O que é
A artrose do joelho (gonartrose) é uma doença articular degenerativa: a cartilagem que reveste os ossos se altera, o osso logo abaixo dela se remodela e a membrana sinovial pode ficar inflamada. Costuma afetar mais o compartimento medial (a parte interna do joelho), mas os compartimentos patelofemoral e lateral também podem ser atingidos.
É muito comum. Uma metanálise de 88 estudos populacionais (mais de 10 milhões de participantes) estimou prevalência de 16,0% a partir dos 15 anos e de 22,9% a partir dos 40 anos, com cerca de 654 milhões de pessoas de 40 anos ou mais com artrose do joelho no mundo em 2020; nas mulheres a prevalência foi 1,69 vez a dos homens. Em outra análise, do estudo Global Burden of Disease, 595 milhões de pessoas tinham osteoartrite (todas as articulações) em 2020, e o joelho foi a articulação mais comum.
Fontes: Cui A, et al. EClinicalMedicine. 2020;29-30:100587 · GBD 2021 Osteoarthritis Collaborators. Lancet Rheumatol. 2023;5(9):e508-e522.O raio-X não define o sofrimento
Uma revisão sistemática de estudos populacionais mostrou que a relação entre o raio-X e a dor no joelho é imprecisa nos dois sentidos: entre pessoas com dor no joelho, de 15% a 76% tinham artrose no raio-X, e entre pessoas com artrose no raio-X, de 15% a 81% tinham dor (a variação depende da incidência radiográfica usada, da definição de dor e da população). Os autores concluem que o raio-X do joelho não deve ser usado isoladamente para avaliar um paciente com dor.
Em outras palavras, há quem tenha artrose evidente no exame e pouca dor, e quem tenha muita dor com pouca alteração. Por isso o tratamento procura atuar no que se pode modificar — força muscular, movimento, peso, nível de atividade — e não apenas no que aparece na imagem.
Fonte: Bedson J, Croft PR. BMC Musculoskelet Disord. 2008;9:116.A revisão Cochrane mais recente (atualizada em dezembro de 2024) reuniu 139 ensaios com 12.468 participantes que testaram exercício em terra para artrose do joelho. Comparado a nenhum tratamento, cuidado habitual ou orientação limitada, o exercício melhorou a dor em cerca de 13 pontos numa escala de 0 a 100 (certeza baixa) e a função em cerca de 12,5 pontos (certeza moderada). Comparado a placebo ou a atenção sem exercício, a melhora na dor foi de cerca de 8,7 pontos (certeza baixa) e na função, de cerca de 11 pontos (certeza moderada).
Os próprios autores concluem que, pelos limiares de diferença mínima importante que usaram, esses benefícios são de importância clínica incerta. A maioria dos estudos tinha risco de viés (os participantes sabiam que estavam se exercitando, o que pode ter contribuído para a melhora relatada). Uma metanálise anterior de 48 ensaios (Juhl et al., 2014) encontrou efeitos parecidos sobre a dor para exercício aeróbico, de fortalecimento e de desempenho funcional (diferença média padronizada de 0,67, 0,62 e 0,48), e sugeriu que o exercício supervisionado, feito pelo menos 3 vezes por semana, reduziu mais a dor. Nessa análise, o efeito foi semelhante independentemente da gravidade do raio-X e da dor no início.
Fontes: Lawford BJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2024;(12):CD004376 · Juhl C, et al. Arthritis Rheumatol. 2014;66(3):622-636.Uma metanálise (5 estudos; Wluka et al., 2020) encontrou que quem tinha, antes da cirurgia, dor com características neuropáticas (identificada por questionário) apresentou risco relativo de 2,05 (IC 95% 1,51 a 2,79) de ter mais dor depois da prótese do joelho. Os autores descrevem a evidência como consistente, porém limitada. Outra metanálise, com 32 estudos e quase 30 mil pacientes (Lewis et al., 2015), identificou catastrofização da dor, saúde mental pior, dor prévia no joelho e dor em outras partes do corpo como os preditores independentes mais fortes de dor persistente após a prótese.
Limitações: são estudos de associação. Eles não testaram se tratar esses fatores antes da cirurgia muda o resultado, e não avaliaram a resposta ao exercício. Ainda assim, apontam que a dor no joelho envolve mais do que a articulação, e que sono, humor e medos merecem atenção na avaliação.
Fontes: Wluka AE, et al. Osteoarthritis Cartilage. 2020;28(11):1403-1411 · Lewis GN, et al. Br J Anaesth. 2015;114(4):551-561.Diretrizes para o tratamento
As diretrizes da OARSI (2019), do Colégio Americano de Reumatologia com a Arthritis Foundation (2019) e da EULAR (2023) convergem em um tratamento de base, embora divirjam em outros pontos (veja adiante). Na OARSI, o tratamento de base para o joelho inclui educação sobre a doença e programas estruturados de exercício em terra, com ou sem controle de peso. A EULAR de 2023 recomenda um plano individualizado e com vários componentes: informação e autocuidado, exercício com dose e progressão ajustadas a cada pessoa, manutenção de peso saudável ou perda de peso, calçados e auxiliares de marcha, orientação sobre o trabalho e técnicas de mudança de comportamento. Além disso:
- Brasil: a diretriz brasileira da CONITEC (2024) recomenda, com força "forte", informar o paciente sobre exercício e perda de peso (se houver sobrepeso) e priorizar as alternativas não cirúrgicas antes da cirurgia. As recomendações específicas sobre fisioterapia e exercício aparecem como "fracas" na própria diretriz.
- Exercício: recomendação forte na diretriz americana; a EULAR pede que a dose e a progressão sejam ajustadas a cada pessoa. Os números da evidência 1 mostram o tamanho médio do efeito encontrado nos estudos.
- Peso: a diretriz americana faz recomendação forte de perda de peso para quem tem sobrepeso ou obesidade. Em 142 adultos acompanhados por 18 meses, cada 1 kg de peso perdido esteve associado a uma redução de cerca de 4 kg na força de compressão sobre o joelho a cada passo (uma associação, não uma prova de causa).
- Anti-inflamatórios: os de uso tópico (na pele) têm recomendação forte na OARSI e na diretriz americana. Uma metanálise em rede de 192 ensaios (da Costa et al., 2021) concluiu que o diclofenaco tópico parece eficaz e geralmente mais seguro, e que deve ser considerado a primeira linha entre os medicamentos para o joelho. Os orais podem ajudar, mas têm mais efeitos adversos e não são adequados para todos (a OARSI não os recomenda em quem tem doença cardiovascular ou fragilidade).
- Paracetamol: aqui as diretrizes divergem. A OARSI o desaconselha de forma condicional, e na metanálise em rede de 2015 ele foi o tratamento menos eficaz e o único sem melhora clinicamente significativa da dor em relação ao início. Já a diretriz brasileira (CONITEC, 2024) o recomenda (com a dipirona como alternativa) como primeira linha de analgesia, com recomendação forte, em dose máxima de 4 g por dia para o paracetamol. A diretriz da AAOS (2021) também o recomenda, com força forte.
- Opioides: a OARSI os desaconselha de forma forte, e a metanálise de 2021 concluiu que o benefício não compensa os danos na artrose.
- Infiltração de corticoide: tem recomendação forte na diretriz americana, mas a diretriz brasileira recomenda, também de forma forte, não usar infiltração de corticoide para aliviar a dor. Em um ensaio de 2 anos com 140 pacientes, porém, a injeção repetida a cada 12 semanas causou maior perda de cartilagem do que soro (−0,21 mm vs −0,10 mm) e não reduziu mais a dor, e os autores não recomendam esse esquema. A AAOS (2021) considera que o corticoide intra-articular pode dar alívio de curto prazo (recomendação moderada).
- Ácido hialurônico: na OARSI, assim como o corticoide, é tratamento de nível 1B/2 (não é de base), e a diretriz brasileira recomenda não usá-lo; a AAOS (2021) também não o recomenda para uso rotineiro. Na metanálise em rede de 2015 (137 estudos, 33.243 participantes), os autores apontam que a vantagem das injeções sobre os anti-inflamatórios pode se dever, em parte, ao efeito placebo da própria injeção.
Quando considerar a prótese total do joelho
Em um ensaio com 100 pacientes com artrose moderada a grave que já podiam ser operados (Skou et al., 2015), um grupo fez prótese total mais 12 semanas de tratamento não cirúrgico e o outro fez apenas o tratamento não cirúrgico (exercício, educação, orientação alimentar, palmilhas e analgésicos). Em 12 meses, o grupo operado melhorou mais (32,5 vs 16,0 pontos na escala KOOS4; diferença ajustada de 15,8 pontos, IC 95% 10,0 a 21,5), mas teve mais eventos adversos graves (24 vs 6). No grupo não cirúrgico, 26% fizeram a prótese dentro do período, e a maioria não a fez em 12 meses. Foi um estudo pequeno e com um ano de seguimento.
Por isso a indicação é individual: leva em conta a intensidade da dor, a limitação funcional, o que já foi tentado, os exames, outras doenças e a preferência do paciente. A diretriz brasileira sugere (recomendação fraca) o encaminhamento para a prótese em quem tem sintomas com impacto substancial na qualidade de vida e não se beneficiou das terapias não cirúrgicas, sem fixar um número de meses nem um grau de raio-X, e sugere que a idade, a obesidade e outras doenças, por si sós, não sejam obstáculo ao encaminhamento.
O resultado também não é igual para todos. Uma metanálise de 2025 estimou que cerca de 22% dos pacientes relatam dor 3 meses após a prótese do joelho, caindo para 12% a 15% entre 6 e 24 meses (com confiança baixa, por perdas de seguimento e risco de viés). Numa revisão de 21 estudos, a insatisfação média após a prótese do joelho foi de 10%.
A pré-reabilitação (exercício antes da cirurgia) mostrou, em metanálise de ensaios, melhora de função e força antes da cirurgia e de função 6 semanas depois da prótese de joelho (certeza moderada); uma revisão de revisões de 2025 concluiu que os efeitos tendem a se limitar aos primeiros 6 meses.
Fontes: Skou ST, et al. N Engl J Med. 2015;373(17):1597-1606 · Cheng HY, et al. BMJ Open. 2025;15(5):e088975 · DeFrance MJ, Scuderi GR. J Arthroplasty. 2023;38(3):594-599 · Punnoose A, et al. JAMA Netw Open. 2023;6(4):e238050 · Keogh JAJ, et al. J Orthop Sports Phys Ther. 2025;55(5):344-365 · CONITEC, 2024.⚠️ Sinais de alerta que pedem avaliação urgente
- Inchaço articular súbito e intenso — pode ser gota, pseudogota ou infecção articular
- Febre associada à dor e inchaço no joelho — artrite séptica é emergência ortopédica
- Piora súbita da dor após trauma leve — avaliar fratura por insuficiência
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Referências científicas
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- Bedson J, Croft PR. "The discordance between clinical and radiographic knee osteoarthritis: a systematic search and summary of the literature." BMC Musculoskelet Disord. 2008;9:116. BMC
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