O que é dorsiflexão e por que importa
A dorsiflexão é o movimento do tornozelo que aproxima a ponta do pé da tíbia — acontece quando você agacha, sobe uma escada, corre ou simplesmente caminha. Ela é medida de forma funcional pelo teste de afundo com carga (Weight-Bearing Lunge Test, WBLT): com o calcanhar no chão, o joelho avança em direção à parede, e se mede a distância da ponta do pé à parede (em centímetros) ou o ângulo da tíbia (em graus, com um inclinômetro).
Uma revisão sistemática de 12 estudos concluiu que o WBLT tem boa confiabilidade e que a diferença mínima detectável é de cerca de 1,6 a 1,9 cm (4,6 a 4,7°): variações menores que isso podem ser apenas erro de medida. Não existe um valor de corte universal validado para "normal". Os autores de um comentário clínico de 2025 sugerem, a partir da experiência deles (opinião de especialistas, não um limite testado), valores acima de 9 a 10 cm (ou acima de 40 a 42°), e consideram clinicamente relevante uma diferença entre os lados maior que 1,5 cm ou 4,7°.
Quando a dorsiflexão está reduzida, o corpo pode se mover de outro jeito. Uma revisão sistemática de 6 estudos concluiu que a restrição de dorsiflexão parece alterar a mecânica da aterrissagem de forma que pode predispor a lesões, mas os estudos discordam sobre quais variáveis mudam. A seguir, o que os estudos associam à restrição — e o que eles não conseguem provar.
Fontes: Powden CJ, et al. Man Ther. 2015;20(4):524-532 · Tourillon R, et al. Front Sports Act Living. 2025;7:1677383 · Mason-Mackay AR, et al. J Sci Med Sport. 2017;20(5):451-458.O comentário clínico de Tourillon e colaboradores (Frontiers in Sports and Active Living, 2025) propõe um roteiro de 3 passos que parte do WBLT: (1) medir a amplitude e anotar onde o paciente sente dor ou "bloqueio" durante o teste; (2) fazer testes confirmatórios para identificar a articulação ou o tecido envolvido; (3) escolher intervenções direcionadas ao que foi encontrado, em vez de um protocolo igual para todos. Os autores relacionam a localização do sintoma às estruturas que podem estar limitando o movimento:
- Frente do tornozelo: articulação do tornozelo (talocrural) ou articulações do mediopé; é a limitação mais comum segundo os autores
- Frente e lado de fora: articulação entre a tíbia e a fíbula (sindesmose) ou impacto anterolateral, que exige integrar história, sintomas e exames de imagem
- Atrás do osso de dentro (maléolo medial): tendão do flexor longo do hálux ou articulação subtalar
- Atrás do osso de fora (maléolo lateral): tendões fibulares ou articulação tibiofibular
- Parte de trás: encurtamento da panturrilha (tríceps sural) ou sensibilidade mecânica do nervo tibial
Limitação importante: é um artigo de opinião de especialistas (practice commentary), não um estudo. Os próprios autores avisam que não há estudos de intervenção mostrando que esse sistema produz ganho de dorsiflexão maior do que um protocolo único para todos.
Fonte: Tourillon R, M'Baye M, Smith M. "Restoring Ankle Dorsiflexion Range of Motion in Athletes: An Individualized Clinical Decision-Making System." Front Sports Act Living. 2025;7:1677383.- Fascite plantar: num estudo caso-controle com 50 pacientes, cada um pareado com 2 controles, o risco aumentou à medida que a dorsiflexão diminuía; quem tinha 0° ou menos teve razão de chances de 23,3 (intervalo de confiança de 95%: 4,3 a 124,4) em comparação com quem tinha mais de 10°. O intervalo é muito amplo, o que mostra incerteza grande.
- Tendinopatia do Aquiles: em 70 recrutas militares acompanhados por 6 meses, só 5 desenvolveram a doença; os que adoeceram tinham dorsiflexão menor (medida sem carga, com o joelho dobrado). Amostra muito pequena, só homens jovens.
- Lesões do tornozelo em crianças: num estudo com 82 crianças com entorse ou fratura do tornozelo e 85 controles, a dorsiflexão média foi menor nas lesionadas (5,7° contra 12,8°, com o joelho esticado). Foi medida depois da lesão e em crianças; não prova que a rigidez veio antes.
- Dor patelofemoral (dor na frente do joelho): em 30 pessoas saudáveis, quem tinha menos dorsiflexão apresentou padrão de movimento do quadril e do joelho (maior adução do quadril e rotação externa do joelho no degrau) já associado a problemas do joelho; um estudo caso-controle com 70 pacientes e 70 controles encontrou dorsiflexão menor em quem tinha dor patelofemoral. São associações, e não está provado que uma cause a outra.
E a entorse de tornozelo? Embora seja comum ler que dorsiflexão reduzida aumenta o risco de entorse, uma meta-análise de fatores de risco intrínsecos da entorse lateral (8 artigos) apontou índice de massa corporal, força, sentido de posição articular e tempo de reação do fibular curto, mas não a dorsiflexão. A evidência, nesse caso, é inconsistente, e não há base para citar um aumento de risco em número.
A restrição de dorsiflexão raramente é a única explicação para a dor; ela costuma ser um dos fatores avaliados junto com força, controle do movimento e carga de atividade.
Fontes: Riddle DL, et al. J Bone Joint Surg Am. 2003;85(5):872-877 · Rabin A, et al. J Foot Ankle Res. 2014;7(1):48 · Tabrizi P, et al. J Bone Joint Surg Br. 2000;82(8):1103-1106 · Rabin A, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2016;46(11):1002-1009 · Hassan KA, et al. Foot Ankle Surg. 2022;28(8):1427-1432 · Kobayashi T, et al. Sports Health. 2016;8(2):190-193.Como avaliar: o Weight-Bearing Lunge Test (WBLT)
O WBLT é um teste simples para medir a dorsiflexão com o peso do corpo, o que se aproxima da situação real de uso. Para a medida ser confiável, o comentário de 2025 sugere padronizar a técnica:
- Paciente em posição de passo (um pé à frente do outro), com o peso sobre a perna testada e o calcanhar do pé de trás levantado, para não interferir na medida
- Avançar o joelho em direção à parede sem levantar o calcanhar do pé testado, mantendo o joelho alinhado com os dedos (sem deixar o joelho cair para dentro)
- Registrar a maior distância da ponta do pé à parede com que o joelho ainda encosta nela, ou o ângulo da tíbia com um inclinômetro (pode ser um aplicativo de celular)
- Comparar sempre com o lado contralateral: uma diferença maior que cerca de 1,5 cm (ou 4,7°) está acima do erro da medida
Principais causas de restrição
Segundo o comentário de 2025, a restrição não vem de uma causa única, e identificar a estrutura limitante muda o tratamento. As fontes possíveis incluem:
- Articulações: tornozelo (talocrural), mediopé, subtalar e articulação entre tíbia e fíbula — por exemplo, depois de uma entorse, de cirurgia ou de imobilização
- Músculos e tendões: panturrilha (tríceps sural), flexor longo do hálux e tendões fibulares
- Nervo: sensibilidade mecânica do nervo tibial, quando a dor ou o bloqueio é na parte de trás
- Impacto na frente do tornozelo: a dor na frente e no lado de fora pode envolver sindesmose ou impacto anterolateral, e diferenciá-los exige integrar história, sintomas e exames de imagem
O que a evidência diz sobre o tratamento
- Alongamento da panturrilha: uma revisão de 5 ensaios concluiu que o alongamento estático da panturrilha aumenta a dorsiflexão de forma pequena (cerca de 2 a 3° em média), e que não está claro se essa mudança tem importância clínica. Uma meta-análise de 20 estudos em pessoas saudáveis encontrou ganho médio de 5,17° com alongamento estático e 4,32° com a técnica de facilitação neuromuscular proprioceptiva (PNF), sem resultado positivo para o alongamento balístico (com balanço).
- Mobilização articular (terapia manual): em pessoas com instabilidade crônica do tornozelo, uma meta-análise de 10 estudos encontrou evidência de que a mobilização melhora a dorsiflexão de forma leve, e outra, de 9 ensaios com 364 pessoas, encontrou melhora da dorsiflexão e do equilíbrio dinâmico, mas não da função relatada pelo paciente. Os efeitos de longo prazo são pouco conhecidos.
- Protocolos específicos: os autores do comentário de 2025 recomendam alongamento por mais de 2 semanas, com pelo menos 1.200 segundos por semana de tempo total sob alongamento e mínimo de 5 semanas de protocolo. É uma recomendação de especialistas baseada em estudos de apoio, e não um protocolo validado em ensaio específico para esse fim.
Na prática, o fisioterapeuta combina essas estratégias de acordo com a estrutura limitante e depois reintroduz carga em amplitude maior (agachar, subir degraus, exercícios do esporte). O objetivo não é só "mais alongamento": é que o tornozelo tolere carga na amplitude conquistada. Essa última etapa é prática comum, mas não foi testada isoladamente nos estudos que li.
⚠️ Quando buscar avaliação
- Dor intensa no tornozelo ao tentar a dorsiflexão — pode indicar impacto na articulação (não force) e pode exigir exame de imagem
- Assimetria súbita sem causa aparente após trauma — avaliar lesão ligamentar residual ou fratura
- Inchaço articular persistente no tornozelo — descartar artrite ou lesão osteocondral
Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.
Sente dificuldade para agachar fundo ou percebe que um tornozelo "prende"?
Uma avaliação funcional identifica se há restrição de dorsiflexão e qual é a sua causa — a intervenção correta depende da estrutura envolvida.
Agendar avaliaçãoReferências científicas
- Tourillon R, M'Baye M, Smith M. "Restoring Ankle Dorsiflexion Range of Motion in Athletes: An Individualized Clinical Decision-Making System." Front Sports Act Living. 2025;7:1677383. Frontiers
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- Riddle DL, Pulisic M, Pidcoe P, Johnson RE. "Risk factors for Plantar fasciitis: a matched case-control study." J Bone Joint Surg Am. 2003;85(5):872-877. JBJS
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Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.