Ilustração 3D anatômica da luxação do ombro: vista anterior mostrando a cabeça do úmero deslocada para fora da cavidade glenoidal, labrum glenoidal, cápsula articular lesionada, músculo deltoide e manguito rotador
Vista anterior do ombro — cabeça do úmero deslocada da cavidade glenoidal na luxação anterior

O que acontece numa luxação anterior do ombro

Na luxação anterior, a cabeça do úmero sai da cavidade glenoidal para frente e para baixo. É o tipo mais comum de luxação do ombro. Em dados de serviços de emergência dos Estados Unidos, a incidência foi de 23,9 por 100.000 pessoas-ano, com 71,8% dos casos em homens e pico entre 20 e 29 anos. A maioria resultou de queda (58,8%), e 48,3% ocorreram durante esporte ou lazer.

Fontes: Zacchilli MA, Owens BD. J Bone Joint Surg Am. 2010;92(3):542–549 · Handoll HH, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2004;(1):CD004325.

Lesões associadas. Em uma revisão de 22 estudos (1.920 ombros), a lesão de Hill-Sachs (fratura por impactação na cabeça do úmero) estava presente em 71% dos ombros após a primeira luxação, e a lesão de Bankart (lesão do lábio glenoidal anterior) em 59%. Nas luxações recorrentes, as proporções foram maiores: 85% e 66%.

Fonte: Rutgers C, et al. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2022;30(6):2130–2140.

Risco de repetir. Em uma revisão de 10 estudos (1.324 participantes), a instabilidade recorrente após a primeira luxação anterior traumática foi de 39%. O risco foi maior em pessoas com 40 anos ou menos (OR 13,46), em homens (OR 3,18) e em quem tem hiperfrouxidão (OR 2,68), e menor em quem teve fratura da grande tuberosidade (OR 0,13). Os próprios autores classificaram como fraca a evidência sobre lesões de Bankart ósseas e de Hill-Sachs como fatores de risco.

Fonte: Olds M, et al. Br J Sports Med. 2015;49(14):913–922.
Evidência 1 — ARTISAN: fisioterapia adicional não foi melhor que orientação isolada

O ensaio ARTISAN (Kearney et al., BMJ 2024) recrutou 482 adultos (idade média de 45 anos; 66% homens) com primeira luxação anterior traumática confirmada por radiografia e tratada sem cirurgia, em 40 serviços do Reino Unido. Um grupo (n=240) recebeu uma sessão de orientação, material de apoio e a opção de procurar fisioterapia; o outro (n=242) recebeu o mesmo e, além disso, um programa de fisioterapia. Aos 6 meses, a pontuação do Oxford Shoulder Instability Score não diferiu de forma significativa (diferença de 1,5 ponto a favor da fisioterapia; IC 95% −0,3 a 3,5), nem às 6 semanas ou aos 3 meses. As complicações foram semelhantes.

Limitações: só 73% dos participantes completaram o desfecho principal; pessoas consideradas candidatas à cirurgia foram excluídas; e o desfecho principal foi função, não recidiva. O resultado vale para o programa de fisioterapia testado, e não quer dizer que nenhuma reabilitação seja útil em todos os perfis.

Fonte: Kearney RS, et al. BMJ. 2024;384:e076925.
Evidência 2 — imobilização em rotação externa: os estudos não concordam

Em um ensaio randomizado com 198 pacientes (Itoi et al., 2007), a imobilização por 3 semanas em rotação externa teve recidiva de 26% (22 de 85), contra 42% (31 de 74) em rotação interna (p = 0,033). Uma metanálise de 9 ensaios (795 pacientes; Hurley et al., 2021) encontrou 22,2% vs 33,4% (p = 0,02) a favor da rotação externa, e uma revisão sistemática com metanálise anterior (Longo et al., 2014) apontou na mesma direção (OR 2,28). Mas uma metanálise de 5 estudos (471 pacientes; Vavken et al., 2014) não encontrou diferença (risco relativo 0,74; IC 95% 0,44 a 1,27).

Ou seja, a evidência é inconsistente. A rotação externa parece ter melhor adesão (72% vs 53% no ensaio de Itoi), mas a vantagem na recidiva não é certa.

Fontes: Itoi E, et al. J Bone Joint Surg Am. 2007;89(10):2124–2131 · Hurley ET, et al. J ISAKOS. 2021;6(1):22–27 · Longo UG, et al. Arthroscopy. 2014;30(4):506–522 · Vavken P, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2014;23(1):13–19.
Evidência 3 — cirurgia após a primeira luxação reduz a recidiva em jovens ativos

Uma metanálise de 5 ensaios randomizados (Belk et al., 2023; 126 pacientes operados e 133 tratados só com tipoia, idade média de cerca de 23 anos, seguimento médio de 59,7 meses) mostrou recidiva de 6,3% no grupo operado contra 46,6% no grupo sem cirurgia (p < 0,00001), e necessidade de nova cirurgia de estabilização em 4,0% vs 30,8%. Uma revisão Cochrane de 2004 (5 estudos, 239 pacientes jovens, em média 22 anos) já havia encontrado menos instabilidade com a cirurgia (RR 0,20; IC 95% 0,11 a 0,33), e metade (17 de 33) dos pacientes tratados sem cirurgia nos três estudos publicados na íntegra acabou optando por operar.

Limitações: os estudos incluíram sobretudo homens jovens e ativos; os autores da revisão Cochrane afirmam que não há evidência para dizer se o tratamento sem cirurgia deve deixar de ser a primeira escolha em outros perfis de paciente, e a qualidade metodológica dos ensaios era variável.

Fontes: Belk JW, et al. Am J Sports Med. 2023;51(6):1634–1643 · Handoll HH, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2004;(1):CD004325 · Longo UG, et al. Arthroscopy. 2014;30(4):506–522.

Quando considerar a cirurgia

Com base nas revisões acima, a evidência favorece considerar a cirurgia já na primeira luxação em adultos jovens com atividade esportiva ou profissional de alta demanda. Para os demais perfis, não há evidência suficiente para recomendar cirurgia de rotina, e a decisão é individual.

Para quem já tem instabilidade recorrente, o Instability Severity Index Score (Balg e Boileau, 2007) reúne fatores que aumentam o risco de nova luxação após reparo artroscópico do lábio: idade menor que 20 anos na cirurgia, esporte competitivo ou de contato, hiperfrouxidão, lesão de Hill-Sachs visível na radiografia em rotação externa e perda do contorno esclerótico inferior da glenoide. Em um estudo de 131 pacientes, aqueles com pontuação acima de 6 tiveram risco de recidiva de 70% após o reparo artroscópico, e os autores passaram a sugerir, nesses casos, o procedimento de Bristow-Latarjet. Esse escore foi desenvolvido e testado na mesma população (estudo retrospectivo), e não substitui a avaliação individual do ortopedista.

Fonte: Balg F, Boileau P. J Bone Joint Surg Br. 2007;89(11):1470–1477.
⚠️ Sinais de alerta após luxação do ombro — procure atendimento médico:
  • Incapacidade de elevar o braço após a redução (suspeita de ruptura do manguito rotador)
  • Dormência ou formigamento no braço/mão (lesão neurológica — nervo axilar)
  • Deformidade óssea visível (fratura associada da grande tuberosidade)
  • Novas luxações ou sensação de que o ombro "sai do lugar" nas atividades do dia a dia

Resumo

Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou fisioterapêutica. A indicação cirúrgica deve ser avaliada individualmente pelo ortopedista.

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Após uma luxação, o risco de repetir varia muito com a idade e a atividade — uma avaliação ajuda a decidir entre tratamento sem cirurgia e cirurgia.

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Referências