O que é o manguito rotador
O manguito rotador é um conjunto de 4 músculos e seus tendões que envolvem a articulação do ombro: supraespinhoso, infraespinhoso, redondo menor e subescapular. Eles participam da rotação do ombro, da estabilização da cabeça do úmero na cavidade da articulação e da força nos movimentos acima da cabeça. A tendinopatia (alteração degenerativa do tendão) e a ruptura (parcial ou total) do manguito estão entre as causas de dor no ombro.
Em um rastreamento por ultrassom de 664 moradores de uma vila no Japão, 22,1% tinham ruptura de espessura total do manguito. A frequência subiu com a idade: 0% dos 20 aos 40 anos, 10,7% nos 50, 15,2% nos 60, 26,5% nos 70 e 36,6% nos 80. As rupturas sem sintoma foram 65,3% do total, e os autores concluem que a ruptura assintomática foi cerca de duas vezes mais comum do que a sintomática. Em outro estudo japonês de base populacional (683 pessoas), 36% dos que tinham sintomas e 16,9% dos que não tinham apresentavam ruptura.
Uma revisão de 30 estudos (6.112 ombros) encontrou alteração do manguito em 9,7% das pessoas de até 20 anos e em 62% das de 80 anos ou mais, com aumento parecido em quem tinha e em quem não tinha sintomas. Os autores consideram a degeneração do manguito um achado comum do envelhecimento normal, o que dificulta saber se uma alteração na imagem é a causa da dor.
Outros dois estudos pequenos em pessoas sem dor reforçam o ponto. Em ressonância de 96 pessoas sem sintomas, 34% tinham ruptura do manguito (15% de espessura total e 20% parcial), e, entre as 46 com mais de 60 anos, 54% tinham ruptura. Em ultrassom de 51 homens de 40 a 70 anos sem sintomas, 96% tinham alguma alteração, e 22% tinham ruptura parcial do supraespinhoso. Esses achados são incidentais: sozinhos, não dizem que são a causa da dor.
Limitações: são estudos transversais, alguns pequenos e de uma única população; mostram frequência de achados, não o que acontece com cada pessoa ao longo do tempo.
Fontes: Minagawa H, et al. J Orthop. 2013;10(1):8–12 · Yamamoto A, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2010;19(1):116–120 · Teunis T, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2014;23(12):1913–1921 · Sher JS, et al. J Bone Joint Surg Am. 1995;77(1):10–15 · Girish G, et al. AJR Am J Roentgenol. 2011;197(4):W713–W719.Num estudo observacional prospectivo com 64 pessoas com tendinopatia do manguito que fizeram 8 semanas de exercícios de resistência (Mears et al., JOSPT, 2026), houve relação entre a redução do medo relacionado à dor e da catastrofização e a redução da incapacidade do ombro. Quem ficou insatisfeito com o tratamento ao fim de 8 semanas tinha mais medo e catastrofização do que quem ficou satisfeito (por exemplo, no questionário de crenças de medo e evitação ligadas ao trabalho, os insatisfeitos subiram 0,63 ponto e os satisfeitos caíram 3,5 pontos).
Limitações: é associação, não prova que reduzir o medo cause a melhora; não houve grupo comparativo; e a amostra é pequena. Por isso, o estudo sugere que vale conversar com o paciente sobre o que o laudo significa e acompanhar medo e crenças, mas não demonstra que uma intervenção específica para o medo melhore o resultado.
Fonte: Mears CK, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2026;56(8):546–554.Tratamento sem cirurgia
Para a tendinopatia do manguito, o tratamento sem cirurgia é o ponto de partida recomendado por uma diretriz holandesa, que cita exercícios específicos de baixa intensidade e alta frequência, infiltração subacromial de corticoide para sintomas persistentes ou recorrentes e que não recomenda imobilização estrita. A evidência dos ensaios, porém, é mais fraca do que a prática sugere:
- Uma revisão de 2012 (4 estudos randomizados, todos de baixo risco de viés) concluiu que a literatura apoia o uso de exercícios com carga para dor e incapacidade, mas com cautela, por falta de grupos sem intervenção, de cegamento e pela escassez de pesquisas.
- Uma metanálise de 2020 (7 ensaios, 468 participantes) comparou exercícios com placebo ou nenhum tratamento: para exercício progressivo e com resistência, o benefício clínico foi incerto (diferença de 15 pontos em 100 em dor e função combinadas; IC 95% 9 a 21), e para exercício sem progressão ou sem resistência não houve benefício significativo. Os autores classificam a certeza como baixa.
- Uma revisão Cochrane de 60 ensaios achou um único estudo (120 pessoas) com terapia manual e exercício contra placebo, sem diferença clinicamente importante em 22 semanas; contra infiltração de corticoide e contra descompressão cirúrgica, os efeitos foram semelhantes, mas com evidência de baixa qualidade.
- Uma revisão de exercício em doses maiores contra menores (3 ensaios, 283 participantes) encontrou evidência de certeza baixa a muito baixa e conflitante sobre se mais carga ou mais volume é melhor.
Em resumo: exercício é seguro e é a primeira escolha das diretrizes, mas os estudos não permitem afirmar que um tipo ou uma dose de exercício seja superior, nem que o exercício vença o placebo com folga.
Fontes: Diercks R, et al. Acta Orthop. 2014;85(3):314–322 · Littlewood C, et al. Physiotherapy. 2012;98(2):101–109 · Naunton J, et al. Clin Rehabil. 2020;34(9):1198–1216 · Page MJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(6):CD012224 · Malliaras P, et al. Arch Phys Med Rehabil. 2020;101(10):1822–1834.Quando considerar cirurgia
Dois ensaios com cirurgia placebo não mostraram vantagem da descompressão subacromial artroscópica (retirada de osso e tecido sob o acrômio) para dor subacromial:
- No ensaio britânico CSAW (313 pacientes com dor subacromial há pelo menos 3 meses e tendões íntegros), a pontuação do Oxford Shoulder Score em 6 meses foi de 32,7 com descompressão e 34,2 com artroscopia apenas (placebo), sem diferença (−1,3; IC 95% −3,9 a 1,3). Ambos os grupos cirúrgicos ficaram um pouco melhor do que o grupo sem tratamento, mas a diferença não foi clinicamente importante.
- No ensaio finlandês FIMPACT (210 pacientes), a descompressão não deu benefício sobre a artroscopia diagnóstica em 24 meses.
Uma revisão Cochrane de 8 ensaios (1.062 participantes) reuniu esses dados e concluiu, com certeza alta, que a descompressão não melhora dor, função nem qualidade de vida em relação ao placebo cirúrgico.
Para rupturas de espessura total, outra revisão Cochrane (9 ensaios, 1.007 participantes) concluiu que ainda há incerteza sobre o benefício do reparo, que pode trazer pouca ou nenhuma melhora importante em relação ao tratamento sem cirurgia; os estudos incluíram sobretudo rupturas pequenas e degenerativas do supraespinhoso e, segundo os autores, podem não valer para rupturas traumáticas, grandes, do subescapular ou em jovens. A diretriz holandesa atualizada sugere, para ruptura isolada, sintomática e não traumática do supraespinhoso, começar por exercícios (com infiltração, se necessário) e considerar o reparo se não houver melhora em 3 a 6 meses. Rupturas agudas após trauma e rupturas grandes precisam de avaliação ortopédica individual, já que a evidência acima não cobre bem esses casos.
Fontes: Beard DJ, et al. Lancet. 2018;391(10118):329–338 · Paavola M, et al. BMJ. 2018;362:k2860 · Karjalainen TV, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2019;1(1):CD005619 · Karjalainen TV, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2019;12(12):CD013502 · Lambers Heerspink FO, et al. Acta Orthop. 2026;97:99–104.⚠️ Quando buscar avaliação médica
- Impossibilidade de levantar o braço acima de 90° após trauma (possível ruptura aguda)
- Fraqueza súbita na rotação do ombro — sinal de ruptura completa
- Dor severa noturna que não responde a analgésicos comuns
- Dor que irradia pelo braço com formigamento — considerar compressão nervosa cervical
Em caso de emergência, ligue SAMU 192. Fora de uma emergência, fale com a ou agende uma avaliação.
Dor no ombro ou resultado de ressonância com "lesão do manguito"?
Uma avaliação ortopédica distingue achados incidentais de lesões clinicamente relevantes e define o melhor caminho — exercício, injeção ou cirurgia.
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Referências científicas
- Beard DJ, et al. "Arthroscopic subacromial decompression for subacromial shoulder pain (CSAW): a multicentre, pragmatic, parallel group, placebo-controlled, three-group, randomised surgical trial." Lancet. 2018;391(10118):329–338. Lancet
- Diercks R, et al. "Guideline for diagnosis and treatment of subacromial pain syndrome: a multidisciplinary review by the Dutch Orthopaedic Association." Acta Orthop. 2014;85(3):314–322. Acta Orthop
- Girish G, et al. "Ultrasound of the shoulder: asymptomatic findings in men." AJR Am J Roentgenol. 2011;197(4):W713–W719. AJR
- Karjalainen TV, et al. "Subacromial decompression surgery for rotator cuff disease." Cochrane Database Syst Rev. 2019;1(1):CD005619. Cochrane
- Karjalainen TV, et al. "Surgery for rotator cuff tears." Cochrane Database Syst Rev. 2019;12(12):CD013502. Cochrane
- Lambers Heerspink FO, et al. "Update of guideline for diagnosis and treatment of subacromial pain syndrome: a multidisciplinary review by the Dutch Orthopedic Association. Part 2: operative considerations and treatment of various conditions related to subacromial pain syndrome." Acta Orthop. 2026;97:99–104. Acta Orthop
- Littlewood C, et al. "Exercise for rotator cuff tendinopathy: a systematic review." Physiotherapy. 2012;98(2):101–109. Physiotherapy
- Malliaras P, et al. "The efficacy of higher versus lower dose exercise in rotator cuff tendinopathy: a systematic review of randomized controlled trials." Arch Phys Med Rehabil. 2020;101(10):1822–1834. Arch Phys Med Rehabil
- Mears CK, et al. "Changes in pain-related fear predict shoulder disability in rotator cuff tendinopathy with resistance exercise." J Orthop Sports Phys Ther. 2026;56(8):546–554. JOSPT
- Minagawa H, et al. "Prevalence of symptomatic and asymptomatic rotator cuff tears in the general population: from mass-screening in one village." J Orthop. 2013;10(1):8–12. J Orthop
- Naunton J, et al. "Effectiveness of progressive and resisted and non-progressive or non-resisted exercise in rotator cuff related shoulder pain: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials." Clin Rehabil. 2020;34(9):1198–1216. Clin Rehabil
- Paavola M, et al. "Subacromial decompression versus diagnostic arthroscopy for shoulder impingement: randomised, placebo surgery controlled clinical trial." BMJ. 2018;362:k2860. BMJ
- Page MJ, et al. "Manual therapy and exercise for rotator cuff disease." Cochrane Database Syst Rev. 2016;(6):CD012224. Cochrane
- Sher JS, et al. "Abnormal findings on magnetic resonance images of asymptomatic shoulders." J Bone Joint Surg Am. 1995;77(1):10–15. JBJS Am
- Teunis T, et al. "A systematic review and pooled analysis of the prevalence of rotator cuff disease with increasing age." J Shoulder Elbow Surg. 2014;23(12):1913–1921. JSES
- Yamamoto A, et al. "Prevalence and risk factors of a rotator cuff tear in the general population." J Shoulder Elbow Surg. 2010;19(1):116–120. JSES
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.