O que é
A articulação acromioclavicular (AC) conecta a clavícula ao acrômio da escápula, estabilizada por ligamentos acromioclaviculares (estabilidade horizontal) e coracoclaviculares (estabilidade vertical). A lesão costuma ocorrer por trauma direto sobre o ombro. É uma das lesões de ombro mais comuns em pessoas fisicamente ativas, principalmente em esportes de contato e colisão.
Fontes: Tamaoki MJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2019;10(10):CD007429 · Elliott WC, et al. J Clin Med. 2025;14(21):7656.Classificação de Rockwood
A gravidade é classificada em 6 tipos, que ajudam a orientar a conduta. Em linhas gerais, os tipos I e II são lesões de baixo grau, e os tipos IV a VI, de alto grau. No tipo III há ruptura dos ligamentos acromioclaviculares e coracoclaviculares, e é justamente nele que existe a maior controvérsia. Um consenso de especialistas da ISAKOS propôs dividir o tipo III em IIIA (articulação estável, sem sobreposição da clavícula na radiografia com o braço cruzado sobre o peito e sem disfunção importante da escápula) e IIIB (instável, com sobreposição da clavícula e disfunção da escápula que não melhora com a reabilitação). Um painel europeu de especialistas (Delphi) considerou válida a classificação modificada por esse consenso.
- Tipos I e II — lesões de baixo grau: tratamento sem cirurgia
- Tipo III — zona controversa: pode ser tratado sem cirurgia ou com cirurgia, conforme o caso (o IIIA pode se beneficiar do tratamento sem cirurgia; o IIIB, se não responder à reabilitação, pode ser candidato à reconstrução)
- Tipos IV a VI — lesões de alto grau: a cirurgia costuma ser considerada
Essas recomendações vêm de consensos e revisões narrativas de especialistas (nível de evidência baixo), não de ensaios que tenham testado cada tipo separadamente.
Fontes: Beitzel K, et al. Arthroscopy. 2014;30(2):271–278 · Rosso C, et al. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2021;29(7):2325–2332 · Berthold DP, et al. BMC Musculoskelet Disord. 2022;23(1):1078 · Tauber M. Arch Orthop Trauma Surg. 2013;133(7):985–995.Uma revisão Cochrane de 6 ensaios (357 adultos, em sua maioria jovens e do sexo masculino, com luxação aguda) comparou a fixação cirúrgica com o tratamento sem cirurgia (tipoia ou apoio semelhante). Com evidência de baixa qualidade, a função do ombro em 1 ano não diferiu (diferença de 0,73 ponto na escala DASH de 0 a 100; IC 95% −2,70 a 4,16; 112 participantes), e o retorno às atividades anteriores em 1 ano foi parecido (57 de 67 com cirurgia contra 62 de 70 sem). A função em 6 semanas pode ter sido melhor sem cirurgia, e eventos adversos foram mais frequentes com a cirurgia (45 de 168 contra 16 de 174; evidência de qualidade muito baixa), sobretudo problemas com o material e infecção, concentrados em estudos antigos com dispositivos hoje pouco usados.
Uma metanálise posterior de 4 ensaios (244 pacientes, só tipo III) também não achou diferença na função de longo prazo pelo escore de Constant (diferença de 4,82 pontos; IC 95% −6,42 a 16,06). A cirurgia deu melhor alívio inicial da dor e melhor posição da clavícula na radiografia, mas mais artrose pós-traumática e problemas ligados ao material; o tratamento sem cirurgia teve menos complicações.
Nem todos os estudos concordam. Uma revisão de 8 artigos concluiu que não há evidência conclusiva para o tipo III e que adultos jovens fisicamente ativos parecem ter pequena vantagem com a cirurgia, ao custo de mais complicações e de maior tempo de reabilitação; outra revisão aponta resultado estético e radiográfico melhor com cirurgia, função semelhante e mais tempo afastado do trabalho. A evidência sobre o resultado estético é incerta.
Limitações: os ensaios têm risco de viés alto (sem cegamento), são pequenos e incluem sobretudo homens jovens; os resultados podem não valer para atletas de alto rendimento nem para o tipo IIIB.
Fontes: Tamaoki MJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2019;10(10):CD007429 · Xie C, et al. BMC Musculoskelet Disord. 2024;25(1):960 · Korsten K, et al. Int Orthop. 2014;38(4):831–838 · Modi CS, et al. Bone Joint J. 2013;95-B(12):1595–1602.Tratamento sem cirurgia
O tratamento sem cirurgia consiste em apoiar o braço com tipoia e fazer reabilitação com exercícios (nos ensaios revisados pela Cochrane, os dois grupos fizeram reabilitação com exercícios quando ela foi descrita). Os guias de especialistas indicam esse caminho para os tipos I e II, e o tipo III pode se beneficiar dele.
Sobre o retorno ao esporte, uma revisão sistemática de 25 estudos (1.077 pacientes) estimou que 90,8% voltaram ao esporte, em média após cerca de 4,5 meses (125 dias). O retorno foi mais rápido no tratamento sem cirurgia (52 dias) do que no operado (127 dias), mas os estudos eram diferentes entre si e os grupos não eram equivalentes (os autores citam confusão nos dados); por isso essa comparação não prova que a cirurgia atrase a volta. Programas que iniciaram o fortalecimento nas primeiras 6 semanas se associaram a retorno mais rápido (93 contra 132 dias), também em dados observacionais.
Fontes: Tamaoki MJ, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2019;10(10):CD007429 · Elliott WC, et al. J Clin Med. 2025;14(21):7656.Quando considerar a cirurgia
- Lesões de alto grau (tipos IV a VI), em que a cirurgia costuma ser considerada; para esses casos, uma revisão de especialistas sugere operar em 2 a 3 semanas após a lesão
- Tipo III que não melhora com a reabilitação (dor persistente, disfunção da escápula, instabilidade funcional); em lesões crônicas, a cirurgia é considerada depois de 3 a 6 meses de tratamento sem cirurgia sem sucesso
- Atletas com alta demanda, por decisão compartilhada com o ortopedista
- Deformidade estética que incomode o paciente, após conversar sobre riscos e benefícios
Existem mais de 150 técnicas cirúrgicas descritas e nenhuma se mostrou claramente superior às demais. Uma revisão aponta que fixações não rígidas com enxerto de tendão ou material sintético, ou a fixação rígida com placa-gancho, são preferíveis aos parafusos coracoclaviculares (por risco de afrouxamento e quebra); um painel europeu de especialistas sugeriu, para lesões agudas, a reconstrução anatômica assistida por artroscopia com dispositivo de suspensão. Todas essas são opiniões de especialistas ou revisões com poucos estudos de alta qualidade.
Fontes: Tauber M. Arch Orthop Trauma Surg. 2013;133(7):985–995 · Berthold DP, et al. BMC Musculoskelet Disord. 2022;23(1):1078 · Modi CS, et al. Bone Joint J. 2013;95-B(12):1595–1602 · Rosso C, et al. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2021;29(7):2325–2332.Uma metanálise de 32 estudos sobre a fixação com placa-gancho encontrou incidência combinada de osteólise subacromial (perda óssea sob o acrômio) de 29%. O valor variou conforme o método radiológico usado para medir. A associação da placa com reconstrução do ligamento coracoclavicular se relacionou a menor chance de osteólise, e, no último acompanhamento, o escore de Constant não diferiu entre quem teve e quem não teve osteólise.
Na comparação com a fixação por botões (TightRope), os resultados são mistos. Uma metanálise de 15 estudos (a maioria com risco de viés alto) favoreceu os botões, com risco de complicações 2,2 vezes menor. Outra, de 12 estudos (683 pacientes), mostrou melhor escore de Constant com a placa, melhor escala de dor e menor distância coracoclavicular com os botões, e sem diferença significativa nas complicações (p = 0,05).
Limitações: são estudos com poucos ensaios randomizados, e não encontrei nos resumos lidos um prazo bem estabelecido para retirar a placa; essa decisão é individual.
Fontes: Huang L, et al. J Shoulder Elbow Surg. 2024;33(9):2086–2095 · Hohmann E, Tetsworth K. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2023;33(7):2831–2846 · Lim B, et al. JSES Rev Rep Tech. 2025;5(3):477–486.- Deformidade importante com dor intensa (suspeita de lesão de alto grau ou fratura associada)
- Dificuldade respiratória ou dor torácica associada (excluir lesão torácica concomitante em trauma de alta energia)
- Dormência ou formigamento no braço (lesão de plexo braquial associada)
- Incapacidade de elevar o braço ativamente após o trauma (excluir lesão associada do manguito rotador)
Resumo
- A lesão AC costuma ocorrer por trauma direto sobre o ombro; a classificação de Rockwood (I a VI) orienta a conduta, e o tipo III é o mais controverso
- Tipos I e II: tratamento sem cirurgia; tipos IV a VI: cirurgia costuma ser considerada (recomendações de especialistas)
- Tipo III: em ensaios, a função em 1 ano foi semelhante com e sem cirurgia, com evidência de baixa qualidade e mais complicações com a cirurgia; alguns estudos sugerem pequena vantagem da cirurgia em jovens ativos
- Não há técnica cirúrgica claramente superior; a osteólise sob o acrômio foi comum com a placa-gancho (29% numa metanálise)
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou fisioterapêutica. A classificação e a indicação de tratamento devem ser avaliadas individualmente pelo ortopedista.
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Referências
- Beitzel K, Mazzocca AD, Bak K, et al. ISAKOS upper extremity committee consensus statement on the need for diversification of the Rockwood classification for acromioclavicular joint injuries. Arthroscopy. 2014;30(2):271–278. Arthroscopy
- Berthold DP, Muench LN, Dyrna F, et al. Current concepts in acromioclavicular joint (AC) instability - a proposed treatment algorithm for acute and chronic AC-joint surgery. BMC Musculoskelet Disord. 2022;23(1):1078. BMC Musculoskelet Disord
- Elliott WC, Olivo B, Abraham A, et al. Return to sport after acromioclavicular injury: a systematic review of modifiable factors. J Clin Med. 2025;14(21):7656. J Clin Med
- Hohmann E, Tetsworth K. Clinical outcomes for grades III-V acromioclavicular dislocations favor double-button fixation compared to clavicle hook plate fixation: a systematic review and meta-analysis. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2023;33(7):2831–2846. Eur J Orthop Surg Traumatol
- Huang L, Cai L, Fan M, et al. Subacromial osteolysis following hook plate fixation for acromioclavicular dislocation: a systematic review and meta-analysis. J Shoulder Elbow Surg. 2024;33(9):2086–2095. JSES
- Korsten K, Gunning AC, Leenen LPH. Operative or conservative treatment in patients with Rockwood type III acromioclavicular dislocation: a systematic review and update of current literature. Int Orthop. 2014;38(4):831–838. Int Orthop
- Lim B, Chai A, Jassim S, et al. Tightrope vs. hook plate fixation for acute acromioclavicular joint dislocation: a systematic review and meta-analysis. JSES Rev Rep Tech. 2025;5(3):477–486. JSES Rev Rep Tech
- Modi CS, Beazley J, Zywiel MG, et al. Controversies relating to the management of acromioclavicular joint dislocations. Bone Joint J. 2013;95-B(12):1595–1602. Bone Joint J
- Rosso C, Martetschläger F, Saccomanno MF, et al. High degree of consensus achieved regarding diagnosis and treatment of acromioclavicular joint instability among ESA-ESSKA members. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2021;29(7):2325–2332. KSSTA
- Tamaoki MJ, Lenza M, Matsunaga FT, et al. Surgical versus conservative interventions for treating acromioclavicular dislocation of the shoulder in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2019;10(10):CD007429. Cochrane
- Tauber M. Management of acute acromioclavicular joint dislocations: current concepts. Arch Orthop Trauma Surg. 2013;133(7):985–995. Arch Orthop Trauma Surg
- Xie C, Fan S, Chen L, et al. Comparative efficacy of operative versus conservative treatment for Rockwood type III acromioclavicular joint dislocation: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. BMC Musculoskelet Disord. 2024;25(1):960. BMC Musculoskelet Disord