O que é
São duas coisas diferentes, e a confusão entre elas gera muita angústia desnecessária:
- Espondilólise é uma falha (geralmente uma fratura por estresse) numa pequena ponte óssea da vértebra chamada pars interarticularis — o istmo. A vértebra continua no lugar.
- Espondilolistese é quando uma vértebra escorrega para frente em relação à de baixo. Pode acontecer depois de uma espondilólise bilateral, ou por degeneração das articulações com a idade.
O escorregamento é medido em graus, conforme a porcentagem de deslizamento. Uma revisão da Scoliosis Research Society sobre crianças e adolescentes (Crawford et al., 2017) relata que os estudos sugerem curso benigno nos graus baixos da forma ístmica (escorregamento menor que 50%), embora muitos pacientes procurem tratamento por dor e limitação de atividades. Os autores destacam que nenhum dos estudos encontrados era de nível I ou II de evidência.
Dois cenários bem diferentes
Chamar tudo de "espondilolistese" esconde que existem dois pacientes completamente distintos por trás do mesmo nome:
- Espondilolistese ístmica — o jovem, muitas vezes atleta. A causa é a fratura por estresse do istmo, que é encontrada mais vezes em atletas do que em não atletas (veja os números abaixo).
- Espondilolistese degenerativa — o adulto após os 50. Vem da degeneração do disco e das articulações facetárias e costuma vir junto com estenose do canal lombar. Uma revisão sistemática (Wang et al., 2017) mostrou que poucas pessoas a desenvolvem antes dos 50 anos e que, depois disso, as mulheres a desenvolvem mais rápido que os homens: em idosos chineses (65 anos ou mais), a prevalência foi de 25,0% nas mulheres e 19,1% nos homens, e em idosos de origem europeia nos EUA foi cerca de 60% a 70% maior.
O tratamento, o prognóstico e até a conversa com o paciente mudam conforme o cenário.
Quão comum é
Uma revisão sistemática com meta-análise (van den Heuvel et al., Spine, 2020) reuniu 31 artigos e 2.373 participantes para medir o que aparece na ressonância da coluna de crianças e adolescentes (dois terços dos estudos tinham baixo risco de viés). O resultado ajuda a calibrar o susto:
Ou seja: a espondilólise é uma causa frequente e real de dor lombar nessa faixa etária. Mas 6% dos atletas sem dor nenhuma também têm o achado, o que reforça que a imagem precisa ser lida junto com o exame clínico.
O que acontece ao longo da vida
Este é um estudo raro: acompanhou uma população sem seleção por dor. Em 1955, 500 crianças da primeira série foram avaliadas por radiografia; 30 delas tinham lesão do istmo (pars) e foram reavaliadas 45 anos depois com ressonância, questionário de dor e qualidade de vida (SF-36). Os achados:
- Quem tinha defeito unilateral nunca apresentou escorregamento ao longo de todo o estudo.
- A progressão do escorregamento desacelerou a cada década, e nenhum participante chegou a 40% de deslizamento.
- Não houve associação entre progressão do escorregamento e dor lombar.
- A qualidade de vida (SF-36) não teve diferença estatística em relação à população geral da mesma idade.
Nesse grupo, o curso clínico foi semelhante ao da população geral. Limitação importante: são apenas 30 pessoas com lesão, e um estudo desse tamanho não garante que o mesmo valha para todos — a própria revisão da Scoliosis Research Society (acima) lembra que muita gente procura tratamento por dor.
Fonte: Beutler WJ, et al. Spine. 2003;28(10):1027-1035. Segundo os autores, é o único estudo prospectivo a documentar a história natural da espondilólise e da espondilolistese por mais de 45 anos em uma população não selecionada por dor.Sintomas
- Dor lombar que piora com extensão da coluna (arquear para trás) e com atividade de impacto
- No jovem atleta: dor que aparece ou piora durante o treino e melhora com repouso relativo
- Na forma degenerativa: dor que irradia para as pernas ao caminhar ou ficar em pé, aliviando ao sentar ou inclinar o tronco para frente (claudicação neurogênica, típica da estenose associada)
- Sensação de instabilidade ou "travamento" na lombar
O tratamento começa sem cirurgia
No atleta jovem com espondilólise sintomática: uma revisão sistemática (Grazina et al., Physical Therapy in Sport, 2019) reuniu 14 estudos com 592 participantes. Com o tratamento conservador (colete, modificação da atividade esportiva e fisioterapia), 92% dos atletas voltaram ao esporte em qualquer nível e 89% ao nível anterior à lesão, em média em 4,6 meses. Entre os operados, os números foram 88% e 81%, em 6,8 meses. Limitação: são estudos de baixo nível de evidência (séries de casos), sem sorteio entre tratamento conservador e cirurgia, e os operados provavelmente são, em grande parte, quem não melhorou com o tratamento conservador.
No adulto com espondilolistese degenerativa: uma revisão (Kalichman e Hunter, European Spine Journal, 2008) considera o prognóstico geralmente favorável e o tratamento não cirúrgico como a conduta inicial na maioria dos casos, com analgésicos e anti-inflamatórios, infiltrações epidurais de corticoide, colete e exercícios de fortalecimento em flexão. Os próprios autores ressaltam que são necessários mais estudos para definir protocolos de tratamento conservador.
Quando a cirurgia entra
Para a espondilolistese degenerativa com estenose, os ensaios clínicos de peso não dizem exatamente a mesma coisa:
O SPORT (Weinstein et al., NEJM, 2007), estudo multicêntrico americano com 304 pacientes randomizados e mais 303 em coorte observacional, teve um problema conhecido: cerca de 40% dos pacientes trocaram de grupo em cada direção no primeiro ano. Na análise por intenção de tratar — a mais conservadora —, não houve diferença estatisticamente significativa nos desfechos principais. Já na análise pelo tratamento efetivamente recebido (comparação não randomizada, com ajuste para fatores de confusão), a cirurgia mostrou vantagem em 2 anos: efeito de 18,1 pontos em dor corporal e −16,7 no Índice de Incapacidade de Oswestry.
Uma meta-análise (Fernandez et al., European Spine Journal, 2016) reuniu ensaios que compararam cirurgia com tratamentos baseados em atividade física e concluiu que, na espondilolistese, a cirurgia foi superior por mais de 2 anos de seguimento, embora os autores alertem que faltam estudos de alta qualidade.
E qual cirurgia? Três ensaios randomizados compararam descompressão (laminectomia) isolada com descompressão e artrodese, e chegaram a resultados diferentes:
- SLIP (Ghogawala et al., NEJM, 2016): 66 pacientes de 50 a 80 anos, com escorregamento estável de 3 a 14 mm (80% mulheres). Aos 2 anos, o grupo com artrodese teve ganho um pouco maior em qualidade de vida física (15,2 contra 9,5 pontos no SF-36; p=0,046), sem diferença significativa na incapacidade por dor lombar (Oswestry: −26,3 contra −17,9; p=0,06). A artrodese teve mais sangramento e internação mais longa, e menos reoperações no acumulado (14% contra 34%; p=0,05). Só 68% dos pacientes foram avaliados aos 4 anos.
- NORDSTEN-DS (Austevoll et al., NEJM, 2021): estudo norueguês de não inferioridade (262 pacientes na análise principal). Aos 2 anos, a descompressão isolada não foi inferior à descompressão com artrodese (mudança do Oswestry de −20,6 contra −21,3). Reoperação em 12,5% (descompressão isolada) e 9,1% (com artrodese).
- NORDSTEN-DS, 5 anos (Kgomotso et al., BMJ, 2024): a descompressão isolada continuou não inferior (mudança do Oswestry de −17,8 nos dois grupos), e novas operações no acumulado não diferiram entre os grupos (16% contra 18%).
A leitura prática: a cirurgia pode ajudar pacientes selecionados com sintomas de estenose, mas acrescentar a artrodese não é uma vantagem comprovada — o SLIP sugeriu ganho pequeno, o NORDSTEN-DS não encontrou diferença em 2 e 5 anos. Nada disso torna a operação um caminho obrigatório. A decisão é individual e compartilhada.
⚠️ Quando não esperar
- Mudança no jeito de urinar (dificuldade para começar, jato fraco, esvaziamento incompleto) ou perda de controle da urina ou das fezes
- Dormência ou mudança de sensibilidade na região da "sela" (períneo, genitais, face interna das coxas)
- Fraqueza nas pernas que surgiu agora ou piora rapidamente
- Dor que passa a atingir as duas pernas
Em caso de emergência, ligue SAMU 192 ou vá ao pronto-socorro mais próximo. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação com nossa equipe.
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Agendar avaliaçãoReferências científicas
- Beutler WJ, Fredrickson BE, Murtland A, Sweeney CA, Grant WD, Baker D. "The natural history of spondylolysis and spondylolisthesis: 45-year follow-up evaluation." Spine. 2003;28(10):1027-1035. Spine
- van den Heuvel MM, Oei EHG, Bierma-Zeinstra SMA, van Middelkoop M. "The Prevalence of Abnormalities in the Pediatric Spine on MRI: A Systematic Review and Meta-Analysis." Spine. 2020;45(18):E1185-E1196. Spine
- Crawford CH 3rd, Larson AN, Gates M, et al. "Current Evidence Regarding the Treatment of Pediatric Lumbar Spondylolisthesis: A Report From the Scoliosis Research Society Evidence Based Medicine Committee." Spine Deform. 2017;5(5):284-302. Spine Deformity
- Grazina R, Andrade R, Santos FL, et al. "Return to play after conservative and surgical treatment in athletes with spondylolysis: A systematic review." Phys Ther Sport. 2019;37:34-43. Physical Therapy in Sport
- Wang YXJ, Káplár Z, Deng M, Leung JCS. "Lumbar degenerative spondylolisthesis epidemiology: A systematic review with a focus on gender-specific and age-specific prevalence." J Orthop Translat. 2017;11:39-52. J Orthop Translat
- Kalichman L, Hunter DJ. "Diagnosis and conservative management of degenerative lumbar spondylolisthesis." Eur Spine J. 2008;17(3):327-335. Eur Spine J
- Weinstein JN, Lurie JD, Tosteson TD, et al. "Surgical versus nonsurgical treatment for lumbar degenerative spondylolisthesis." N Engl J Med. 2007;356(22):2257-2270. Estudo SPORT. NEJM
- Fernandez M, Ferreira ML, Refshauge KM, et al. "Surgery or physical activity in the management of sciatica: a systematic review and meta-analysis." Eur Spine J. 2016;25(11):3495-3512. Eur Spine J
- Ghogawala Z, Dziura J, Butler WE, et al. "Laminectomy plus Fusion versus Laminectomy Alone for Lumbar Spondylolisthesis." N Engl J Med. 2016;374(15):1424-1434. Estudo SLIP. NEJM
- Austevoll IM, Hermansen E, Fagerland MW, et al. "Decompression with or without Fusion in Degenerative Lumbar Spondylolisthesis." N Engl J Med. 2021;385(6):526-538. Estudo NORDSTEN-DS. NEJM
- Kgomotso EL, Hellum C, Fagerland MW, et al. "Decompression alone or with fusion for degenerative lumbar spondylolisthesis (Nordsten-DS): five year follow-up of a randomised, multicentre, non-inferiority trial." BMJ. 2024;386:e079771. BMJ
- Todd NV, Kearsley N, Wright-Todd A. "Assessment of cauda equina syndrome: new national guidelines and implications for primary care." Br J Gen Pract. 2025;75(757):381-383. BJGP
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. O grau do escorregamento visto na imagem não define sozinho o tratamento — o exame clínico e os sintomas é que orientam a conduta.