de o tornozelo "ceder", e sintomas persistentes como dor, inchaço, limitação de movimento, fraqueza e pior função relatada. É diferente da entorse aguda: o problema deixa de ser só o ligamento lesado. Os modelos atuais descrevem uma combinação de alterações mecânicas (frouxidão), da percepção e sensibilidade do tornozelo e do controle motor — por isso o treino de controle do movimento tem papel central na reabilitação.

O Consórcio Internacional do Tornozelo (IAC), grupo de pesquisadores e clínicos da área, publicou em 2013 uma posição para padronizar os critérios usados para selecionar pacientes com ICT em pesquisa, e em 2016 um consenso sobre a prevalência, o impacto e as consequências de longo prazo das entorses laterais.

Quão comum é

As estimativas variam bastante. A revisão Cochrane sobre o tema cita que a instabilidade crônica lateral ocorre em 10% a 20% das pessoas após uma entorse aguda; um artigo de revisão de 2019 estima que até 40% de quem tem a primeira entorse lateral desenvolve ICT. A diferença vem de populações e definições distintas entre os estudos.

O consenso do IAC aponta que as taxas de recorrência das entorses laterais são altas e que uma parcela grande dos pacientes evolui para ICT, condição associada a menor nível de atividade física, pior qualidade de vida e maior frequência de artrose pós-traumática do tornozelo. Os números exatos de prevalência no Brasil não foram encontrados nas fontes que li e, por isso, não são citados aqui.

Fontes: de Vries JS, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2011;(8):CD004124 · Hertel J, Corbett RO. J Athl Train. 2019;54(6):572-588 · Gribble PA, et al. Br J Sports Med. 2016;50(24):1496-1505.
Treino neuromuscular e de equilíbrio: a base do tratamento sem cirurgia

Uma meta-análise de 15 ensaios clínicos randomizados (457 participantes com ICT) concluiu, com evidência de qualidade razoável a alta, que o treino de equilíbrio melhora a função, a sensação de instabilidade e o equilíbrio dinâmico em comparação com exercício comum. Quando comparado ao treino de fortalecimento, a vantagem do equilíbrio apareceu apenas na função, não na instabilidade nem no equilíbrio dinâmico. Uma meta-análise em rede de 44 ensaios (2025) classificou como mais efetivo, para função e dor, o programa que combina equilíbrio e fortalecimento, acrescido de terapia manual ou agulhamento a seco — mas esse tipo de ranking compara tratamentos entre si e não mede, sozinho, o tamanho do benefício.

Os programas costumam combinar, em progressão, estas fases (exemplo usado na prática; os estudos variam muito em tipo, duração e dose dos exercícios):

  • Estabilidade estática: equilíbrio em uma perna só, em superfícies instáveis progressivas, de olhos abertos e depois fechados
  • Estabilidade dinâmica: saltos e aterrissagens, mudanças de direção, exercícios do esporte praticado
  • Fortalecimento: músculos ao redor do tornozelo, com carga progressiva

Órtese/tornozeleira: uma revisão de revisões encontrou evidência forte para o uso de órtese e evidência moderada para o treino neuromuscular na prevenção de novas entorses; a diretriz holandesa de 2018 recomenda considerar a órtese para prevenir recorrência. A Cochrane de 2011 acrescenta uma limitação importante: os ensaios sobre treino neuromuscular eram pequenos (por exemplo, 19 participantes em um deles) e não havia dados de acompanhamento de longo prazo.

Fontes: Mollà-Casanova S, et al. Clin Rehabil. 2021;35(12):1694-1709 · Yang YS, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2025;55(1):26-44 · Doherty C, et al. Br J Sports Med. 2017;51(2):113-125 · Vuurberg G, et al. Br J Sports Med. 2018;52(15):956 · de Vries JS, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2011;(8):CD004124.
Quando considerar cirurgia

A diretriz holandesa de 2018 recomenda reservar a cirurgia para os casos que não respondem a um tratamento completo baseado em exercícios. As fontes que li não definem um prazo mínimo de reabilitação antes de operar; a decisão é individual, depende da frouxidão do ligamento, dos sintomas e dos objetivos do paciente.

O procedimento de Broström modificado (reparo anatômico do ligamento tálofibular anterior) é a técnica mais conhecida. Uma revisão sistemática de 11 estudos (669 procedimentos) encontrou taxa de revisão de 1,2% após seguimento médio ponderado de 8,4 anos, mas os autores ressaltam que faltam estudos prospectivos comparativos. A revisão Cochrane, por sua vez, não encontrou evidência suficiente para preferir uma técnica cirúrgica a outra (10 ensaios, com limitações importantes). Comparando a técnica artroscópica com a aberta, uma meta-análise de 4 estudos (207 pacientes) não encontrou diferença significativa nos resultados; apenas um estudo mostrou retorno mais rápido às atividades diárias com a artroscopia, e os autores pedem ensaios maiores e de seguimento mais longo.

Os estudos que li não permitem prometer um percentual de satisfação nem um prazo exato de retorno ao esporte: isso varia com o paciente, a técnica e a reabilitação.

Fontes: Vuurberg G, et al. Br J Sports Med. 2018;52(15):956 · So E, et al. J Foot Ankle Surg. 2017;56(5):1076-1080 · de Vries JS, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2011;(8):CD004124 · Song YJ, Hua YH. J Foot Ankle Surg. 2019;58(2):312-319.

Resumo do tratamento

⚠️ Quando avaliar com maior urgência

A instabilidade crônica em si não é uma emergência, mas procure avaliação com mais urgência se:
  • Nova entorse com dor muito intensa, inchaço rápido e incapacidade de apoiar — pode ter fratura associada (Regras de Ottawa)
  • Dor persistente na região anterior do tornozelo, especialmente após esforço — pode indicar lesão da cartilagem (osteocondral) secundária à instabilidade crônica
  • Sensação de "travar" ou "soltar" dentro do tornozelo — pode indicar corpo livre articular
  • Dor que piora progressivamente mesmo sem novo trauma — investigar artrose pós-traumática do tornozelo

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Vídeo sobre o tema

Instabilidade lateral do tornozelo

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Referências científicas

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