Cotovelo em vista posterior e medial mostrando o nervo ulnar passando atrás do epicôndilo medial e entrando no antebraço sob o músculo flexor ulnar do carpo, com o ponto de compressão em destaque
O nervo ulnar passa por trás da parte interna do cotovelo e entra no antebraço sob o flexor ulnar do carpo; o ponto de compressão aparece em destaque. Esquema ilustrativo, não é imagem de exame.

O que é

A síndrome do túnel cubital é a compressão do nervo ulnar quando ele passa pelo cotovelo, na parte interna. A revisão Cochrane de 2025 a trata como neuropatia ulnar no cotovelo e a descreve como a segunda neuropatia compressiva mais comum, depois da síndrome do túnel do carpo (leia sobre o túnel do carpo). Uma revisão de neurologia de 2024 lembra que o rótulo "síndrome do túnel cubital" muitas vezes é impreciso: o ultrassom hoje consegue separar a compressão sob a arcada do túnel cubital da lesão do nervo no sulco logo atrás do osso da parte interna do cotovelo, e as duas já foram chamadas pelo mesmo nome.

Uma revisão de 2022 descreve o quadro típico: dormência, formigamento ou dor no dedo anular e no mínimo e na borda do dorso da mão do lado do mínimo; o primeiro sinal mais comum é dormência e formigamento do anular e do mínimo, e também podem aparecer mão desajeitada e fraqueza. Segundo a mesma revisão, a compressão crônica sem tratamento pode levar à atrofia do primeiro músculo interósseo dorsal, o músculo entre o polegar e o indicador, no dorso da mão. É uma revisão narrativa: descreve o que a literatura relata, não mediu essas frequências.

Fontes: Caliandro P, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2025;(4):CD006839 · Hannaford A, Simon NG. Handb Clin Neurol. 2024;201:103-126 · Anderson D, et al. Orthop Rev (Pavia). 2022;14(3):38239.

Quão comum é

Em cinco anos (1995 a 1999), na província italiana de Siena (251.930 habitantes), foram identificados 311 casos novos de neuropatia ulnar no cotovelo, com idade média de 56 anos. A incidência anual média foi de 24,7 casos por 100 mil pessoas, maior em homens do que em mulheres, e crescia a cada década de idade. Os autores comparam: cerca de um décimo terceiro da incidência registrada para o túnel do carpo em parte da mesma região. Numa subárea com predomínio de trabalho manual, a incidência masculina foi de 57,1 por 100 mil.

24,7casos novos por 100 mil pessoas por ano
32,7por 100 mil por ano nos homens
17,2por 100 mil por ano nas mulheres

O limite: é um estudo retrospectivo de uma única província italiana, com dados dos anos 1990, que contou quem foi diagnosticado por sintomas ou sinais com lentidão na condução do nervo ou por cirurgia. Quem tem sintomas leves e nunca procurou atendimento não entra na conta, e os números não valem como taxa para o Brasil.

Fonte: Mondelli M, et al. J Neurol Sci. 2005;234(1-2):5-10.

Por que acontece

A revisão de 2022 cita como causas conhecidas a pressão repetida sobre o cotovelo, o estiramento do nervo, a flexão repetida e o trauma da articulação. A seguir, o que há de estudo medido:

Fontes: Anderson D, et al. Orthop Rev (Pavia). 2022;14(3):38239 · Rossmann T, et al. Muscle Nerve. 2021;64(6):749-754 · Lee JI, et al. Bone Joint J. 2026;108-B(5):657-662.

Como se confirma o diagnóstico

O diagnóstico parte da história e do exame físico. A revisão de 2022 cita o sinal de Tinel (percussão ao longo do nervo), os testes de flexão com compressão e a palpação do nervo à procura de espessamento ou dor; ultrassom e estudo de condução nervosa podem ser somados ao exame. A mesma revisão aponta que não há algoritmo de diagnóstico nem de tratamento aceito por todos.

O que a evidência mostra sobre exames

Exame elétrico (eletroneuromiografia). Segundo uma revisão de 2024, esses exames são "moderadamente sensíveis" para neuropatia ulnar, e a capacidade de localizar o ponto exato da lesão é muitas vezes limitada. No ensaio sueco de tratamento sem cirurgia (70 pacientes), 76% dos que tinham sintomas típicos tinham resultado normal nos exames elétricos, e os autores concluíram que, nos casos leves a moderados, o exame de rotina parece desnecessário. Ou seja: exame elétrico normal não afasta o diagnóstico.

Ultrassom. A diretriz de 2022 da associação americana de medicina neuromuscular e eletrodiagnóstica reuniu quatro estudos de classe I e concluiu que é provável que a medida do diâmetro ou da área do nervo ulnar no cotovelo seja acurada para o diagnóstico. A recomendação (nível B) é oferecer o ultrassom a quem tem sintomas e sinais sugestivos, para confirmar o diagnóstico e localizar a compressão.

Fontes: Hannaford A, Simon NG. Handb Clin Neurol. 2024;201:103-126 · Svernlöv B, et al. J Hand Surg Eur Vol. 2009;34(2):201-207 · Shook SJ, et al. Muscle Nerve. 2022;65(2):147-153.

Os limites: a diretriz de ultrassom é uma recomendação de nível B (probabilidade, não certeza) e o resumo não traz sensibilidade nem especificidade. O dado de 76% vem de um ensaio pequeno, com pacientes de casos leves a moderados, e não vale para os casos com fraqueza.

Tratamento sem cirurgia

Uma revisão de 2024 observa que muitos casos leves a moderados parecem melhorar sozinhos, mas os estudos sobre a evolução natural são poucos e limitados, e que faltam diretrizes de tratamento. Foi isso que os estudos abaixo tentaram testar.

Informação, posições a evitar e exercícios de deslizamento do nervo

O que a evidência mostra

Um ensaio randomizado sueco incluiu 70 pacientes com sintomas leves ou moderados. Todos foram informados sobre a causa dos sintomas e sobre como evitar o que os provoca, e depois divididos em três grupos: tala noturna, exercícios de deslizamento do nervo e grupo de controle (só a informação). Dos 70, 57 foram reavaliados aos 6 meses e 51 (89,5%) estavam melhores. Não houve diferença significativa entre os grupos em nenhuma medida: a tala noturna e os exercícios não acrescentaram benefício.

A revisão Cochrane de 2025 registra, a partir de um ensaio pequeno, que nos casos leves a informação sobre movimentos e posições a evitar pode reduzir o desconforto referido pelo paciente.

Fontes: Svernlöv B, et al. J Hand Surg Eur Vol. 2009;34(2):201-207 · Caliandro P, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2025;(4):CD006839.

O limite: como todos receberam a informação, o estudo não separa quanto da melhora se deve à orientação, quanto ao tempo e quanto ao acaso. Foi um ensaio pequeno, e 13 dos 70 pacientes não foram reavaliados.

Tala noturna: dois resumos que parecem discordar

O que a evidência mostra

Revisão de 2025 só sobre tala noturna. Os autores encontraram um único ensaio randomizado, com risco alto de viés, que comparou tala noturna com orientação apenas: sem diferença entre os grupos. O ensaio tinha poucos participantes e muita perda de seguimento. Outro ensaio e três estudos de um só grupo, todos com risco de viés alto a crítico, sugerem que a maioria dos pacientes com casos leves ou moderados melhora com a tala, mas não é possível saber se a causa foi o tratamento ou o tempo. A certeza da evidência foi muito baixa, e os autores concluem que ela é insuficiente para dizer se a tala deve ou não ser recomendada.

Metanálise de 2023. Reuniu 20 estudos (687 casos): melhora dos sintomas em 89% dos que usaram tala (IC 95% 69 a 99) e em 54% dos que receberam infiltração de corticoide ou lidocaína (IC 95% 41 a 67). Os autores concluíram que os dois tratamentos são opções e que a tala tem taxa de melhora maior.

Fontes: Bateman M, et al. Hand Ther. 2025;30(3):105-112 · Natroshvili T, et al. Arch Plast Surg. 2023;50(1):70-81.

Os dois resumos não se contradizem, e sim respondem a perguntas diferentes. A metanálise de 2023 soma proporções de pessoas que melhoraram em estudos distintos, incluindo séries sem grupo de comparação; por isso o 89% mostra que muita gente melhora usando a tala, mas não que a melhora venha dela. O intervalo (69 a 99) também é largo. Quando a tala foi comparada de frente com orientação apenas, não apareceu vantagem.

Infiltração

O que a evidência mostra

A revisão Cochrane de 2025 considera de certeza muito baixa a evidência sobre infiltração de corticoide contra placebo: não se sabe se há efeito sobre a melhora clínica. Um único ensaio sugeriu que a infiltração de dextrose perto do nervo pode reduzir a dor aos 4 e aos 12 meses em relação ao placebo; outro ensaio não mostrou diferença na melhora clinicamente relevante entre dextrose e corticoide.

Fonte: Caliandro P, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2025;(4):CD006839.

Ou seja: a taxa de 54% citada acima vem de estudos sem comparação adequada, e os ensaios com comparação são poucos e pequenos. A decisão de infiltrar é individual.

Cirurgia

O que a evidência mostra

Descompressão simples ou transposição do nervo? A revisão Cochrane de 2025 incluiu 15 ensaios (970 participantes). Na comparação entre apenas liberar o nervo (descompressão simples) e liberar e mudar o nervo de lugar (transposição), há provavelmente pouca ou nenhuma diferença na melhora da função: transposição sob a pele, risco relativo 0,92 (IC 95% 0,74 a 1,14; 1 estudo, 147 participantes); transposição sob o músculo, 0,95 (IC 95% 0,77 a 1,17; 2 estudos, 114 participantes). Infecção de ferida: 0,29 (IC 95% 0,06 a 1,35) e 0,35 (IC 95% 0,10 a 1,21), respectivamente. A conclusão vale, segundo os autores, mesmo quando o comprometimento do nervo é grave, com certeza de baixa a moderada.

Aberta ou endoscópica? Em 2 ensaios (99 participantes), sem diferença na melhora medida pelo escore de Bishop (risco relativo 0,98; IC 95% 0,84 a 1,14), com certeza moderada de que não há diferença na função nem nas complicações do procedimento.

Fonte: Caliandro P, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2025;(4):CD006839.

O limite: foram poucos estudos e pequenos, só em neuropatia sem causa identificada (idiopática), e "pouca ou nenhuma diferença" com intervalos amplos, como o das infecções, não prova que as técnicas sejam equivalentes em segurança. Essa revisão não compara cirurgia com não operar nos casos leves.

Operar cedo ou tarde? O que se sabe da recuperação

O que a evidência mostra

Coorte de 55 pacientes, todos operados com descompressão simples e seguidos por 1 ano. Quem tinha menos de 3 meses de sintomas melhorou 12 pontos a mais (IC 95% 0,9 a 23,5) no escore de função da mão (MHQ) aos 3 meses e 13 pontos a mais (IC 95% 2,9 a 24) aos 6 meses do que quem tinha 3 meses ou mais. Aos 12 meses a diferença não se mantinha, porque a maioria se recuperou em 3 a 6 meses.

Série de 15 pacientes com doença grave (atrofia acentuada dos músculos da mão, mão em garra, sem condução elétrica mensurável), vistos em média 4,5 anos depois da cirurgia: todos os resultados melhoraram. A dormência desapareceu em 5 pacientes e diminuiu bastante em 9; a abdução do indicador teve força grau 4 ou 5 em 11 dos 15, mas metade dos pacientes com mais de 70 anos ficou no grau 3 ou menos. A recuperação da condução do nervo continuou depois de 2 anos.

Fontes: Burns PB, et al. Arch Phys Med Rehabil. 2014;95(4):680-685 · Matsuzaki H, et al. J Hand Surg Am. 2004;29(3):373-378.

Os limites: a coorte tem poucos pacientes, todos operados, e não tem grupo sem cirurgia; o corte de 3 meses é um ponto de análise, não um prazo de tratamento. A série de casos graves é retrospectiva, sem grupo de comparação, e mostra que pode haver melhora mesmo em casos avançados, mas não diz quanto teria melhorado com outra conduta nem quanto teria sido a recuperação se a cirurgia fosse mais cedo.

Como as opções se encaixam

A escolha depende do grau de fraqueza, do tempo de sintomas, do exame e do que você faz com o braço no dia a dia, e se decide com quem examina o seu cotovelo e a sua mão.

⚠️ Quando procurar avaliação

  • Perda de força na pinça ou na garra: dificuldade para segurar objetos finos, abrir tampas ou girar uma chave, ou a mão ficando desajeitada.
  • Músculo afundado entre o polegar e o indicador, no dorso da mão, em comparação com o outro lado: pode ser atrofia do primeiro interósseo dorsal.
  • Dedos em garra: anular e mínimo dobrados, que não esticam por completo.
  • Dormência constante no anular e no mínimo, que deixou de alternar com períodos de alívio.
  • Sintomas que pioram semana após semana mesmo evitando as posições que os provocam.
  • Fraqueza súbita no braço junto de fala arrastada ou rosto torto: ligue SAMU 192.

Os quatro primeiros sinais indicam compressão possivelmente mais avançada. Nos casos graves da série de Matsuzaki houve melhora após a cirurgia, mas ela levou anos e foi menor em quem tinha mais de 70 anos.

Formigamento no anular e no mínimo?

A avaliação confirma se é o nervo ulnar, verifica a força da mão e discute com você observação, tala, infiltração ou cirurgia.

Agendar avaliação

Referências científicas

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Os estudos citados têm limites que estão descritos no texto; a escolha entre observação, tala, infiltração e cirurgia deve ser individual.