O que é
A sindesmose é o conjunto de ligamentos que mantém unidas a fíbula e a tíbia logo acima do tornozelo — uma articulação que permite muito pouco movimento, mas essencial para a função do tornozelo na marcha e no esporte. Segundo uma revisão clínica, o mecanismo mais relatado é a rotação externa e a dorsiflexão excessiva do pé sobre a perna, e a lesão é mais comum em esportes como esqui, futebol e outros jogados em campo de grama (turf).
É diferente da entorse lateral clássica, que atinge o ligamento tálofibular anterior: a lesão da sindesmose ocorre mais acima, entre os ossos da perna. Ela costuma passar despercebida e ser tratada como entorse lateral, mas é mais incapacitante. Quanto à frequência, as estimativas variam muito: uma revisão cita de 1% a 16% das entorses agudas de tornozelo (e 23,6% quando a incapacidade dura mais de 2 meses), e outra, até 18%, com incidência maior em atividade esportiva. Esses números vêm de revisões narrativas e de populações diferentes; por isso não há um percentual único confiável.
Fontes: Lin CF, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2006;36(6):372-384 · Valkering KP, et al. Orthopedics. 2012;35(12):e1705-1710 · Porter DA, et al. Open Access J Sports Med. 2014;5:173-182.Como identificar: testes clínicos e imagem
A lesão da sindesmose deve ser suspeitada quando há dor localizada acima do tornozelo, entre a tíbia e a fíbula. O consenso europeu de 2016 (ESSKA-AFAS) recomenda como testes clínicos a palpação sobre o ligamento tibiofibular anterior, o teste de translação da fíbula e o teste de Cotton. Outros testes usados na prática:
- Squeeze test (teste de compressão): compressão da fíbula contra a tíbia na altura da panturrilha — dor reproduzida na região da sindesmose sugere lesão
- Teste de rotação externa: rotação externa passiva do pé — dor na região da sindesmose é considerada positiva
- Cotton test / teste de translação: o examinador move o tálus lateralmente; deslocamento excessivo sugere instabilidade
Nenhum teste isolado resolve: uma revisão sistemática de 2013 concluiu que o clínico não pode confiar em um único teste e que exames adicionais, como a ressonância magnética, devem ser considerados antes do diagnóstico final. Uma meta-análise de 2021 (6 estudos, 512 participantes) mostrou que os testes mais sensíveis foram a palpação e o teste de afundo em dorsiflexão, e os mais específicos foram o squeeze test (especificidade de 85%) e o de rotação externa (78%); nenhum teve ao mesmo tempo alta sensibilidade e alta especificidade, e os testes também não separam com segurança lesão estável de instável.
O raio-X faz parte da avaliação (o consenso ESSKA-AFAS recomenda incidências de frente e em "mortise" para checar o espaço entre tíbia e fíbula), e a ressonância magnética ou outros exames são considerados quando a dúvida persiste. A decisão sobre qual exame pedir é do ortopedista.
Fontes: van Dijk CN, et al. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2016;24(4):1200-1216 · Sman AD, et al. Br J Sports Med. 2013;47(10):620-628 · Netterström-Wedin F, Bleakley C. Phys Ther Sport. 2021;49:214-226.Num estudo prospectivo com 64 atletas com lesão isolada da sindesmose grau II, todos voltaram ao mesmo nível de esporte profissional: os 28 atletas com lesão estável retornaram em média em 45 dias (variação de 23 a 63) e os com lesão instável, que foram operados, em média em 64 dias (variação de 27 a 104). Uma meta-análise de 10 estudos com 440 atletas de elite estimou taxa de retorno de 99% e tempo médio de 38 dias, em torno de 4 semanas sem cirurgia e de 7 semanas com cirurgia. Outra meta-análise, com 14 estudos e 901 atletas de elite, estimou retorno em 96%, semelhante após fixação com botão de sutura (98%) e após tratamento sem cirurgia (98%), com a maioria retomando o esporte em até 2 meses.
Limitações: esses dados vêm de atletas de elite, em geral de séries não randomizadas (os casos operados costumam ser os mais graves), e a segunda meta-análise aponta sinais de viés de publicação. Eles não valem automaticamente para quem pratica esporte por lazer, nem para quem tem outras lesões associadas. Atleta amador pode levar mais tempo, e o prazo do seu caso só pode ser estimado pelo ortopedista após a avaliação.
Fontes: Calder JD, et al. Arthroscopy. 2016;32(4):634-642 · Bolia IK, et al. Clin J Sport Med. 2023;33(1):90-96 · Li R, et al. J Orthop Surg Res. 2025;21(1):69.Quando a lesão é instável e exige fixação cirúrgica, há duas opções principais: o parafuso de sindesmose (técnica tradicional, que pode quebrar ou precisar ser retirado) e o botão de sutura flexível (por exemplo, o TightRope®). Num ensaio clínico randomizado com 97 pacientes de 18 a 70 anos, a pontuação funcional (AOFAS) em 2 anos foi maior com o botão (mediana de 96 contra 86) e houve menos casos de abertura sintomática da sindesmose: 7 pacientes no grupo do parafuso e nenhum no do botão. Uma meta-análise de 5 estudos (143 pacientes com botão e 142 com parafuso) encontrou resultado semelhante: pontuação AOFAS de 95,3 contra 86,7 em média aos 20,8 meses, e menos implantes quebrados (0,0% contra 25,4%), menos retiradas de implante (6,0% contra 22,4%) e menos má redução da articulação (0,8% contra 11,5%).
Limitações: os estudos incluíram adultos com lesões variadas envolvendo a sindesmose, e não apenas atletas com lesão isolada; a amostra do ensaio é modesta. Os trabalhos que li não comparam o tempo de retorno ao esporte entre as duas técnicas. Quando há fratura associada, a fixação da fratura faz parte do tratamento, e o cirurgião escolhe o implante para o conjunto.
Fontes: Andersen MR, et al. J Bone Joint Surg Am. 2018;100(1):2-12 · Shimozono Y, et al. Am J Sports Med. 2019;47(11):2764-2771.Resumo do tratamento: estável ou instável
- Lesão estável: o consenso ESSKA-AFAS recomenda tratamento sem cirurgia, com bota curta ou órtese, seguido de fisioterapia; uma revisão clínica descreve imobilização inicial e controle da dor, depois fortalecimento e treino de equilíbrio.
- Lesão instável: o consenso recomenda tratamento cirúrgico, com botão de sutura ou parafuso, conforme avaliação do cirurgião.
- Como saber se é instável: não é simples. No estudo de 64 atletas, o squeeze test positivo e a lesão associada do ligamento deltoide ajudaram a distinguir lesões instáveis, e alguns casos só foram definidos por artroscopia. A decisão é do ortopedista.
Ponto importante: as lesões da sindesmose muitas vezes não são reconhecidas e são tratadas como entorse comum; segundo uma revisão, a duração dos sintomas costuma ser maior e a evolução para sintomas crônicos ou instabilidade que exige estabilização cirúrgica é frequente. Os dados disponíveis vêm de séries pequenas e de revisões narrativas, por isso não é possível dar um percentual.
Fontes: van Dijk CN, et al. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2016;24(4):1200-1216 · Calder JD, et al. Arthroscopy. 2016;32(4):634-642 · Lin CF, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2006;36(6):372-384 · Valkering KP, et al. Orthopedics. 2012;35(12):e1705-1710.⚠️ Sinais de que pode ser sindesmose e não entorse simples
- Dor acima do tornozelo, entre os ossos da perna (e não no lado externo do tornozelo)
- Dor ao apertar a panturrilha (squeeze test positivo)
- Mecanismo de rotação externa do pé durante a lesão (torceu "para fora" com o pé preso)
- Dificuldade para apoiar o peso, mesmo sem fratura no raio-X simples
- Raio-X mostrando alargamento do espaço tibiofibular — exige avaliação urgente
Se você torceu o tornozelo e a dor é diferente do habitual — acima do tornozelo, com dificuldade de apoio — não trate como entorse simples. Fale com a ou agende uma avaliação.
Dor acima do tornozelo após entorse?
Reconhecer a lesão desde o início ajuda a escolher o tratamento certo e a planejar o retorno ao esporte.
Agendar avaliação ortopédicaReferências científicas
- van Dijk CN, Longo UG, Loppini M, et al. "Classification and diagnosis of acute isolated syndesmotic injuries: ESSKA-AFAS consensus and guidelines." Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2016;24(4):1200-1216. KSSTA
- Calder JD, Bamford R, Petrie A, McCollum GA. "Stable Versus Unstable Grade II High Ankle Sprains: A Prospective Study Predicting the Need for Surgical Stabilization and Time to Return to Sports." Arthroscopy. 2016;32(4):634-642. Arthroscopy
- Valkering KP, Vergroesen DA, Nolte PA. "Isolated syndesmosis ankle injury." Orthopedics. 2012;35(12):e1705-1710. Orthopedics
- Lin CF, Gross ML, Weinhold P. "Ankle syndesmosis injuries: anatomy, biomechanics, mechanism of injury, and clinical guidelines for diagnosis and intervention." J Orthop Sports Phys Ther. 2006;36(6):372-384. JOSPT
- Porter DA, Jaggers RR, Barnes AF, Rund AM. "Optimal management of ankle syndesmosis injuries." Open Access J Sports Med. 2014;5:173-182. OAJSM
- Sman AD, Hiller CE, Refshauge KM. "Diagnostic accuracy of clinical tests for diagnosis of ankle syndesmosis injury: a systematic review." Br J Sports Med. 2013;47(10):620-628. BJSM
- Netterström-Wedin F, Bleakley C. "Diagnostic accuracy of clinical tests assessing ligamentous injury of the ankle syndesmosis: A systematic review with meta-analysis." Phys Ther Sport. 2021;49:214-226. Phys Ther Sport
- Bolia IK, Bogdanov J, Schoell K, et al. "Elite Athletes Successfully Return to the Preinjury Level of Sport Following Ankle Syndesmosis Injuries: A Systematic Review and Meta-Analysis." Clin J Sport Med. 2023;33(1):90-96. Clin J Sport Med
- Li R, Sun C, Qi P, Xu Z. "Return-to-sport rate and time in elite athletes after ankle syndesmosis injuries: a systematic review and meta-analysis." J Orthop Surg Res. 2025;21(1):69. J Orthop Surg Res
- Andersen MR, Frihagen F, Hellund JC, et al. "Randomized Trial Comparing Suture Button with Single Syndesmotic Screw for Syndesmosis Injury." J Bone Joint Surg Am. 2018;100(1):2-12. JBJS
- Shimozono Y, Hurley ET, Myerson CL, et al. "Suture Button Versus Syndesmotic Screw for Syndesmosis Injuries: A Meta-analysis of Randomized Controlled Trials." Am J Sports Med. 2019;47(11):2764-2771. AJSM
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.