Ilustração 3D anatômica do impacto femoroacetabular (FAI): vista frontal e lateral do quadril mostrando ilíaco, acetábulo, cabeça do fêmur, colo do fêmur, lábio acetabular e zona de impacto em vermelho-alaranjado
Vista frontal e lateral do quadril — zona de impacto (laranja) entre o colo femoral e a borda acetabular, com lábio acetabular em risco

O que é

A síndrome do impacto femoroacetabular (FAI, do inglês femoroacetabular impingement) ocorre quando há contato anormal entre a cabeça do fêmur e a borda do acetábulo (a "cavidade" da bacia onde o fêmur se encaixa), causando dor e limitação de movimento. Existem dois tipos de formato ósseo:

Num estudo com 89 homens e 111 mulheres sem queixas de quadril, avaliados por ressonância, a morfologia cam foi encontrada em 24,7% dos homens e em 5,4% das mulheres.

Sintomas e diagnóstico

O diagnóstico exige sintomas + sinais no exame físico + achados de imagem, e não a imagem isolada: o consenso internacional de Warwick (2016) estabeleceu que o paciente deve ter os três. Isso porque o formato ósseo do FAI é comum em quem não tem dor (veja a Evidência 2 abaixo). Os elementos usados são:

Evidência 1 — fisioterapia ou cirurgia? Os ensaios mostram vantagem pequena a moderada da cirurgia em 8 a 12 meses, com ressalvas

UK FASHIoN (Reino Unido). 348 pacientes com FAI e sem artrose foram sorteados para artroscopia do quadril ou para fisioterapia personalizada (programa individualizado, supervisionado e progressivo). Aos 12 meses, o escore iHOT-33 subiu de 39,2 para 58,8 na cirurgia e de 35,6 para 49,7 na fisioterapia; a diferença ajustada foi de 6,8 pontos (IC 95% de 1,7 a 12,0) a favor da cirurgia, acima do limite de 6,1 pontos considerado clinicamente importante. Ambos os grupos melhoraram. Houve 7 eventos adversos graves relatados pelos hospitais, 6 deles no grupo da cirurgia.

FAIT (Inglaterra). 222 pacientes de 18 a 60 anos receberam artroscopia ou fisioterapia com modificação de atividades (programa individualizado, com ênfase em estabilidade do tronco e controle do movimento, em no máximo 8 sessões ao longo de 5 meses). Aos 8 meses, o escore HOS ADL foi 10,0 pontos maior na cirurgia (IC 95% de 6,4 a 13,6), valor acima da diferença mínima de 9 pontos definida pelos autores. No acompanhamento de cerca de 3 anos, a diferença se manteve (8,9 pontos; IC 95% de 7,0 a 10,8), sem diferença na medida radiográfica de artrose (que só estava disponível para 45% dos participantes).

Ensaio militar americano (Mansell). 80 pacientes, em um único hospital. Aos 2 anos, a diferença entre cirurgia e fisioterapia não foi significativa (HOS atividades diárias: 3,8 pontos; IC 95% de −6,0 a 13,6); 28 pacientes do grupo da fisioterapia acabaram operados, e um terço dos militares não estava apto para o serviço aos 2 anos.

Juntando os três. Uma metanálise dos três ensaios (650 pacientes, seguimento médio de 11,5 meses) concluiu que a artroscopia teve resultados superiores à fisioterapia isolada no curto prazo. Em um dos ensaios, 51% do grupo operado e 32% do grupo da fisioterapia atingiram a diferença mínima clinicamente importante.

O que isso quer dizer: em pacientes encaminhados a centros especializados, e que aceitaram ser sorteados, a cirurgia deu melhora um pouco maior em 1 ano; ainda assim, a fisioterapia também melhorou os pacientes, e o consenso de Warwick lista tratamento conservador, reabilitação e cirurgia como opções adequadas. O resultado a longo prazo (além de 3 anos) e o efeito da cirurgia sobre a artrose ainda não estão definidos, e parte dos pacientes dos grupos de fisioterapia acabou operada. A escolha deve ser conversada com o paciente, levando em conta intensidade dos sintomas, objetivos esportivos e preferência.

Fonte: Griffin DR, et al. Lancet. 2018;391(10136):2225-2235 (doi:10.1016/S0140-6736(18)31202-9) · Palmer AJR, et al. BMJ. 2019;364:l185 (doi:10.1136/bmj.l185) · Palmer A, et al. Br J Sports Med. 2025;59(2):109-117 (doi:10.1136/bjsports-2023-107712) · Mansell NS, et al. Am J Sports Med. 2018;46(6):1306-1314 (doi:10.1177/0363546517751912) · Dwyer T, et al. Arthroscopy. 2020;36(1):263-273 (doi:10.1016/j.arthro.2019.07.025).
Evidência 2 — o formato ósseo do FAI é comum em pessoas sem dor

Em 200 voluntários sem sintomas (idade média de 29,4 anos), avaliados por ressonância, 14% tinham morfologia cam em pelo menos um quadril (24,7% dos homens e 5,4% das mulheres). Uma revisão sistemática de 26 estudos, com 2.114 quadris sem sintomas, estimou prevalência de cam de 37% (variação entre estudos de 7% a 100%), sendo 54,8% em atletas e 23,1% na população geral. A deformidade tipo pincer foi encontrada em 67% dos quadris assintomáticos, embora os autores apontem que sua definição varia muito entre os estudos, e lesão do lábio apareceu em 68,1% dos quadris em que foi avaliada.

Portanto, achar "cam" ou "pincer" no laudo não basta para diagnosticar FAI, e a indicação de cirurgia não deve se basear só na imagem. Os números variam muito conforme o estudo, o método de medida e a população.

Fonte: Hack K, et al. J Bone Joint Surg Am. 2010;92(14):2436-2444 (doi:10.2106/JBJS.J.01280) · Frank JM, et al. Arthroscopy. 2015;31(6):1199-1204 (doi:10.1016/j.arthro.2014.11.042) · Griffin DR, et al. Br J Sports Med. 2016;50(19):1169-1176 (doi:10.1136/bjsports-2016-096743).

Tratamento sem cirurgia (fisioterapia para FAI)

Nos ensaios, a fisioterapia não seguiu um único protocolo, mas teve pontos em comum: era individualizada, supervisionada e progressiva (UK FASHIoN), com ênfase em estabilidade do tronco e controle do movimento e modificação de atividades (FAIT, no máximo 8 sessões em 5 meses) ou em 12 sessões supervisionadas (Mansell). Como não há um programa único comprovado como o melhor, o fisioterapeuta monta o plano de acordo com o seu caso.

Quando a cirurgia pode ser discutida

Com base nos ensaios acima e no consenso de Warwick, que inclui a cirurgia artroscópica ou aberta entre os tratamentos adequados, a cirurgia costuma ser discutida quando:

Os ensaios não definiram por quanto tempo a reabilitação deve ser tentada antes da cirurgia.

⚠️ Quando buscar avaliação médica

Procure avaliação se houver:
  • Dor intensa na virilha após trauma — excluir fratura do colo do fêmur
  • Travamento ou ressalto mecânico no quadril — possível corpo livre ou ruptura de lábio
  • Limitação progressiva de amplitude de movimento com deterioração rápida

Fale com a ou agende uma avaliação.

Dor na virilha ao agachar ou pedalar?

Uma avaliação ortopédica com correlação clínica e radiológica define se é FAI e quais são as opções de tratamento para o seu caso.

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Vídeo sobre o tema

Impacto femoroacetabular

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.