Ilustração 3D anatômica do manguito rotador: ombro com acrômio, tendão supraespinhal, lesão em vermelho e cabeça do úmero
Vista anterior do ombro — manguito rotador com lesão do tendão supraespinhal e compressão subacromial

Dor subacromial e lesão do manguito rotador

O manguito rotador é formado por 4 músculos-tendões (supraespinal, infraespinal, redondo menor, subescapular) que envolvem a cabeça do úmero. Durante muito tempo se explicou a dor como "síndrome do impacto", em que o acrômio comprimiria esses tendões durante a elevação do braço. Uma diretriz multidisciplinar holandesa considera essa explicação anatômica insuficiente e prefere o termo síndrome da dor subacromial, que descreve queixas de dor no ombro sem trauma e sem causa reumatológica, piores ao elevar o braço, e que inclui tendinopatia do supraespinal, tendinite calcária e rupturas degenerativas do supraespinal. O diagnóstico é feito por uma combinação de testes clínicos.

Fontes: Diercks R, et al. Acta Orthop. 2014;85(3):314–322 · Lambers Heerspink FO, et al. Acta Orthop. 2026;97:91–98.

Quão comum é

A ruptura do manguito rotador fica mais frequente com a idade. Em um rastreamento por ultrassom de 664 moradores de uma vila no Japão, 22,1% tinham ruptura de espessura total. A frequência foi de 0% entre os 20 e os 40 anos, 10,7% nos 50, 15,2% nos 60, 26,5% nos 70 e 36,6% nos 80. Do total de rupturas, 65,3% não davam sintomas, e os autores concluem que a ruptura sem sintoma foi cerca de duas vezes mais comum do que a que dói. Uma revisão de 30 estudos (6.112 ombros) também encontrou alteração do manguito em 9,7% das pessoas de até 20 anos e em 62% das de 80 anos ou mais, com aumento semelhante em quem tem e em quem não tem sintomas; os autores consideram a degeneração do manguito um achado comum do envelhecimento normal, o que dificulta saber se uma alteração na imagem é a causa da dor.

Na prática: ter uma ruptura na ressonância ou no ultrassom não significa que ela seja a causa da sua dor. Limitação: os dados de prevalência vêm de uma única população japonesa rural e de estudos de desenhos diferentes.

Fontes: Minagawa H, et al. J Orthop. 2013;10(1):8–12 · Teunis T, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2014;23(12):1913–1921.
O que a evidência mostra: a cirurgia de descompressão não superou a cirurgia placebo

Uma revisão Cochrane (8 ensaios, 1.062 participantes com dor no ombro por impacto) comparou a descompressão subacromial com placebo cirúrgico (artroscopia sem remover tecido). Com certeza alta da evidência, a cirurgia não trouxe melhora de dor, função nem qualidade de vida até 1 ano: a dor média (escala de 0 a 10) era de 2,9 após o placebo cirúrgico e ficou 0,26 ponto melhor após a descompressão (de 0,84 melhor a 0,33 pior). Efeitos adversos foram relatados em cerca de 3% dos participantes nos ensaios, e os autores estimam que o risco de eventos adversos graves seja inferior a 1%.

Outra revisão Cochrane (9 ensaios, 1.007 participantes com ruptura de espessura total) comparou o reparo cirúrgico com o tratamento sem cirurgia (exercícios, com ou sem infiltração). Em 1 ano, a cirurgia provavelmente trouxe pouca ou nenhuma melhora de dor (0,87 ponto a mais de melhora em 10; certeza moderada) e a diferença de função foi de 6 pontos em 100 (certeza baixa). Os autores dizem que ainda há incerteza sobre o benefício do reparo.

Limitações: nenhum desses ensaios de ruptura teve cirurgia placebo; todos tinham problemas metodológicos; e as pessoas estudadas tinham sobretudo rupturas pequenas e degenerativas do supraespinal. Os resultados podem não valer para rupturas traumáticas, rupturas grandes, rupturas do subescapular ou pacientes jovens.

Fontes: Karjalainen TV, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2019;1:CD005619 · Karjalainen TV, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2019;12:CD013502.

Tratamento sem cirurgia

Fisioterapia com exercícios e terapia manual é o tratamento de primeira linha mais usado, mas a evidência é mais fraca do que se imagina. Numa revisão Cochrane de 60 ensaios (3.620 participantes), apenas um ensaio de 120 pessoas com doença crônica do manguito comparou terapia manual com exercícios a um placebo: com 22 semanas, não houve diferença clinicamente importante (melhora da dor 6,8 pontos em 100 maior no grupo tratado; IC 95% de −0,7 a 14,3), e eventos adversos leves (dor após o tratamento) foram mais frequentes com o tratamento (31%) do que com o placebo (8%). Cinco ensaios (certeza baixa) não encontraram diferença importante de dor e função entre terapia manual com exercícios e infiltração de corticoide de 4 semanas a 12 meses, embora o sucesso global tenha sido mais frequente com a infiltração até 11 semanas. Um ensaio (certeza baixa) não mostrou diferença importante em relação à descompressão cirúrgica.

A diretriz holandesa de 2014 recomenda tratamento sem cirurgia como preferência, infiltração subacromial de corticoide para sintomas persistentes ou recorrentes, exercícios específicos de baixa intensidade e alta frequência, imagem (ultrassom) após 6 semanas de sintomas e afirma não haver evidência convincente de que a cirurgia seja mais eficaz do que o tratamento sem cirurgia. A atualização de 2026 sugere considerar infiltração subacromial com anestésico local para permitir a fisioterapia em quem tem dor intensa demais para se exercitar, e, para ruptura isolada, sintomática e não traumática do supraespinal, começar por exercícios (com infiltração) e considerar o reparo se não houver melhora em 3 a 6 meses.

Fontes: Page MJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(6):CD012224 · Diercks R, et al. Acta Orthop. 2014;85(3):314–322 · Lambers Heerspink FO, et al. Acta Orthop. 2026;97:91–98 e 99–104.

Sinais de alerta

Capsulite Adesiva ("Ombro Congelado")

É o espessamento e a retração da cápsula da articulação do ombro, com aderências que limitam o movimento ativo e passivo em várias direções. Costuma passar por fases (congelamento, congelada e descongelamento), cuja duração varia de meses a anos. A página sobre capsulite adesiva detalha a evolução e os tratamentos.

Quão comum é

Uma revisão de epidemiologia cita prevalência de 2% a 5% na população geral. Há associação com diabetes (em uma metanálise de 18 estudos, pessoas com diabetes tiveram 5 vezes mais chance de ter a condição; IC 95% 3,2 a 7,7) e com hipotireoidismo (razão de chances 1,92 numa metanálise de 10 estudos). Em uma série de 223 pacientes, 20% tiveram sintomas nos dois ombros ao longo do tempo.

Fontes: Pogorzelski J, et al. Unfallchirurg. 2019;122(12):917–924 · Zreik NH, et al. Muscles Ligaments Tendons J. 2016;6(1):26–34 · Chuang SH, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2023;32(6):1314–1322 · Hand C, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2008;17(2):231–236.
O que a evidência mostra: a infiltração de corticoide alivia mais rápido; no longo prazo os grupos ficam parecidos

Uma revisão Cochrane (32 ensaios, 1.836 participantes) encontrou que terapia manual com exercícios por 6 semanas provavelmente melhora menos em 7 semanas do que a infiltração de corticoide (sucesso do tratamento relatado por 46% contra 77%, em um ensaio com 108 participantes; certeza moderada). As diferenças de dor e função em 6 e 12 meses não foram clinicamente importantes. Uma metanálise posterior (65 estudos) também encontrou que a infiltração intra-articular de corticoide foi a única intervenção claramente superior no curto prazo (12 semanas ou menos), e sugere associá-la a exercícios domiciliares.

Limitação: o benefício da infiltração se mostrou de curta duração, e a evidência sobre fisioterapia isolada é, em grande parte, de baixa qualidade.

Fontes: Page MJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(8):CD011275 · Challoumas D, et al. JAMA Netw Open. 2020;3(12):e2029581.

Sinais de alerta

Bursite Subacromial

É a inflamação da bursa subacromial, o "saquinho" lubrificante entre o manguito rotador e o acrômio. As diretrizes atuais não tratam a bursite como um problema à parte: as recomendações de diagnóstico e tratamento são formuladas para a síndrome da dor subacromial como um todo. Por isso, as evidências da seção sobre o manguito rotador são as que orientam o tratamento.

Quanto à frequência, uma revisão sistemática de 18 estudos sobre dor no ombro na população geral (não só bursite) encontrou prevalência pontual entre 6,9% e 26% e prevalência em 1 ano entre 4,7% e 46,7%; os autores alertam que os números variam muito conforme a definição de caso e o método de cada estudo. A diretriz holandesa recomenda diagnóstico por combinação de testes clínicos, tratamento sem cirurgia como preferência, infiltração subacromial de corticoide quando os sintomas persistem ou impedem a reabilitação, e afirma não haver evidência convincente de que a cirurgia supere o tratamento sem cirurgia — o que concorda com as revisões Cochrane acima.

Fontes: Luime JJ, et al. Scand J Rheumatol. 2004;33(2):73–81 · Diercks R, et al. Acta Orthop. 2014;85(3):314–322 · Lambers Heerspink FO, et al. Acta Orthop. 2026;97:91–98.

Um sinal de alerta específico da bursite: vermelhidão, calor e febre no local podem indicar bursite séptica (infecciosa), que precisa de avaliação e, às vezes, drenagem urgente — diferente da bursite comum por sobrecarga.

Dor no ombro há semanas?

Antes de pensar em cirurgia, vale uma avaliação completa: nos estudos revisados, a cirurgia não superou o tratamento sem cirurgia na dor subacromial nem nas rupturas pequenas e degenerativas do manguito.

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Vídeo sobre o tema

Bursite no ombro

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. A presença de uma alteração na ressonância (como uma ruptura pequena do manguito) não significa, por si só, que a cirurgia seja necessária — o exame clínico e a evolução do seu caso é que definem a conduta certa.