Esquema 3D do antebraço direito com a palma para cima e uma janela de dissecção: os músculos que dobram o punho e os dedos convergem para o cotovelo, onde se prendem ao epicôndilo medial, com a origem comum dos tendões destacada em laranja-avermelhado
Esquema do antebraço visto com a palma para cima: os músculos que dobram o punho e os dedos e giram o antebraço se prendem, por um tendão comum, ao epicôndilo medial (a saliência interna do cotovelo). O laranja marca a região dessa origem, onde a dor se concentra. Esquema ilustrativo, não é imagem de exame.

O que é

A epicondilite medial é uma dor na parte de dentro do cotovelo, no ponto em que os músculos que dobram o punho e os dedos e giram o antebraço com a palma para baixo (os flexores e o pronador) se prendem ao osso, o epicôndilo medial. Apesar do "-ite" do nome, as descrições são de degeneração do tendão: uma revisão ortopédica de 2015 fala em degeneração do tendão flexor-pronador por movimentos repetidos do punho e do antebraço, com dor persistente no lado interno do cotovelo, que piora nas atividades do dia a dia. Uma série cirúrgica do mesmo ano descreve a lesão como uma tendinose da origem comum dos flexores-pronadores.

"Cotovelo de golfista" é só o apelido. Na revisão, atletas que arremessam podem sentir mais dor em fases específicas do gesto, mas o problema também aparece em quem nunca jogou golfe (veja a seção seguinte). A forma do lado de fora do cotovelo, mais estudada, está em Cotovelo de Tenista, e uma visão geral das duas está em Dor no Cotovelo.

Fontes: Amin NH, et al. J Am Acad Orthop Surg. 2015;23(6):348-355 · Vinod AV, Ross G. J Shoulder Elbow Surg. 2015;24(8):1172-1177.

Quão comum é e quem tem

Num levantamento representativo na Finlândia, com 4.783 pessoas de 30 a 64 anos, a prevalência de epicondilite medial foi de 0,4%, contra 1,3% da lateral. Uma revisão narrativa que reúne estudos aponta 0,3 a 0,6% nos homens e 0,3 a 1,1% nas mulheres.

0,4%prevalência da forma medial entre 4.783 finlandeses de 30 a 64 anos
90%dos 95 casos de uma série inglesa eram ligados ao trabalho
12%foram operados nessa série (menos de 4% na forma lateral)

Essa série inglesa reuniu 95 casos em 83 pacientes; 90% estavam ligados ao trabalho e só 10% ao esporte ou lazer. Os números do hospital descrevem quem foi atendido ali, e não a população geral, e o estudo é retrospectivo, de um hospital ortopédico.

No levantamento finlandês, fumar, obesidade, movimentos repetitivos e atividades de força mostraram, cada um, independentemente dos outros, associação com a epicondilite medial. Isso é associação em um corte no tempo, não prova de causa, e o resumo do artigo não traz o tamanho dessas associações para a forma medial.

Fontes: Shiri R, et al. Am J Epidemiol. 2006;164(11):1065-1074 · Shiri R, Viikari-Juntura E. Best Pract Res Clin Rheumatol. 2011;25(1):43-57 · O'Dwyer KJ, Howie CR. Int Orthop. 1995;19(2):69-71.

Como se faz o diagnóstico

O diagnóstico é principalmente clínico, pela história e pelo exame físico, como afirma a revisão de 2011 sobre epicondilite. Em uma série de 30 cotovelos operados, a manobra mais vezes positiva foi a pronação do antebraço contra resistência (dolorosa em 28 cotovelos), seguida da flexão do punho contra resistência (12 cotovelos). Outra série cirúrgica, de 60 pacientes, destacou a fraqueza na pronação a 90° como achado de exame importante.

O limite dessas duas séries: só incluem pessoas que acabaram operadas e não têm um grupo sem a doença para comparar, então não dá para dizer com que precisão cada manobra distingue quem tem de quem não tem.

O que mostram os exames de imagem

Ressonância. Num estudo retrospectivo pequeno, 13 pessoas com diagnóstico clínico foram comparadas com 26 sem sinais clínicos. Em 11 das 13 havia espessamento e aumento do sinal do tendão flexor comum; nas outras 2, edema ao redor de um tendão de aspecto normal. Entre as 26 sem sinais clínicos, 21 tinham o tendão normal e 5 tinham o tendão espessado.

Calcificação. Em 187 pessoas (222 cotovelos) com o diagnóstico, 53% (118 cotovelos) tinham calcificação nos exames radiológicos. A calcificação se associou a dor mais intensa, a ter feito infiltração de corticoide e à neuropatia ulnar junto. São associações: o estudo não testa se a infiltração produz a calcificação, nem se a calcificação muda o tratamento.

Limites: amostras pequenas ou de serviços especializados, desenho retrospectivo. Os estudos não definem quando um exame de imagem muda a conduta.

Fontes: Kijowski R, De Smet AA. Skeletal Radiol. 2005;34(4):196-202 · Kang KB, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2022;31(2):375-381.

O nervo ulnar mora ao lado

O que a evidência mostra

O nervo ulnar, o mesmo que dá formigamento no dedo mínimo e no anular, passa muito perto do epicôndilo medial, e os estudos cirúrgicos encontram os dois problemas juntos com frequência:

  • Gabel e Morrey (30 cotovelos operados): 16 tinham neuropatia ulnar associada. Resultado bom ou excelente em 87% (26 cotovelos) em média 7 anos depois. Entre os 25 cotovelos sem neuropatia ou com neuropatia leve, 24 tiveram resultado bom ou excelente, contra 2 de 5 nos com neuropatia moderada ou grave (p = 0,009).
  • Kurvers e Verhaar (40 cotovelos operados): 24 tinham neurite ulnar antes da operação. Ficaram sem sintomas 11 dos 16 cotovelos com epicondilite isolada, contra só 3 dos 24 com neurite ulnar (p < 0,01); em 15 cotovelos os sintomas do nervo persistiram.
  • Revisão sistemática de 2025 (17 estudos cirúrgicos, 442 pacientes, 14 retrospectivos): em dois estudos a neurite ulnar prévia teve impacto mínimo no resultado, e os autores concluem que ela não afeta de forma significativa o desfecho da operação.

Os estudos não concordam. Os dois primeiros são de 1995, retrospectivos, e a revisão mistura estudos de qualidade variável (escore MINORS de 3 a 14). Todos os números vêm de quem foi operado: eles não dizem com que frequência o nervo está envolvido em quem tem dor no lado interno do cotovelo, nem como o nervo se comporta nos tratamentos sem cirurgia.

Fontes: Gabel GT, Morrey BF. J Bone Joint Surg Am. 1995;77(7):1065-1069 · Kurvers H, Verhaar J. J Bone Joint Surg Am. 1995;77(9):1374-1379 · Barakat A, et al. Ann R Coll Surg Engl. 2025;107(7):457-468.

O que isso significa na prática é só que vale perguntar pelo nervo: formigamento no dedo mínimo e no anular, ou fraqueza para segurar, mudam a leitura do quadro e estão na lista de sinais de alerta abaixo.

Tratamento sem cirurgia: pouca prova direta

Na série inglesa de 95 casos, a maioria se recuperou com tratamento conservador e 12% precisaram de cirurgia. Isso mostra que muitos melhoram sem operar, mas não diz qual tratamento funcionou nem quanto da melhora é o curso natural. Uma revisão ortopédica de 2015 descreve o cuidado inicial como modificar a atividade, usar anti-inflamatório e, em alguns casos, infiltração de corticoide, e depois reabilitar a musculatura flexora-pronadora. É descrição de revisão narrativa, sem números de ensaios.

Exercício

O que a evidência mostra

Uma revisão sistemática de 2026 sobre exercício excêntrico (em que o músculo trabalha enquanto se alonga sob carga) reuniu 5 estudos, com 143 pacientes, entre ensaios randomizados, estudos de antes e depois e comparações. O exercício se associou a menos dor e melhor função dentro de cada grupo. A superioridade entre grupos apareceu em um ensaio randomizado, e uma combinação de intervenções foi melhor que o ultrassom em um estudo; nos demais não houve diferença clara entre os grupos. Um único estudo, sem grupo de comparação, relatou alívio mantido em 11 anos.

Limites: os protocolos eram diferentes e as amostras pequenas, então não foi possível somar os resultados, e os autores classificam a certeza da evidência como baixa. Melhorar "dentro do grupo" significa melhorar com o tempo, e isso não prova que o exercício foi a causa. Por serem protocolos diferentes, os estudos não permitem recomendar uma carga, um número de séries ou uma duração.

Uma revisão de 2013 procurou ensaios de exercício e mobilização para epicondilite lateral e medial e achou 12 ensaios e uma revisão, todos sobre a forma lateral. Ou seja, o que se sabe do exercício na forma lateral não foi testado na medial.

Fontes: See ZH, et al. Complement Ther Med. 2026;98:103364 · Hoogvliet P, et al. Br J Sports Med. 2013;47(17):1112-1119.

Infiltração de corticoide

O que a evidência mostra

Num ensaio randomizado e duplo-cego, 58 pacientes (60 cotovelos) receberam uma injeção de lidocaína com 40 mg de metilprednisolona ou com soro fisiológico; os dois grupos também fizeram fisioterapia e usaram anti-inflamatório. Em 6 semanas, o grupo do corticoide teve menos dor pela escala de Nirschl e Pettrone modificada (p < 0,03). Aos 3 meses e em 1 ano, os grupos não diferiram. Pela escala visual analógica de dor, não houve diferença entre os grupos nem em 6 semanas nem em 1 ano. Os autores atribuem a melhora dos dois grupos principalmente à evolução natural da doença e concluem que o corticoide traz só benefício de curto prazo.

Limites: é um ensaio de 1997, pequeno, com uma única injeção, e o benefício de curto prazo foi medido por uma escala, não pela escala visual.

Fonte: Stahl S, Kaufman T. J Bone Joint Surg Am. 1997;79(11):1648-1652.

Duas observações de outros estudos apontam na mesma direção de cautela, mas são associações e não provam que a infiltração prejudica. Na revisão cirúrgica de 2025, de 4 estudos que avaliaram infiltrações antes da operação, 1 achou correlação negativa com o resultado. E, no estudo de calcificação citado acima, ter feito infiltração se associou à calcificação.

Ondas de choque

O que a evidência mostra

Uma série alemã tratou 30 pessoas com epicondilite medial crônica com ondas de choque de baixa energia (3 sessões, com uma semana de intervalo entre elas). Em 1 ano, só 7 tiveram resultado excelente ou bom pelos critérios de Verhaar, 14 tiveram resultado ruim, apenas 6 estavam satisfeitas e o alívio médio da dor foi de 32%. Os autores observam que o resultado foi significativamente pior que o de pessoas com cotovelo de tenista tratadas do mesmo jeito e questionam se o método está indicado na forma medial.

Limites: série de 1999, sem grupo de comparação nem placebo, com um único protocolo. Não permite dizer como seria o resultado sem tratamento nem com outros parâmetros.

Fonte: Krischek O, et al. Arch Orthop Trauma Surg. 1999;119(1-2):62-66.

Para cinta ou órtese, ultrassom terapêutico e agulhamento, não encontramos estudo específico da forma medial com resultado que possamos apresentar, e por isso a página não trata deles.

Cirurgia: relatos de melhora, sem comparação com não operar

O que a evidência mostra

Uma revisão sistemática de 2023 reuniu 16 estudos (479 cotovelos) de cirurgia para epicondilite medial: 13 com técnica aberta, 2 artroscópicas e 1 percutânea. A idade média ponderada era de 47,2 anos, 58,3% eram homens e o seguimento médio foi de 4,6 anos. O sucesso da cirurgia variou de 63% a 100%, com complicações em 4,3%; o retorno ao esporte, de 81% a 100%, e o retorno ao trabalho, de 66,7% a 100%.

A revisão de 2025 (17 estudos, 442 pacientes) encontrou complicações em 3,1%: 0% nas técnicas percutâneas, 6,4% na liberação artroscópica e 11,1% quando se transpôs o nervo ulnar. A mediana foi de 6 meses de tratamento sem cirurgia que falhou antes da operação.

Limites: a primeira revisão classifica a própria evidência como de nível 4 (séries de casos) e os autores dizem que falta saber qual técnica é superior; a segunda aponta escassez de pesquisa de alta qualidade. A faixa de 63% a 100% é larga, vem de estudos sem comparação com quem não foi operado, e por isso não diz quanto da melhora se deve à operação. As duas revisões cobrem períodos que se sobrepõem e podem ter incluído os mesmos estudos, então os números não são independentes.

Fontes: Arevalo A, et al. Am J Sports Med. 2023;51(9):2506-2515 · Barakat A, et al. Ann R Coll Surg Engl. 2025;107(7):457-468.

Numa série de 60 pacientes com epicondilite medial refratária, operados depois de 3 a 6 meses de tratamento sem melhora, o escore de função do cotovelo (Mayo) subiu de 58 para 88 e houve um novo rompimento do reparo, num paciente que não seguiu a reabilitação. Também é uma série sem grupo de comparação, da equipe que descreve a própria técnica.

Fonte: Vinod AV, Ross G. J Shoulder Elbow Surg. 2015;24(8):1172-1177.

Como as opções se encaixam

Qual caminho faz sentido depende do tempo de sintomas, do trabalho ou esporte que você faz, do exame do nervo ulnar e da sua preferência, e é uma decisão para tomar com quem examina o seu cotovelo.

⚠️ Quando procurar avaliação

  • Formigamento ou dormência no dedo mínimo e no anular, ou dificuldade para segurar objetos: pode ser o nervo ulnar, que aparece junto com o problema do tendão nas séries cirúrgicas.
  • Dor depois de queda, torção ou pancada, com inchaço, hematoma, deformidade ou dificuldade de mexer o cotovelo: pode ser fratura ou lesão de ligamento, e não só o tendão.
  • Cotovelo vermelho, quente e inchado, com febre ou dor forte: pode ser infecção e precisa de avaliação no mesmo dia.
  • Fraqueza que piora na mão, ou músculos da mão ficando mais finos.
  • Dor que não melhora depois de alguns meses de tratamento bem conduzido, que acorda você à noite ou que continua em repouso.

Dor na parte de dentro do cotovelo?

A avaliação examina o tendão e o nervo ulnar e discute com você as opções, com os limites de cada uma.

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Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. A evidência sobre a epicondilite medial vem de poucos estudos pequenos, e os limites de cada um estão descritos no texto; a escolha entre esperar, reabilitar, infiltrar ou operar deve ser individual.