O que é
Entre cada duas vértebras do pescoço existe um disco intervertebral, que funciona como amortecedor. Quando parte do núcleo desse disco se desloca para fora, pode comprimir uma raiz nervosa que sai da coluna em direção ao braço. O resultado é a radiculopatia cervical: dor que irradia do pescoço para o ombro, braço ou mão, muitas vezes acompanhada de formigamento, dormência ou fraqueza.
Uma distinção importante, e que quase nunca aparece no laudo: nem toda radiculopatia cervical é causada por hérnia de disco. Grande parte dos casos vem da degeneração óssea e articular (espondilose), ou de uma combinação dos dois.
Quão comum é
Um estudo populacional de Rochester (EUA) identificou, pelos registros da Mayo Clinic, 561 pessoas com radiculopatia cervical entre 1976 e 1990. A idade média foi de cerca de 48 anos, e a raiz mais acometida foi a C7, seguida da C6. A incidência anual ajustada por idade foi de 83,2 casos por 100 mil habitantes, com pico de 202,9 por 100 mil entre 50 e 54 anos.
Nesse mesmo estudo, uma hérnia de disco confirmada foi responsável por apenas 21,9% dos casos — 68,4% estavam relacionados a espondilose, a disco, ou a ambos. É mais um motivo para não tratar o laudo isolado: o que define a conduta é o exame clínico somado à imagem, não a imagem sozinha.
O dado mais tranquilizador vem do seguimento desses pacientes, com mediana de 4,9 anos: 90% estavam assintomáticos ou apenas levemente limitados ao final. A recidiva ocorreu em 31,7%, e 26% foram operados em algum momento. Limites: é um estudo de registros de uma única região, da era anterior à ressonância magnética de rotina, e o resultado de 90% inclui quem foi operado, então não separa o efeito de cada tratamento.
O que costuma desencadear
Ao contrário do que a maioria imagina, raramente há um "trauma" identificável. No estudo de Rochester, apenas 14,8% dos pacientes relataram esforço físico ou trauma antes do início dos sintomas. Além disso, 41% tinham história prévia de radiculopatia lombar. Como o estudo não tinha grupo de comparação, ele não permite dizer que quem já teve ciática tenha mais chance de desenvolver o quadro cervical.
Sintomas e diagnóstico
- Dor no pescoço que irradia para o ombro, o braço, o antebraço ou os dedos
- Formigamento ou dormência seguindo o trajeto do nervo
- Perda de força em movimentos específicos (depende da raiz comprometida)
A radiculopatia cervical é, em grande parte, um diagnóstico clínico, feito pela história e pelo exame físico. Em um estudo com 82 pacientes, um conjunto de quatro achados do exame foi mais útil para indicar radiculopatia do que qualquer teste isolado, mas os intervalos de confiança foram largos, e os próprios autores pedem validação em outras amostras.
Fonte: Wainner RS, et al. Spine. 2003;28(1):52-62.Precisa de cirurgia?
No estudo de Rochester, 26% foram operados em algum momento do seguimento, ou seja, a maior parte não foi. E há um ensaio randomizado que ajuda a entender o tamanho do benefício de cada conduta nas primeiras semanas.
Um ensaio clínico randomizado holandês com 205 pacientes com radiculopatia cervical de início recente (menos de 1 mês) comparou três condutas: colar cervical semirrígido com repouso, 12 sessões de fisioterapia com exercícios em casa, ou simplesmente manter as atividades normais sem tratamento específico.
No grupo sem tratamento específico, a dor no braço caiu 19 mm na escala de 100 mm ao longo de seis semanas — ou seja, melhorou sozinha. O colar e a fisioterapia produziram uma redução adicional de cerca de 12 mm em relação a esse grupo no mesmo período. Para a dor no pescoço, o grupo sem tratamento específico não teve melhora significativa nas primeiras seis semanas, enquanto o colar reduziu 17 mm e a fisioterapia, 14 mm.
A leitura prática: boa parte da melhora inicial acontece com o tempo, e colar ou fisioterapia trouxeram uma melhora adicional da dor nessas seis primeiras semanas. Limites: a análise principal cobre apenas as seis primeiras semanas, e colar ou fisioterapia são difíceis de "cegar", então a expectativa do paciente pode ter influenciado a dor referida. Nenhuma das condutas envolve cirurgia.
Fonte: Kuijper B, et al. BMJ. 2009;339:b3883.Cirurgia x fisioterapia: o que acontece a longo prazo
Um grupo sueco randomizou pacientes com radiculopatia cervical entre cirurgia (descompressão e artrodese cervical anterior) somada a um programa estruturado de fisioterapia e o mesmo programa de fisioterapia isolado. O ensaio é pequeno: 63 pacientes no início (31 operados e 32 só com fisioterapia) e 59 no seguimento de 5 a 8 anos.
No primeiro ano, o grupo operado melhorou mais rápido: 87% classificaram seus sintomas como "melhor" ou "muito melhor" aos 12 meses, contra 62% no grupo de fisioterapia. Aos 24 meses, a diferença já não era significativa (81% contra 69%), e a dor no braço não diferiu entre os grupos.
No seguimento de 5 a 8 anos, o grupo operado teve melhor resultado em parte dos desfechos: a incapacidade cervical (NDI) reduziu 21% contra 11% no grupo não operado, e a dor no pescoço caiu 39 mm contra 19 mm. Na dor no braço, porém, a diferença não foi estatisticamente significativa (33 mm contra 19 mm), nem na qualidade de vida (EQ-5D). Na avaliação do próprio paciente, 93% dos operados classificaram seus sintomas como "melhor" ou "muito melhor", contra 62% no grupo de fisioterapia isolada.
O ponto honesto é que os dois grupos melhoraram de forma significativa em relação ao início. A cirurgia não é o que separa "melhorar" de "não melhorar": ela pode mudar o grau e a velocidade da melhora, principalmente na dor no pescoço. Como a amostra é pequena, a decisão é individual. Os autores do primeiro relato concluíram que a fisioterapia estruturada deve ser tentada antes de se escolher a cirurgia.
Fontes: Engquist M, et al. Spine. 2013;38(20):1715-1722 · Engquist M, et al. J Neurosurg Spine. 2017;26(1):19-27.A hérnia pode diminuir sozinha?
Pode. Um estudo retrospectivo acompanhou com ressonâncias repetidas 38 pacientes com hérnia de disco cervical e observou redução do volume da hérnia em 15 deles (40%). A redução foi mais frequente nas hérnias que migram ou que ficam lateralmente, e em quem foi examinado mais cedo após o início dos sintomas. Os autores consideram provável uma reabsorção ativa do material herniado, mas não descartam que parte do que parecia hérnia fosse sangramento. É um estudo pequeno e retrospectivo, que não prova que toda hérnia diminua.
Fonte: Mochida K, et al. Spine. 1998;23(9):990-995.Quando a cirurgia é considerada
Os estudos citados aqui apontam três pontos. No estudo de Rochester, a combinação de dor irradiada com perda de sensibilidade e fraqueza muscular objetiva foi o que mais se associou à decisão de operar. No ensaio sueco, os autores recomendam tentar antes a fisioterapia estruturada. E, quando há suspeita de compressão da medula (mielopatia, veja o alerta abaixo), a revisão do BMJ orienta encaminhar sem demora a um especialista para considerar cirurgia, porque o atraso no diagnóstico pode deixar sequelas.
Não há, nos estudos que conferimos, um critério único e numérico para operar. Por isso, a decisão depende do exame, da imagem, da evolução e da conversa entre paciente e cirurgião.
Fontes: Radhakrishnan K, et al. Brain. 1994;117(Pt 2):325-335 · Engquist M, et al. Spine. 2013;38(20):1715-1722 · Davies BM, et al. BMJ. 2018;360:k186.⚠️ Sinal de alerta: mielopatia cervical
- Perda de destreza nas mãos — dificuldade para abotoar camisa, escrever, pegar moedas
- Alteração do equilíbrio ou da marcha, com sensação de andar "inseguro"
- Formigamento ou dormência nas duas mãos ao mesmo tempo
- Alteração do controle da urina
- Piora progressiva da força nas pernas
- Fraqueza no braço ou na mão que piora rapidamente
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Agendar avaliaçãoReferências científicas
- Radhakrishnan K, Litchy WJ, O'Fallon WM, Kurland LT. "Epidemiology of cervical radiculopathy. A population-based study from Rochester, Minnesota, 1976 through 1990." Brain. 1994;117(Pt 2):325-335. Brain
- Wainner RS, Fritz JM, Irrgang JJ, et al. "Reliability and diagnostic accuracy of the clinical examination and patient self-report measures for cervical radiculopathy." Spine (Phila Pa 1976). 2003;28(1):52-62. Spine
- Kuijper B, Tans JT, Beelen A, Nollet F, de Visser M. "Cervical collar or physiotherapy versus wait and see policy for recent onset cervical radiculopathy: randomised trial." BMJ. 2009;339:b3883. BMJ
- Engquist M, Löfgren H, Öberg B, et al. "Surgery versus nonsurgical treatment of cervical radiculopathy: a prospective, randomized study comparing surgery plus physiotherapy with physiotherapy alone with a 2-year follow-up." Spine (Phila Pa 1976). 2013;38(20):1715-1722. Spine
- Engquist M, Löfgren H, Öberg B, et al. "A 5- to 8-year randomized study on the treatment of cervical radiculopathy: anterior cervical decompression and fusion plus physiotherapy versus physiotherapy alone." J Neurosurg Spine. 2017;26(1):19-27. J Neurosurg Spine
- Mochida K, Komori H, Okawa A, et al. "Regression of cervical disc herniation observed on magnetic resonance images." Spine (Phila Pa 1976). 1998;23(9):990-995. Spine
- Davies BM, Mowforth OD, Smith EK, Kotter MR. "Degenerative cervical myelopathy." BMJ. 2018;360:k186. BMJ
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Cada caso de hérnia de disco cervical é único — o diagnóstico e o plano de tratamento corretos dependem de exame clínico e, quando indicado, de exames de imagem.